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Literatura

Os livros que vamos querer ler em 2016

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Duas obras da mais recente Nobel da Literatura, Svetlana Alexievich, um romance de José Rentes de Carvalho, um livro surpreendente sobre o Holocausto, uma nova colecção infantil - e muito mais.

No próximo ano chegam dois novos livros da Nobel da Literatura Svetlana Alexievich

AFP/Getty Images

As editoras começam a preparar o ano com meses de antecedência e 2016 já fervilha de novidades literárias. Há novos romances de José Rentes de Carvalho, de Paulo Varela Gomes e do israelita Amos Oz para manter debaixo de olho. De Svetlana Alexievich, a mais recente Nobel da Literatura, chegam-nos dois livros, assim como de J. G. Ballard.

Uma das apostas da Quetzal para o novo ano é 2084, de Boualem Sansal, que valeu ao autor o Prémio da Academia Francesa. Uma história que lembra Submissão, de Michel Houellebecq. “É uma distopia sobre como será o mundo numa ditadura global muçulmana. O autor é argelino, sabe do que fala, é um livro atualíssimo”, explicou Francisco José Viegas ao Observador. Sai em maio. No mesmo mês é publicado M Train (ainda sem título em português), da cantora, compositora e poeta Patti Smith, cinco anos depois de a mesma editora ter feito chegar a Portugal o incrível Apenas Miúdos.

Em março chegará O Demónio da Depressão, de Andrew Solomon, a biografia de Carlos Mota Pinto escrita por João Pedro George e um novo romance de José Rentes de Carvalho, cujo título o responsável pela Quetzal não adiantou. “É uma história violentíssima. Acho que o Portugal rural e o Portugal dos emigrantes que regressam ao mundo rural nunca foi tratado assim. Está lá a perversidade toda, moral e sexual”, descreveu. Despindo a pele de editor e vestindo a de escritor, Francisco José Viegas vai publicar pela Porto Editora A poeira que cai sobre a terra e outras histórias de Jaime Ramos, o primeiro livro de contos do inspetor protagonista dos seus policiais.

José Rentes de Carvalho

O novo romance de José Rentes de Carvalho retrata de forma violenta o Portugal rural. ©Natacha Cardoso / Global Imagens

Nasceu em 2015 e já mostrou que as suas publicações devem ser seguidas com atenção. A Elsinore, chancela da editora 20|20, começa o novo ano com dois livros de Svetlana Alexievich, a mais recente Nobel da Literatura. Dela só está publicado em Portugal O Fim do Homem Soviético. Em fevereiro chega Vozes de Chernobyl, sobre a tragédia na central nuclear de 1986, e em setembro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, registo das memórias das mulheres que estiveram na Segunda Guerra Mundial. As três obras integram o ciclo “Voices of Utopia”, uma espécie de enciclopédia vermelha a que a escritora e jornalista bielorrussa se dedicou ao longo de três décadas.

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“Vozes de Chernobyl” é um dos dois livros de Svetlana Alexievich que serão publicados em Portugal em 2016

O jornalista Paulo Moura vai publicar dois livros de jornalismo literário, bastante distintos um do outro. O primeiro, Extremo Ocidental, sai em maio e é a continuação de uma série de histórias com o mesmo nome que saíram no jornal Público, fruto de uma viagem de mota ao longo da costa portuguesa, entre Caminha e Sagres. O segundo livro, ainda sem nome, é um apanhado dos últimos 25 anos de conflitos armados na Europa, Península Arábica e em África, desde a Guerra da Bósnia até à Primavera Árabe, passando pelo Sudão, Iraque e Chechénia. Todos relacionados de uma forma ou de outra com o Islão, explicou ao Observador. Não se trata de um livro histórico, mas de reflexões e histórias contadas pelo repórter, que passou por estes conflitos.

Na ficção, a Elsinore aposta no mais recente romance de Eimear McBride, Uma Rapariga é Uma Coisa Inacabada, e em duas obras de J. G. Ballard, falecido em 2009: Crash, que foi adaptado ao cinema por David Cronenberg, e Kingdom Come, olhar moderno sobre a sociedade de consumo e o que a separa do fascismo.

Web

Já tudo foi dito sobre o Holocausto? Pode parecer que sim, mas depois escrevem-se livros como Terra Negra e percebemos que ainda há coisas por dizer e novas formas de interpretar o que terá levado Hitler a matar seis milhões de judeus. Timothy Snyder reuniu aqui novas informações sobre o regime nazi na Europa de Leste e conseguiu “a melhor e mais implacável análise do que foi o colaboracionismo no Leste europeu”, escreveu o jornal The Guardian. Foi um dos livros do ano para o El País (e para o Observador) e chega em português a 5 de fevereiro, pela Bertrand.

Numa altura em que os escândalos de corrupção na FIFA têm estado nas manchetes, o jornalista Luís Aguilar publica, também em fevereiro e pela Bertrand, FIFA Nostra. O título remete para a máfia siciliana e quer mostrar que “os tentáculos da organização chegavam muito além do futebol. Corrupção, branqueamento de capitais, evasão fiscal, promiscuidade com a política, tudo o que afasta os adeptos do desporto-rei”, adiantou a editora ao Observador. O livro sai uma semana antes das eleições na FIFA, altura em que se conhecerá o sucessor de Joseph Blatter, atualmente impedido durante oito anos de exercer qualquer atividade ligada ao futebol.

No segundo semestre do ano chega-nos, pela Alêtheia, o mais recente romance do chinês Mo Yan, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 2012. Frog, ou em português, parte da política de filho único implementada na Chin há mais de 30 anos.

Pouco antes de morrer, no passado dia 13 de abril, o Nobel da Literatura Günter Grass deixou um livro pronto. Sobre a Finitude chega a Portugal em abril de 2016 pela mão da Dom Quixote e é uma mistura de prosas, poemas e desenhos a lápis do escritor alemão, onde se incluem reflexões sobre a morte e até críticas à chanceler Angela Merkel.

Israeli author, Armos Oz, the main guest of Budapest's annual book fair poses among his books in the hall of Millenaris Culture Center of Budapest on April 22, 2010 following the opening ceremony of the 17th International Book Festival (IBF) of Budapest. The IBF hosts representatives of world literature and domestic intellectual life including more than 100 authors from 24 countries and more than 400 Hungarian authors, scientists, and artists as the main gust-country is Israel with their world famous writer Amos Oz. AFP PHOTO / GERGELY BOTAR (Photo credit should read GERGELY BOTAR/AFP/Getty Images)

No novo romance, Amos Oz olha de forma nova para a história do homem que traiu Jesus e chega a questionar a existência do Estado de Israel. ©GERGELY BOTAR/AFP/Getty Images

Fevereiro começa com Judas, de Amos Oz. No novo romance, o escritor israelita olha de forma nova para a história do homem que traiu Jesus e chega a questionar a existência do Estado de Israel. O escritor Alberto Manguel considerou-a “uma obra-prima, absoluta e necessária”. Uma recomendação que vale ouro.

Do mestre escandinavo de policiais Jo Nesbø, a Dom Quixote publica Baratas, segunda aventura do anti-herói Harry Hole. Apesar de já terem sido publicados em Portugal sete policiais protagonizados por Harry Hole, o primeiro de todos, Morcego, escrito em 1997, só chegou cá este ano. O segundo que escreveu será publicado em fevereiro. No mesmo mês é editado um novo livro de Inês Pedrosa, Desnorte, e em março Luísa Costa Gomes, que este ano venceu por unanimidade o Grande Prémio de Literatura dst, dá a conhecer A Vida de Ramos.

Voltando aos thrillers, Michelle Miller pegou na sua experiência no mundo da finança e perguntou-se: será que é possível escrever uma história e levar os leitores a sentirem empatia por banqueiros? Os Ambiciosos começou por ser uma novela online em 12 partes mas ganhou vida própria. O romance chega a Portugal pela ASA em fevereiro e encontra-se atualmente a ser adaptado para televisão. Ainda vamos ouvir falar muito desta história de quatro jovens que querem conquistar o mundo com a criação de uma nova aplicação social de engate, chamada Hook.

Por falar em alta finança, em janeiro a Lua de Papel faz chegar até nós um dos mais importantes livros sobre a ganância e a crise do subprime: A Queda de Wall Street, de Michael Lewis. O livro inspirou o filme com o mesmo nome, que também estreará em janeiro, com Brad Pitt, Christian Bale, Steve Carell e Ryan Gosling.

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Versão brasileira da editora Companhia das Letras do livro “A Resistência”, de Julián Fuks

O autor brasileiro Julián Fuks escolheu como cenário a Argentina e o drama vivido após o golpe de Estado de 1976 para contar a história de uma família. A Resistência é uma das apostas da Companhia das Letras para 2016, chancela que também no deverá fazer chegar o terceiro e último livro de uma trilogia de João Tordo, iniciada com O Luto de Elias Gro, em 2015. Ainda na ficção, o grupo Penguin Random House aposta em Fever at Dawn, de Péter Gárdos, ainda sem título em português e cuja história vai poder ser vista nos cinemas húngaros esta semana. Na não ficção, sairá pela Objectiva Pós-capitalismo – Guia para o Futuro, onde o jornalista britânico Paul Mason critica o neoliberalismo por fazer do mundo um lugar mais desigual.

O segundo livro que a nova editora Ítaca vai publicar, no final de fevereiro, é o premiado (venceu o National Book Award) e muito elogiado Entre mim e o Mundo. Escrito pelo norte-americano Ta-Nehisi Coates, é uma reflexão profundamente indignada sobre o racismo e foi publicado numa altura em que a violência policial contra os afro-americanos estava na ordem do dia. Nesta espécie de carta para o filho, que acaba de fazer 15 anos, o escritor conta, e ao mesmo tempo questiona, como é ser-se negro e crescer na América.

O escritor Luís Miguel Rocha morreu em março de 2015, aos 39 anos. Um ano depois, a Porto Editora publica o livro póstumo Curiosidades do Vaticano. Com o selo da Sextante, vai sair O Sexo Inútil, um testemunho não ficcional escrito pela atriz Ana Zanatti. Na poesia, a Assírio & Alvim aposta em Ruy Cinatti, cujo centenário do nascimento foi celebrado em 2015. O título provisório do livro é Poesia Publicada em Vida.

Passaram 70 anos sobre o suicídio de Adolf Hitler e isso significa que os direitos da obra por ele escrita entram no domínio público. Assim, é natural que ao passar por qualquer livraria se depare com Mein Kampf — em português A Minha Luta. A editora E-Primatur já tem disponível o livro que é um manifesto do nacional-socialismo tal como Hitler o entendia em meados dos anos 1920, aqui com prefácio de António Costa Pinto. Também a editora Guerra & Paz tem nos seus planos a publicação da obra, com uma introdução de enquadramento histórico que revisita a história do nazismo.

mein kampf a minha luta

A edição da E-Primatur tem 656 páginas e custa 19,80€

A E-Primatur tem um sistema de edição diferente, uma vez que está dependente do crowdpublishing, ou seja, do financiamento de quem quer ver os livros editados. Mas, de acordo com Hugo Xavier, um dos responsáveis pela editora, as apostas vão para Voss, romance do Nobel da Literatura australiano Patrick White, nunca editado em português, assim como para O Caso do Camarada Tulayev, de Victor Serge, uma tragicomédia em torno do período de terror estalinista e também nunca traduzido para português. A nova chancela BookBuilders, que vai começar atividade em janeiro, quer estrear-se com A História Natural da Estupidez, de Paul Tabori. “Um ensaio do pensamento e uma divertida análise da evolução histórica da Humanidade”, sublinhou Hugo Xavier.

A coleção de poesia dirigida por Pedro Mexia e a coleção de literatura de viagens com direção de Carlos Vaz Marques vão ter novos volumes em 2016. Pela primeira, a Tinta-da-China faz sair Europa, de Rui Cóias e, pela segunda, Sibéria, de Olivier Rolin. Nos romances, atenção a Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes, vencedor do Prémio PEN Clube Português deste ano na categoria de Narrativa com o livro Hotel.

No primeiro semestre do ano, a Gradiva vai publicar A Orgia Identitária, um novo livro do ensaísta Eduardo Lourenço, e também o livro de banda desenhada Os Doze de Inglaterra, com texto de Raúl Correia e desenhos de Eduardo Teixeira Coelho. A história foi inicialmente publicada no jornal juvenil O Mosquito, entre 1950 e 1951, e surge aqui compilada por José Ruy, dando mais destaque às ilustrações.

Holly Stykes foge de casa dos pais para viver com o namorado. Assim começa a história que fez chegar David Mitchell à seleção do National Book Award e do Man Booker Prize deste ano, com o livro As Horas Invisíveis. Sai em janeiro pela Presença. A mesma editora lança mais um título de Ken Follett, Uma Terra Chamada Liberdade.

A pensar nos mais jovens, a Saída de Emergência vai iniciar uma coleção intitulada Os Aventureiros, da autoria de Isabel Ricardo. O primeiro livro chama-se Os Aventureiros na Gruta do Tesouro e quer “desenvolver o gosto pela leitura aos mais novos”, adianta a editora ao Observador. Da Booksmile, a grande novidade é 11.º livro da coleção O Diário de um Banana, mas será preciso esperar por novembro.

Na gastronomia, os seguidores da chef Justa Nobre vão poder pôr as mãos num novo manual da cozinha tradicional portuguesa com versões modernas, chamado Semear Sabor e Colher Memórias. Sai em maio pela Vogais. Já a Presença aposta em Brunch, um conjunto de receitas de Joana Limão para quem gosta de juntar o pequeno-almoço e o almoço num só, e ainda em Bolachas na Caneca, que se podem fazer em dois minutos no micro-ondas.

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