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Crítica de Livros

Artur Pastor, o homem da Rolleiflex

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O espólio fotográfico de Artur Pastor é constituído por mais de 10 mil imagens e muitas são dedicadas ao mar. É esse fascínio que aparece agora em livro e numa exposição no Museu Marítimo de Ílhavo.

Praia da Rocha, 1943-45. © Arquivo Municipal de Lisboa. Colecção Artur Pastor

Título: Mar Nosso. Fotografia de Artur Pastor
Textos: Álvaro Garrido, Luís Pavão e Luís Martins
Editora: Âncora e Câmara Municipal de Ílhavo
Páginas: 176
Preço: 24 euros

Treze anos depois de ter sido adquirido pelo Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, o espólio de Artur Pastor (1922-99) foi exibido com tal surpresa e sucesso (2014) na galeria da Rua da Palma e no Pavilhão Preto do Museu da Cidade, que a sua itinerância pelo país viria a ser solicitada, como nenhuma outra na história daquela importante instituição patrimonial. Quem o diz é Luís Pavão, conservador do arquivo, que também considera que «este gigante da fotografia portuguesa» (p. 17) foi ostracizado pela historiografia da arte, que praticamente o eclipsou do nosso panorama fotográfico das décadas de 1950-60 em que se destacavam Augusto Cabrita, Eduardo Gagueiro, António Sena da Silva, Carlos Afonso Dias, Gérard Castello-Lopes, Victor Palla, António Costa Martins, Fernando Lemos e outros.

E, no entanto, este discreto regente agrícola nascido em Alter do Chão e crescido em Évora, que imperativos de serviço do Ministério da Agricultura transferiram por algum tempo para Montalegre e o serviço militar deslocara para Tavira, tinha em meados dos anos 50 um trabalho tão reconhecido que a Câmara Municipal da Nazaré o preferiu para encomendar um álbum de fotografias originais que pudesse ser oferecido à rainha Isabel II de Inglaterra aquando da sua visita a Portugal em fevereiro de 1957. Publicações prestigiadas como a Times (1962) acolheram a sua colaboração, e fotografias de Pastor foram incluídas nos relevantes Mulheres do Meu País de Maria Lamas (1948-50), Arquitectura Popular em Portugal (1961) e Évora. Encontro com a cidade património da humanidade de Túlio Espanca (1988), além de Portugal Romântico de Frederic Marjay (1955).

O fotógrafo construiu uma extensa obra que serviu de base à fototeca ministerial, com mais de 10.000 imagens documentando todo o tipo de trabalhos, espécimenes e cenas agrícolas, ou equipamentos técnicos do Estado, mas a orla marítima foi sem dúvida — a par do Algarve — o principal motivo do seu trabalho não forçosamente profissional: em 1943, com 21 anos apenas e uniforme militar, registou intensamente o espetáculo singular do copejo do atum ao largo de Tavira e outros aspetos da vida piscatória no Sotavento algarvio; em 1946, expôs «Motivos do Sul» em Faro, Évora e Setúbal, quase quinhentas fotografias (p. 10) entre as quais já um assinalável portefólio dedicado à pesca em Sesimbra; em outubro de 1949 fotografias suas de Sesimbra e em agosto do ano seguinte de Albufeira encheram as vitrinas da Casa Alvarez, na Rua Augusta, em Lisboa; em 1958 publicou Nazaré (ed. Livraria Portugal), um álbum dedicado a um motivo que já havia captado o interesse de muitos fotógrafos (de Stanley Kubrick a João Martins e Horácio Novaes); em 1965, por ocasião da abertura do aeroporto de Faro, editou Algarve (Bertrand), um documentário visual com quase 500 fotografias que é também uma monografia regional exaustiva, com textos seus, numa edição bilingue. Amendoeiras em flor (Tavira, 1957-64), já a cor, serve de matriz ao tipo de registo que também seria divulgado em cartões-postais e caixas de fósforos.

Santa Luzia, 1943-65 © Arquivo Municipal de Lisboa. Colecção Artur Pastor

Certo reconhecimento vem em finais de 1970, quando uma grande retrospetiva do seu trabalho se apresenta no Palácio Foz, sede do SNI: 320 imagens a preto e branco e 40 a cor, impressas por António Paixão, um técnico dos laboratórios Filmarte muito reputado entre fotógrafos dados ao salonismo expositivo. Em 1983, uma grande mostra sobre Lisboa ocupa os espaços nobres do Palácio Galveias. A participação em salões fotográficos, no país e no estrangeiro, confere vários primeiros prémios a Artur Pastor, e a experiência de maquetagem editorial para edições do Ministério da Agricultura vai habilitá-lo ainda mais para o desenho de uma dezena de álbuns temáticos prontos a imprimir, mas que ficaram em gavetas.

Ao dinâmico Museu Marítimo de Ílhavo não podia, portanto, passar despercebida a obra deste fotógrafo que, ao longo de duas ou três décadas, retratou a epopeia da beira-mar em muito diferentes registos e centros piscatórios da nossa geografia continental, e o livro que tenho sobre a mesa é também o catálogo da exposição homónima que ali decorre e assinala os 80 anos daquele importante centro museológico. A parceria do museu com a editora Âncora é tão certeira e apropriada como aquela que há duas décadas e meia motivou a petrolífera Shell ao patrocínio de um álbum sobre conchas do Aquário Vasco da Gama lançado pela Inapa.

Quem folheou a edição ilustrada de Os Pescadores de Raul Brandão organizada e prefaciada por Manuel Mendes em 1957 sabe muito bem quanto — ao longo duma invulgarmente extensa linha costeira de areia fina — a pitoresca singularidade etnográfica da arte da xávega, da variedade das embarcações pesqueiras e da recolha de moliço fertilizante agrícola se prestaram a abundantes registos fotográficos de maior ou menor qualidade estética, e uma versão local do «humanismo fotográfico» em voga. Mais de três décadas depois da primeira edição do livro de Brandão, e duas após o filme de Leitão de Barros dedicado à Nazaré, o cenário das vilas piscatórias e os meios e modos de pescar haviam mudado tão pouco que o diálogo entre aquela obra-prima do escritor e as fotografias ali recolhidas e impressas se pôde fazer sem arestas entre passado e presente.

Talvez pareça insólito, mas Palheiros do Litoral Central Português e Actividades Agro-Marítimas em Portugal, de Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, foram trabalhos realizados na década de 60 e impressos, respetivamente, em 1964 e 1975. E os livros de Paulo e Helena Lopes e de Francisco Oneto Nunes sobre a arte da xávega de Vieira de Leiria surgiram trinta anos depois destes, em 1995 e 2005, e o de Sara Soares sobre Quarteira em 2016. Pouco antes de 1970 quem chegasse à Fonte da Telha pela primeira vez surpreendia-se com grandes cabanas de pescadores, de telhados de colmo e negras paredes de tábua besuntadas a alcatrão, em plena praia. Era impactante.

Nazaré, 1954-57. © Arquivo Municipal de Lisboa. Colecção Artur Pastor

Ainda hoje, em certos lugares — se esquecermos as belas camisas rústicas de xadrez com botões de madrepérola (quem as tem guarda-as e estima-as como pode…) e capas e chapéus negros femininos, ou bois mansos e velhos esquálidos substituídos por tratores possantes — tudo o mais permanece praticamente imutável. Essa permanência dá a estas imagens de Artur Pastor, como as aqui reproduzidas em galeria ou as magníficas Lota na praia dos pescadores de Sesimbra (p. 73), Sinfonia branca: Albufeira (p. 93) e Aproveitando o Sol: Alfubeira (p. 119), uma perenidade cativante, que as faz prevalecer para lá do registo histórico que elas também são. E dão testemunho de um país que por não ter desbaratado por completo a sua vocação atlântica, marítima, conservou como pôde, ao longo da costa, pequenas — e pobres, é certo — comunidades à parte, dedicadas à faina pesqueira, que hoje coexistem quase paredes meias com estâncias balneares de intensa ocupação sazonal (Ericeira e Caparica parecem-me casos evidentes) ou formam grupos humanos quase secretos ou inacessíveis, vivendo um primitivismo que hoje não dispensa facebooks, tatuagens e bonés norte-americanos…

A vocação agro-marítima de muitas dessas comunidades, alternando «lavoura» agrícola e piscatória, em hortas familiares ou campanhas duma dúzia de indivíduos, é um dos traços mais relevantes dessa economia e modo de vida ancestrais, em que os tremendos perigos do oceano e a incerteza do fim do dia produtivo são o contraponto radical da experiência urbana desses tais veraneantes ou banhistas de ocasião. Pode, por isso, dizer-se que o interesse pela gente do mar que a fotografia registou ao longo dos tempos — não a dispensaram alguns dos primeiros escritos de Raul Brandão sobre pescadores, na revista Brasil-Portugal, em 1901 — tem um pouco desse fascínio pelo quotidiano primordial da vida ao ar livre em confronto cara a cara com os elementos naturais, uma qualquer forma de nostalgia do humano que já não há senão em recônditas partes da terra, que no fundo se prolongou nesse mar nostrum conquistado que dá título ao livro da Âncora e à exposição em Ílhavo.

A abordagem a essa realidade pode, portanto, ser extremamente variada — consentindo até «discursos» estranhos e desplicentes, como o de Cristiana Bastos no catálogo pdf de Artur Pastor do Arquivo Fotográfico Municipal (de que o presente livro é de certo modo um sucedâneo, a começar pela capa idêntica), e o de Luís Martins, que em Mar Nosso evoca Walter Benjamin e outros intelectuais para se reportar a uma realidade humana que não tem condições de compreender isso. Bendito seja Raul Brandão — uma vez mais e sempre — que diante dum velho amigo morto, o arrais Manuel Vareiro, da Cantareira (Porto), disse que falaria dele com palavras rudes porque se envergonharia se o fizesse doutra maneira.

Bastos vai quase ao ponto de acusar Pastor de cumplicidade política com o regime de Salazar, porque nas suas fotografias — não encenadas, por sinal — «todos são felizes», incluindo os peixes: «os peixes a secar nas redes são bonitos, e talvez até eles, contagiados por esta felicidade irradiante e difusa, sejam felizes» (sic! — p. 103), deixando ao mais simplório pretensiosismo literário tudo o que lhe falta em bom senso. A oportunidade, que desperdiçou, de confrontar como antropóloga, por exemplo, o trabalho de Pastor com o dos fotógrafos envolvidos nas «heróicas» campanhas dos membros do Museu Nacional de Etnologia — que foi muito mais ativo, melhor e teve maiores meios antes do que depois de 1974-75… — em idênticos trabalhos de campo, foi trocada por uma abordagem muito superficial que se refere a «nada de miséria, de sofrimento, revolta, desejo de mudança e reforma; nada a denunciar ou a oferecer aos olhos da filantropia, da reforma social ou da revolução. Pelo contrário, temos aqui um país de conformados, de acatamento dignificado, o país de Salazar» (p. 105), «o país de Artur Pastor, sem cheiros nem mágoas, sem fome nem dor, sem exploração nem rancor» (p. 103). Não se passa disto; a corrupção política-ideológica da universidade portuguesa é um caso sério.

Em contrapartida, todos podemos contar com o trabalho exemplar de Artur Pastor Filho, que atrás de um grupo público de Facebook (mais de 4.000 seguidores), divulga e dissemina estas imagens sem comentários exdrúsculos, deixando ao critério de cada um «sentir o olhar» daquele fotógrafo que — sem culpa — gostava do país e da sua gente. Eis uma forma expedita e contemporânea de divulgação que tem a vantagem adicional de contornar o facto de a Câmara Municipal de Lisboa não ter querido gastar dinheiro na impressão («dificuldades de vária ordem», justifica sibilinamente Luís Pavão, p. 9) dum álbum que é sempre uma presença física estimável e um meio de ver séries fotográficas em dimensões apropriadas e justas.

O livro desequilibra-se um pouco na diferença tonal das reproduções, e podia talvez ter ido mais longe, recuperando textos de Pastor sobre os motivos e lugares que abordou. A colorida e geométrica fotografia Casacos a secar (Nazaré, anos 1960) também daria, creio, uma belíssima capa, simbolizando o contínuo recomeçar dessa faina, afinal tão antiga como nobre.

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