Crítica de Livros

“La Belle Sauvage”: valeu mesmo a pena esperar

"La Belle Sauvage" é o primeiro volume da nova trilogia de Philip Pullman e marca o regresso do escritor ao universo de "Os Reinos do Norte". Foram precisos 17 anos, mas valeu a pena.

"La Belle Sauvage" é o volume inaugural da trilogia "O Livro do Pó". Foi publicado em outubro em Inglaterra e chegou a Portugal em janeiro

AFP/Getty Images

Título: O Livro do Pó – La Belle Sauvage
Autor: Philip Pullman
Editora: Editorial Presença
Páginas: 391

La Belle Sauvage marca o regresso de Philip Pullman ao universo de Os Reinos do Norte. A edição portuguesa, da Editorial Presença, saiu em janeiro

Dezassete anos depois da publicação de O Telescópio de Ambar, último volume de His Dark Materials (Mundos Paralelos, na edição portuguesa), Philip Pullman regressou ao universo de Os Reinos do Norte com uma nova coleção de romances. La Belle Sauvage é o primeiro dos três livros que compõem O Livro do Pó, a nova trilogia que tem como pano de fundo o mesmo mundo (ou mundos) de His Dark Materials. A edição em inglês saiu em outubro e as críticas não podiam ter sido melhores: no The Washington Post, Elizabeth Hand escreveu que “há poucas coisas que valham a pena esperar 17 anos”. “O Livro do Pó é uma delas.”

É difícil não a parafrasear — é exatamente essa a sensação que se tem depois de ler a última página de La Belle Sauvage, recentemente editado em Portugal pela Presença. Em termos temporais, o romance passa-se dez anos antes de Os Reinos do Norte e recupera algumas personagens importantes da trilogia original. O livro começa com o nascimento de Lyra (sim, essa Lyra) e acompanha os primeiros meses de vida da bebé que parece estar destinada, desde muito cedo, às mais incríveis e perigosas aventuras. Nesse sentido, La Belle Sauvage é um regresso nostálgico ao passado, mas existem motivos de sobra para também não o ser. Através da recuperação de uma história com mais de duas décadas, Pullman conseguiu criar um enredo que parece ter nascido aqui e agora. E isso não é só sinónimo de talento, mas também de mestria.

Um dos motivos é, talvez, o aparecimento de novas personagens. Malcolm Polstead é uma delas. Filho dos donos da Truta, uma popular estalagem em Oxford, na margem do Tamisa, frequentada sobretudo por académicos, Malcolm é uma criança de 11 anos, inteligente e curiosa, com uma grande paixão por livros e por escutar conversas alheiras. Quando não está na escola, costuma ajudar os pais na estalagem — servindo grandes canecas de cerveja aos clientes — ou aventurar-se rio a baixo a bordo da sua canoa, “La Belle Sauvage”, nome que foi buscar à antiga estalagem do tio. Até que um dia, tudo muda.

Depois da visita misteriosa de três homens importantes à Truta, Malcolm vê-se subitamente envolvido numa história maior do que ele próprio. Esta vai-se tornando mais complexa, mais densa e mais negra à medida que a chuva, cada vez mais forte, ameaça fazer transbordar o Tamisa e provocar “a maior cheia que alguém testemunhou nos últimos cem anos”. Quando isso acontece, Malcolm trasnforma-se num herói pouco provável e no fiel guardião de Lyra, que todos parecem procurar. Juntamente com Alice — uma jovem de 15 anos que trabalha na Truta em part-time — Malcolm e a bebé Lyra descem o rio a bordo de “La Belle Sauvage”, tentando fugir de um homem maldoso que os persegue.

A viagem pelo Tamisa é o centro do romance. Começa por ser uma luta pela sobrevivência mas, à medida que “La Belle Sauvage” vai avançando, o rio transforma-se noutra coisa, numa espécie de portal para o outro mundo. Subitamente, começam a surgir seres fantásticos — fadas, tritões gigantescos e fantasmas — que, apesar de pertencerem a outras dimensões, conseguem contactar com os três tripulantes de “La Belle Sauvage”. Neste ponto, a história de Philip Pullman começa a assemelhar-se mais a um conto de fadas do que propriamente a um romance, sendo possível traçar paralelismos com as lendas celtas irlandesas, nomeadamente com as echtrai, “expedições”, e as imrama, “navegações” — textos que relatam viagens maravilhosas através do oceano (e o Tamisa mais parece um oceano) para ilhas onde não existe tempo e onde as mulheres são eternamente belas e jovens.

A cheia parece ter sido provocada por um desequilíbrio no cosmos, que fez com que o véu que separa o mundo de Malcolm de outros universos se tornasse mais ténue. Num breve encontro à porta da cozinha da Truta, Coram van Texel, amigo do pai de Lyra, explica a Malcolm que a cheia não é “uma inundação normal”. “Todos os rios estão prestes a transbordar e muitas das represas quase a ceder. A Junta do Rio não tem feito o seu trabalho. Há coisas na água que estão a ser perturbadas, e no céu também, e elas são claras e evidentes para aqueles que conseguem ler os sinais.”

Apesar da previsão perturbadora de van Texel, tal como nas echtrai, tudo acaba bem e Malcolm, Lyra e Alice conseguem chegar a porto seguro. Contudo, o livro termina com um excerto do poema The Faerie Queene (mais uma referência às fadas?), de Edmund Spencer, famoso poeta inglês do século XVI, que deixa antever que, muito em breve, haverá uma nova e longa jornada:

Agora arreai as velas, joviais marinheiros,

Porque concluímos uma viagem tranquila,

Onde vamos desembarcar alguns dos nossos viajantes,

E aliviamos esta cansada nau da sua riqueza.

Aqui algum tempo segura ela poderá permanecer,

Até se repararem os seus apetrechos gastos,

E as necessidades suprimidas. Então para longe irá partir

Na longa viagem a que está destinada:

Possa rápida e lealmente a sua missão cumprir.”

Saber esperar é uma virtude e Pullman soube fazê-lo — escolheu o momento certo para lançar a sua nova trilogia. Fazer comparações com os mitos celtas é fácil, mas é ainda mais fácil relacionar a história de La Belle Sauvage com o mundo de hoje que, tal como o Rio Tamisa, também parece estar à beira de transbordar. Perdeu-se o equilíbrio, e é quando isso acontece que a literatura se torna mais necessária. Os livros de Philip Pullman não são exceção.

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