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Crítica de Música

Luís José Martins. Uma voz “incatalogável”

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O guitarrista dos Deolinda estreia-se com um álbum a solo esta sexta-feira, no mesmo dia do concerto de apresentação. Luís José Martins tem coisas para dizer e é um desperdício não as ouvir.

"Tentos - invenções e encantamentos" vai ser apresentado ao vivo esta sexta-feira no Teatro Maria Matos, em Lisboa

Primeiro: Luís José Martins é o guitarrista dos Deolinda, uma das bandas mais populares da música contemporânea portuguesa. Segundo: esta revelação a solo junta-o ao lote de magníficos compositores e intérpretes portugueses da guitarra clássica. Terceiro: este álbum tem no nome tudo o que diz ser.

Tentos é uma forma musical do renascimento, um género de composição para instrumentos de tecla e de corda, entre eles a harpa e a vihuela – a guitarra renascentista. Luís José Martins é um apaixonado pelo reportório de música antiga, sobretudo o vihuela, por ser familiar à guitarra que toca, mas também por ser “um repertório misterioso, sem época, meio inventivo, que saía dos cânones da época”. Mas no disco usa a palavra “tentos” de uma forma um pouco livre, virando-a para o lado da tentativa.

Invenções são os recursos técnicos que foi buscar e que se tornaram a base da construção de alguns momentos das peças, os lados mais inventivos, os estudos do instrumento.

Encantamentos são os lugares onde procura a poética, a expressividade, os lugares de contemplação.

Todos os temas são tentativas e em todos eles há momentos de invenção e de encantamento, todos os instrumentais são uma unidade com estas três características. Talvez por isso o resultado final seja, nas palavras do artista, uma mistura “incatalogável”.

Capa de Tentos – invenções e encantamentos (Shhpuma, 2017)

Tentos – invenções e encantamentos não é fácil. Nem de ouvir nem de fazer, porque exigiu muita aprendizagem, estudo e treino, demorou muito tempo até que o músico encontrasse uma voz. Ao Observador, revela que “foi um processo demorado e tortuoso”, mas é também isso que define Luís José Martins como um intérprete e compositor com diferentes camadas.

O guitarrista separa muito bem as componentes intérprete e criativa. Em Tentos revela uma faceta completamente diferente daquela que conhecemos dos Deolinda. Contudo, a história que o trouxe a este ponto não tem nada de misterioso.

Músico de formação clássica, passou pelo Conservatório, viveu em França durante dois anos onde estudou a vertente contemporânea da música, depois voltou a Portugal onde terminou o curso superior de Música. Por essa altura o irmão (Pedro da Silva Martins) “começou a aparecer com canções”. Antes dos Deolinda tiveram um projeto chamado Bicho de 7 Cabeças, ligado à música tradicional, que nos diz ter sido uma espécie de “continuação das brincadeiras de miúdo” (têm menos de dois anos de diferença de idade).

No mesmo ano em que formaram os Deolinda (2006) nasceu também o Power Trio (com Joana Sá e Eduardo Raon), onde Luís José Martins explorava o lado experimental da interpretação, em contraposição com a música de cariz popular dos Deolinda. A vontade de fazer um projeto a solo começou também por essa altura, resultado do desejo de “pôr em prática o lado mais criativo”, mas sentia que tudo o que fazia não o representava ou eram “um lugar comum ou demasiado fogo-de-artifício ou artificial”. Nunca se deixou conquistar pelas coisas que fazia, e por isso nunca fez delas uma assinatura.

O click aconteceu quando começou a trabalhar “em várias ideias ao mesmo tempo, a explorar mais do que um caminho. Motivei-me para ir trabalhar e para ir atrás dessa minha identidade”. E ela está na forma como se relaciona com a guitarra, no rigor, na investigação. Todos os temas de Tentos nasceram de recursos que foi catalogando, coisas dele, formas de tocar, técnicas menos ortodoxas que sentia “como lugares em que se expressava com naturalidade”. O músico pegou nesses recursos e fez deles o ponto de partida para cada ideia, para cada peça.

Tentos – invenções e encantamentos é introspetivo, denso e misterioso. Luís José Martins gravou todos os instrumentos e sons – guitarra clássica, percussões, eletrónica – no passado mês de fevereiro na igreja do Convento de São Bento de Avis e na antiga igreja do Convento de São Francisco, em Coimbra. Foi nestes lugares que encontrou “o som imersivo” que melhor representava o estilo que desenhou.

Existe uma espécie de negrume que percorre as seis (longas) faixas de Tentos – invenções e encantamentos, mas é um álbum, ao mesmo tempo, solene. Nele ouve-se a respiração (literalmente) e sente-se o ambiente dos conventos onde foi gravado. Mas podia ter sido no meio de uma planície ou uma montanha rochosa, às vezes a música tem o dom de nos levar a sítios que já conhecemos, outras o de os inventar.

Qualquer lugar que nos remeta para os dias pequenos, para o céu cinzento e vento frio. Daqui a uns meses este disco vai ser um cobertor quente. Tentos tem esse encantamento sem que seja preciso inventar muito. Basta que nos deixemos levar.

“Tentos – invenções e encantamentos” sai esta sexta-feira, dia 16. O concerto de apresentação acontece no mesmo dia, no Teatro Maria Matos, em Lisboa. No último trimestre deste ano dará início a uma digressão que se deverá estender para 2017.

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