Logo Observador
Lisboa

Donos do Jamaica, Tokyo e Europa tentam salvar espaços míticos da noite lisboeta

129

Já há uma petição, já há indignação entre os noctívagos e agora também já há uma reunião agendada entre todas as partes envolvidas para tentar que nada mude na noite do Cais do Sodré.

Um incêndio no Jamaica foi o que levou à recuperação de toda a Rua Nova do Carvalho, há quatro anos

© JPP/HT Observador

Autor
  • João Pedro Pincha
Mais sobre

Para muitos lisboetas, só há uma melodia a marcar o fim das noites de sexta e sábado. Esta:

Esta é a música que encerra as noites do Jamaica, todos os dias. Brevemente, contudo, esta famosa discoteca do Cais do Sodré pode muito bem tocar a última das valsas. Soube-se este domingo que o Jamaica, o Tokyo e o Europa têm de fechar a meio do próximo mês de abril. O edifício que ocupam, devoluto do rés-do-chão para cima, vai ser transformado num hotel.

A carta de despejo chegou em outubro passado, mas só agora é que o dono do Tokyo e do Jamaica decidiu tornar a situação pública. Segundo Fernando Pereira, os cerca de 30 proprietários do edifício pretendem vendê-lo a uma imobiliária que já tem um acordo com um grupo hoteleiro francês. A ideia é fazer ali um “hotel dedicado à música”, no qual há espaço para um dos três míticos bares da noite lisboeta, garante o empresário. “Planearam todo o projeto para manter o Jamaica no local”, enquanto os sítios atualmente ocupados pelo Tokyo e o Europa estão destinados a balneários de um ginásio e spa, de acordo com Fernando Pereira.

A manutenção do Jamaica no futuro hotel vem com um preço, no entanto. Em 2011, na sequência de problemas no prédio, o dono do Jamaica e do Tokyo viu-se obrigado a fazer obras de reparação. Fernando Pereira exige uma indemnização a rondar os 260 mil euros pelos trabalhos, mas alega que os senhorios só acautelam o futuro do Jamaica se desistir do processo. “É chantagem”, declara. Esta segunda-feira, o empresário afirma ter estado em tribunal nas alegações finais do caso, cuja decisão final se deverá conhecer dentro de algumas semanas.

Entretanto, e porque a contestação dos frequentadores destes espaços se alastrou rapidamente pelas redes sociais, os empresários do Tokyo, Jamaica e Europa lançaram uma petição pública na qual pedem à Câmara Municipal de Lisboa que não emita um “documento que ateste que a operação urbanística constitui, nos termos da lei, uma obra de demolição ou uma obra de remodelação ou restauro profundos”. Na prática, sem esse documento, os bares não precisam de sair.

A petição, que tem já mais de 1.500 assinaturas, é semelhante ao texto que os empresários enviaram à câmara na quinta-feira passada. A transformação do prédio num hotel “não conflitua” com a manutenção dos bares abertos ao público, “ainda que possa implicar eventuais interrupções (temporárias, claro está) da respetiva atividade, o que se aceita”, escrevem. Dessa carta nasceu já um primeiro passo: na sexta-feira, 18 de março, todas as partes — câmara, inquilinos e promotores imobiliários — vão sentar-se à mesma mesa.

O Jamaica e o Tokyo são dois dos espaços noturnos mais antigos de Lisboa. O primeiro está à beira de completar 45 anos de existência, enquanto o Tokyo já tem 48 anos. Durante muitos anos foram frequentados sobretudo por marinheiros e prostitutas, mas durante os anos 1980 e 1990 captaram um público que ainda hoje se mantém fiel. Com o encerramento ao trânsito da Rua Nova do Carvalho e a transformação dessa artéria na rua cor-de-rosa, voltaram a ser descobertos pelos lisboetas e tornaram-se uma das marcas do novo Cais do Sodré.

O Observador tentou contactar, sem sucesso, o representante dos proprietários ao fim da tarde, o advogado Diogo Tavares de Carvalho.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Educação

O Filipa e a escola pública

Maria José Melo

Portugal só será realmente um país civilizado quando existir consciência cívica por parte de todos os cidadãos. Foi esta visão que adquiri no Liceu D. Filipa de Lencastre e me acompanhou toda a vida.