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1.820 livros vendidos por hora e outras curiosidades da Feira do Livro de Lisboa

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O silêncio das bibliotecas deu lugar ao bulício das feiras. E é mesmo entre farturas e pipocas que os portugueses mais gostam de comprar livros. Entrevista com Eduardo Boavida, responsável da APEL.

A Feira do Livro de Lisboa ocupa o Parque Eduardo VII até 18 de junho.

www.facebook.com/feiradolivrodelisboa/photos/

Autor
  • Joana Emídio Marques

O livro será, provavelmente, um dos objetos mais polémicos de todos os tempos. Entre a glória dos seus autores e as fogueiras inquisitoriais, entre o silêncio das bibliotecas e a música das feiras, os livros de papel continuam a fazer o seu caminho alheios aos radicalismo humanos.

Há os que sobrevivem aos milénios, há os que morrem poucos meses depois de feitos nas lâminas de guilhotinar papel. Há quem os adore como sagrados, os cheire, os exiba numa estante encerada, há quem os compre nos supermercados entre batatas fritas e congelados.

Em Portugal, país com séculos de analfabetismo e apenas quatro décadas de escolarização alargada, a Feira do Livro de Lisboa representa o ponto alto da celebração do livro. Com as livrarias a desaparecerem e os hipermercados a ganharem terreno, é no meio das farturas e das pipocas que as editoras menos populares e os autores mortos, os grandes clássicos, os ensaios ou a poesia mais exigente podem encontrar leitores. Efetivamente, nos 18 dias da feira, vendem-se quase meio milhão de livros mas cada português compra apenas 1, 3 livros por ano. O que ilustra bem o impacto do evento.

O Observador pediu a Eduardo Boavida, da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) e responsável editorial da Bertrand, para nos guiar pelos meandros da vida dos livros em Portugal.

Porque é que os livros em Portugal têm quase todos o mesmo formato?
Os livros tendem a ter formatos aproximados, aqui entendidos enquanto dimensão do papel que os constitui. Seja em Portugal, seja no resto do mundo, a indústria editorial, tal como todas as outras indústrias, está sujeita a um conjunto de condições materiais que influenciam toda a sua atividade. Tomem-se como exemplo os formatos de papel com os quais se alimentam as impressoras usadas na indústria gráfica. Esses papéis permitem, com um mínimo de desperdício, diversas soluções de impressão e é dentro destas combinações que vamos encontrar os principais modelos adotados pelos editores. Veja-se, por exemplo, como se apresentam as edições da Amiga Genial, da italiana Elena Ferrante, que em Itália saiu numa edição de 20,8 cm x 13,5cm. Em França, publicou-se com 20,5 cm x14 cm; em Inglaterra e nos EUA com 23,5 cm x15,2 cm; em Espanha com 20,8 cm x 13,8 cm; finalmente em Portugal, a Relógio d’Água editou-o com 22,4 cm x 16,7cm. Resumindo, os formatos dos livros não são significativamente diferentes e por isso são sobretudo o trabalho gráfico e o design do livro que estabelecem a diferenciação formal entre os livros.

Quem escolhe a capa do livro, o autor ou o editor?
Quando um texto se encontra devidamente paginado, o editor entra em contacto com o capista (designer gráfico) que admite estar mais vocacionado para executar o trabalho, apresenta-lhe o manuscrito, disponibiliza-o para leitura, e sublinha o que pode ser relevante, no caráter da obra, para a realização da futura capa. Esta apresentação sintetiza aquilo que editor e autor julgam ser os contextos mais adequados para comunicar a obra aos leitores. Depois de devidamente enquadrado, o capista dá início ao processo criativo que, na maior parte dos casos, desagua em múltiplas propostas de capas alternativas. Estas acabam por ser avaliadas e a escolhida tem, normalmente, o acordo de todas as partes. O processo de seleção da capa não é procedimento singular. Trata-se de um processo de entendimento triplo que envolve capista, editor e autor, sempre com os leitores como pano de fundo.

Quanto é que custa um livro quando sai da tipografia?
O valor de custo de um livro tem grande variação mas, em média, pode dizer-se que oscila entre 20 e 25 por cento do seu preço de venda a público. Num livro que tenha uma tiragem elevada este valor percentual baixa e, pelo contrário, num livro com pequena tiragem aumenta.

Quanto recebe o autor por cada livro vendido ?
Em média, 10 por cento do valor da venda de um livro pertencem ao autor. Este valor médio engloba situações muito diversas que vão desde os autores portugueses aos estrangeiros envolvidos em obras de ficção e de não-ficção.

Quantas pessoas são precisas para fazer um livro?
Um livro para chegar às mãos de quem o lê pode passar por uma só pessoa, caso de edição digital de autor, ou pode envolver um vasto conjunto de participações. Numa estrutura editorial mais complexa tudo se inicia com o conteúdo autoral ao qual se podem acrescentar as contribuições do editor, do tradutor, do paginador, do revisor, do capista, do produtor/gráfico, da comunicação e do comercializador. Mas depois, e só para citar alguns, há ainda os fotógrafos, os ilustradores, os artistas plásticos e os transcritores. Portanto, quase nunca menos de 10 pessoas.

Quanto tempo demora em média o trabalho sobre um livro desde que é entregue à editora até ir para a tipografia?
Em média dois meses é tempo suficiente para todo o processo que vai da paginação até ao envio para a tipografia. Entre a tipografia e a livraria acresce um outro período nunca inferior a um mês. O que totaliza cerca de três meses.

O que acontece aos livros quando não são vendidos?
Os livros que deixam de ter boa aceitação do público e que, por isso, deixam de ter vendas, depois de um prolongado processo,que passa por diversos anos de comercialização com campanhas de lançamento, promoções, saldos e feiras, acabam por ser reciclados.

Os pontos de venda de comida, doçaria e petiscos tornaram-se parte da Feira do Livro.

Porque é que as grandes editoras já não vendem os livros que têm em armazém na Feira do Livro?
Por regra, os editores apresentam, na Feira do Livro de Lisboa, todos os títulos que têm nos seus armazéns porque este é um dos principais atrativos, seja para os editores seja para quem visita a feira.

O livro caro é mais interessante para as editoras do que o livro barato?
O livro caro, quando vende, gera volumes de negócio muito interessantes mas, quando não vende, determina também prejuízos muito elevados. Como o povo diz: “quanto maior a nau, maior é a tormenta”. Se, por um lado, considerarmos que um livro é caro quando tem um custo superior ao preço habitualmente praticado no mercado e se, por outro lado, considerarmos que os editores fixam o preço dos seus livros em função dos custos de produção que lhes estão associados, podemos concluir que algumas obras, dadas as suas especificidades, só podem ser vendidas a um preço elevado. Se os editores, tendo em atenção essas especificidades, acreditam que há público com capacidade para viabilizar a obra, editam-na, mesmo que esta tenha um preço elevado. De igual modo, estou certo que muitos projetos não se concretizam porque os editores só os conseguiriam executar praticando um preço final que consideram muito elevado.

Outras curiosidades sobre livros e leitores

  • O autor de língua portuguesa mais lido no mundo é… Paulo Coelho.
  • O autor mais traduzido de sempre é William Shakespeare.
  • O país com mais horas de leitura de livros é a Índia, onde cada pessoa lê, em média, 10 horas por semana.
  • Os livros mais vendidos de sempre são a Bíblia e O Livro vermelho de Mao Tsé Tung.
  • Bibliosmia é o nome dado à mania que certas pessoas desenvolvem de cheirar o interior dos livros.

Quais são os géneros literários que mais vendem em Portugal?
Em Portugal, no ano de 2016, o género que apresentou mais unidades vendidas foi o romance. Dentro desta categoria destacaram-se, por ordem decrescente de vendas, o romance de autores lusófonos, o romance traduzido e o thriller/policial. Logo a seguir as melhores vendas acontecem na ficção e na não-ficção infanto-juvenis.

Qual é o escritor português mais traduzido?
O escritor português mais traduzido é Fernando Pessoa, logo seguido por José Saramago.

E o escritor estrangeiro mais traduzido para português?
Não temos dados que nos permitam saber isto.

Quantas livrarias há em Portugal?
Temos em Portugal aproximadamente mil pontos de venda de livros, sendo que aproximadamente 600 são em hipermercados. Estes números não incluem tabacarias nem quiosques porque são pontos de venda que, embora possam também vender livros, estão essencialmente focados na comercialização de jornais e revistas.

Como é que se decidem as traduções de livros estrangeiros?
As traduções de livros estrangeiros são decididas pelo editor, em função da leitura do manuscrito original.

Bob Dylan, o mais recente Nobel da Literatura, é um dos destaques da feira deste ano.

Quantos livros se vendem por hora na Feira do Livro?
Na Feira do Livro de Lisboa, em 2016, venderam-se aproximadamente 400.500 livros, o que corresponde a uma média de 1.820 livros por hora.

Quantos livros por ano compram, em média, os portugueses?
O portugueses compram, em média, 1,3 livros por ano.

Durante quantos anos vigoram os direitos de autor?
Em Portugal os direitos de autor vigoram durante 70 anos após a morte do autor.

Porque é que os livros de bolso parecem ter tão pouca importância em Portugal, ao contrário da França e da Inglaterra?
Julgo que se trata sobretudo de uma questão de dimensão do mercado. Quanto menor é um mercado, mais difícil se torna desmultiplicar um mesmo título em múltiplos segmentos diferentes.

Porque é que não há romances ou ensaios recentes de autores portugueses a 6 e a 10 euros como em França?
A limitada presença dos livros de bolso a baixo preço, já aflorada na resposta anterior, acaba por se refletir nos hábitos de leitura que se adquirem e que depreciam o formato. Em França ou em Inglaterra, países onde o livro de bolso tem grande popularidade, é quase obrigatório publicarem-se neste formato os mais destacados autores locais e internacionais, e muitas vezes é até o escolhido para o lançamento de obras. Neste ponto a nossa atitude cultural afasta-nos de um fácil acesso às publicações mais recentes. Ainda assim esta realidade tem experimentado alguma alteração nos últimos anos com a difusão crescente de livros de bolso, nomeadamente através das chancelas BISLeya e 11×17.

Porque é que faltam nas livrarias tantas obras de referência de autores portugueses clássicos?
O mercado livreiro exprime uma relação entre o que os editores editam e o que os leitores adquirem. Assim, se em função da procura do público, a oferta de autores portugueses clássicos fosse contida, estou certo que os editores rapidamente se encarregariam de ocupar esse espaço. Temos que procurar fora das livrarias motivos para o desinteresse nos portugueses clássicos.

Há cada vez mais editoras a apostarem na venda de clássicos da literatura com edições apelativas aos mais novos.

A edição dos clássicos só interessa quando estes fazem parte das leituras do ensino secundário?
Ser capaz de editar os clássicos e chegar com eles aos leitores é o desejo de um elevado número de editores. Se esses clássicos estiverem aconselhados para o ensino, isso é um bom sinal pois reflete o reconhecimento público da importância do autor e da sua obra. Também é um bom princípio pois as leituras que são induzidas pelas escolas devem considerar os clássicos. Se os clássicos não estão aconselhados para o ensino, e ainda assim o editor considera que existe um público interessado na sua leitura, a decisão de os editar não se altera e por isso continuamos a assistir à sua publicação.

O que é e para que serve o ISBN?
O ISBN (abreviatura para International Standard Book Number), é um sistema que assenta em acordos internacionais e que identifica numericamente os livros, permitindo conhecer o seu país de origem e a sua editora. A principal finalidade do sistema é a rápida identificação numérica de um livro, permitindo um processamento eletrónico da informação que a ele está associada.

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