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Empreendedorismo

Amerifarms. A ‘startup’ de marijuana que está a dar que falar

Quatro amigos de Silicon Valley trocaram a tecnologia pela agricultura e transformaram a quinta do avô numa estufa com 2.200 plantas de "cannabis". Produzem 40 mil dólares por dia em óleo de haxixe.

Getty Images

São dois irmãos e dois amigos, e estão a gerir uma plantação de marijuana como se fosse uma startup, em Seattle, nos Estados Unidos da América. Dois anos depois de o estado de Washington ter legalizado a utilização recreativa de cannabis, Josh Chase, Alex Curry, Miles e Connor Deife despiram os fatos de executivos para fazerem aquilo que a maior parte dos empreendedores faz: arriscar num negócio incipiente. Neste, a droga, que o Governo federal norte-americano classifica de classe 1, é o produto final.

A história de Josh, Alex, Miles e Connor, que têm entre 23 e 25 anos, começa na Universidade de Santa Clara, em Silicon Valley, mas muda-se para a quinta do avô dos dois irmãos pouco tempo depois de terminarem os estudos. A engenharia informática de Alex e a análise financeira de Josh deram lugar a um campo onde só existiam vacas a pastar e é aí que querem construir um negócio de milhões de dólares – tal como qualquer empreendedor de Silicon Valley. Estarão os quatro amigos a estrear uma nova área de negócio em pleno epicentro tecnológico?

A história é contada no Mashable. Enquanto os colegas de universidade trabalham em empresas como Facebook ou Google, incubadoras tecnológicas ou sociedades de capital de risco, os quatro amigos renderam-se a um mercado que acabava de emergir. Josh já tinha trabalhado em seis ou sete startups, mas queria arriscar num negócio que lhe permitisse crescer. Encontrou-o na marijuana. A quinta tem, neste momento, cerca de 2.200 plantas em várias fases do crescimento, mas tem capacidade para mais sete mil.

Por ser considerada uma droga de classe 1, os empreendedores são obrigados a reportar diariamente a sua atividade ao Governo. A estufa, onde produzem a marijuana, demorou cerca de um ano a ser construída e os jovens puderam contar com a ajuda de agricultores locais. Mas para erguer a empresa, a Amerifarms, houve uma ajuda que foi fundamental: a da mãe de Miles e Connor.

Eu e o Miles fomos apanhados muitas vezes pela nossa mãe a fumar marijuana”, explicou Connor, o que justifica o facto de a mãe não ter ficado surpreendida quando os filhos lhe contaram que queriam fazer da planta negócio.

Foi ela quem ajudou a convencer o avô a alinhar no investimento dos netos. Para lançar a empresa, os quatro jovens precisaram de cerca de 350 mil dólares (290,4 mil euros), que pediram emprestados a amigos e familiares.

O dinheiro não era o único problema dos quatro amigos. Por ser uma startup pioneira, não existia nada escrito sobre o assunto. Durante o processo, os quatro amigos visitaram várias empresas que produzem marijuana para fins medicinais, na Califórnia, e Josh aumentou as suas competências em agronomia e liderança.

Como gerir um negócio de grande escala de marijuana? Nada como aprender com os melhores. Foi por isso que Josh dedicou parte do ano a ler sobre Steve Jobs. Outro grande aliado: o Youtube. Na Amerifarms, não existe um presidente executivo – a liderança é partilhada pelos quatro jovens.

3,6 mil quilogramas de marijuana para produzir óleo de haxixe

Em dezembro de 2014, a empresa começou a vender o “Juicy Fruit” aos comerciantes. Miles disse ao Mashable que fazem cerca de 40 mil dólares (33,2 mil euros) por dia em óleo de haxixe – utilizado em produtos medicinais – e que têm um contrato de cerca de um ano para transformar 3,6 mil quilogramas de marijuana nesse produto.

A Amerifarms tem uma licença que permite produzir e embalar marijuana, mas também produtos feitos à base da planta. É por isso que podem produzir óleo de haxixe – resina extraída das folhas e das inflorescências femininas da planta cannabis sativa. Antes de venderem a marijuana aos comerciantes, esta tem de ser testada em laboratório. Objetivo: verificar se as plantas cumprem com os requisitos legais, ou seja, se não têm mofo, bolor ou outro organismo vivo.

Tal como uma startup tecnológica, uma quinta de marijuana precisa de escalar rapidamente, explicou Michael Zaytsev, um empreendedor de Nova Iorque que trabalha para ligar o mundo tecnológico à cannabis. Nos próximos 14 meses, os jovens esperam atingir o break-even (ponto de equilíbrio, em que não há nem perdas nem lucros). Isto significa que vão ser capazes de reembolsar a dívida de 290 mil dólares (240 mil euros) que contraíram, em breve. Um dos próximos passos passa por aumentar os salários dos fundadores e começar a expandir a empresa.

De acordo com a agência independente Economic and Revenue Forecast Council, é espectável que a marijuana consiga gerar cerca de 600 milhões de dólares (498 milhões de euros) em impostos nos próximos cinco anos. Não é de estranhar que a cannabis seja uma das culturas que mais rende no estado de Washington, tendo ficado logo atrás das maçãs e do trigo.

Em Washington, existem 66 produtores e foram concedidas 266 licenças para a produção de marijuana. À espera de autorização, estão cerca de 180 candidaturas. De acordo com Condotta, do House Government Accountability and Oversight (responsável pela regularização do tabaco, bebidas alcoólicas e marijuana) – que se descreve a si próprio como conservador -, a marijuana “é uma indústria de mil milhões de dólares” e que iniciativas deste género já deviam ter surgido há cerca de dez ou quinze anos.

Transformar um produto pouco ortodoxo num negócio de milhões? Em Washington, parece que sim. O futuro do empreendedorismo também pode vir da terra. Neste caso, da “erva”.

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