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Lisboa

Donos do Jamaica, Tokyo e Europa tentam salvar espaços míticos da noite lisboeta

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Já há uma petição, já há indignação entre os noctívagos e agora também já há uma reunião agendada entre todas as partes envolvidas para tentar que nada mude na noite do Cais do Sodré.

Um incêndio no Jamaica foi o que levou à recuperação de toda a Rua Nova do Carvalho, há quatro anos

© JPP/HT Observador

Para muitos lisboetas, só há uma melodia a marcar o fim das noites de sexta e sábado. Esta:

Esta é a música que encerra as noites do Jamaica, todos os dias. Brevemente, contudo, esta famosa discoteca do Cais do Sodré pode muito bem tocar a última das valsas. Soube-se este domingo que o Jamaica, o Tokyo e o Europa têm de fechar a meio do próximo mês de abril. O edifício que ocupam, devoluto do rés-do-chão para cima, vai ser transformado num hotel.

A carta de despejo chegou em outubro passado, mas só agora é que o dono do Tokyo e do Jamaica decidiu tornar a situação pública. Segundo Fernando Pereira, os cerca de 30 proprietários do edifício pretendem vendê-lo a uma imobiliária que já tem um acordo com um grupo hoteleiro francês. A ideia é fazer ali um “hotel dedicado à música”, no qual há espaço para um dos três míticos bares da noite lisboeta, garante o empresário. “Planearam todo o projeto para manter o Jamaica no local”, enquanto os sítios atualmente ocupados pelo Tokyo e o Europa estão destinados a balneários de um ginásio e spa, de acordo com Fernando Pereira.

A manutenção do Jamaica no futuro hotel vem com um preço, no entanto. Em 2011, na sequência de problemas no prédio, o dono do Jamaica e do Tokyo viu-se obrigado a fazer obras de reparação. Fernando Pereira exige uma indemnização a rondar os 260 mil euros pelos trabalhos, mas alega que os senhorios só acautelam o futuro do Jamaica se desistir do processo. “É chantagem”, declara. Esta segunda-feira, o empresário afirma ter estado em tribunal nas alegações finais do caso, cuja decisão final se deverá conhecer dentro de algumas semanas.

Entretanto, e porque a contestação dos frequentadores destes espaços se alastrou rapidamente pelas redes sociais, os empresários do Tokyo, Jamaica e Europa lançaram uma petição pública na qual pedem à Câmara Municipal de Lisboa que não emita um “documento que ateste que a operação urbanística constitui, nos termos da lei, uma obra de demolição ou uma obra de remodelação ou restauro profundos”. Na prática, sem esse documento, os bares não precisam de sair.

A petição, que tem já mais de 1.500 assinaturas, é semelhante ao texto que os empresários enviaram à câmara na quinta-feira passada. A transformação do prédio num hotel “não conflitua” com a manutenção dos bares abertos ao público, “ainda que possa implicar eventuais interrupções (temporárias, claro está) da respetiva atividade, o que se aceita”, escrevem. Dessa carta nasceu já um primeiro passo: na sexta-feira, 18 de março, todas as partes — câmara, inquilinos e promotores imobiliários — vão sentar-se à mesma mesa.

O Jamaica e o Tokyo são dois dos espaços noturnos mais antigos de Lisboa. O primeiro está à beira de completar 45 anos de existência, enquanto o Tokyo já tem 48 anos. Durante muitos anos foram frequentados sobretudo por marinheiros e prostitutas, mas durante os anos 1980 e 1990 captaram um público que ainda hoje se mantém fiel. Com o encerramento ao trânsito da Rua Nova do Carvalho e a transformação dessa artéria na rua cor-de-rosa, voltaram a ser descobertos pelos lisboetas e tornaram-se uma das marcas do novo Cais do Sodré.

O Observador tentou contactar, sem sucesso, o representante dos proprietários ao fim da tarde, o advogado Diogo Tavares de Carvalho.

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