Azul para os meninos e cor-de-rosa para as meninas? Nem sempre foi assim

02 Setembro 2017498

O cor-de-rosa já foi considerada uma cor forte e adequada para rapazes, enquanto o azul era visto como delicado, associado à Virgem Maria e por isso próprio para raparigas. O que mudou desde então?

Azul é a cor dos meninos e cor-de-rosa a das meninas. É quase uma regra e aplica-se a quase tudo: roupas, brinquedos, acessórios e até às paredes nos quartos dos bebés. A última grande polémica política portuguesa foi mesmo sobre os livros da Porto Editora retirados do mercado, com o dos meninos a azul e o das meninas a cor-de-rosa. Mas será que foi sempre assim? Nem por isso.

Jo B. Paoletti, antiga professora da Universidade de Maryland e especialista em História do vestuário americano, fez uma longa investigação sobre a associação do azul às roupas de rapazes e do cor-de-rosa às roupas de raparigas e chegou à conclusão de que não só esta associação é recente, como já houve alturas em que foi exatamente ao contrário.

Antes do azul e do cor-de-rosa, a cor dominante nas roupas dos bebés era o branco, explica a autora do livro Pink and Blue: Telling the Boys from the Girls in America. “No final do século XIX, tudo aquilo que os bebés e as crianças pequenas usavam eram vestidos brancos, por causa da maneira como a roupa era lavada na altura — era lavada e fervida. Usar uma cor nas roupas dos bebés não dava o efeito desejado, porque elas acabavam por desaparecer”, explicou a investigadora numa conversa por telefone com o Observador.

Nesta altura, além da questão prática — era mais fácil mudar a fralda a um bebé com um vestido –, a sociedade não achava “apropriado” que os bebés e as crianças até aos quatro ou cinco anos tivessem um género — mas não pela razão que se poderia pensar hoje em dia. “Se as crianças fossem criadas de uma forma em que o género não fosse enfatizado, as pessoas não teriam de responder a perguntas estranhas. E achavam que fazer esta distinção entre rapazes e raparigas iria estimular a curiosidade da criança sobre o sexo. O interesse prematuro de uma criança pelo sexo, ou a ideia de uma criança sexualmente precoce, era visto como algo muito mau.”

Apesar de haver esta ideia de que os bebés tinham de ser “inocentes e alheios às diferenças sexuais”, isso não significava que a sociedade olhasse para os rapazes e para as raparigas como “iguais”, esclarece Jo B. Paoletti.

Esta imagem, de 1905, descreve um concurso em que as pessoas tinham de adivinhar o sexo dos bebés através das imagens. Ninguém acertou nas 20 imagens. (Imagem retirada do site de Jo B. Paoletti)

A Virgem Maria e a aparência das crianças

As cores utilizadas nas roupas apareciam apenas em “pequenos acessórios”, como por exemplo numa fita colocada à volta da cintura do bebé, mas não eram apenas azul ou cor-de-rosa. “Eram usadas outras cores, era uma questão de moda.”

O azul, contudo, sempre foi uma cor comum nas roupas dos bebés, tanto para meninas como meninos. “Em algumas partes da Europa, em particular nas zonas católico-romanas, o azul era a cor das meninas, porque era associada à Virgem Maria. Noutros locais, o azul era utilizado para o primogénito.” Na arte sacra, a Virgem Maria é muitas vezes retratada com um manto azul — o azul até é considerado a cor de Nossa Senhora.

Mas a escolha das cores para as roupas dos bebés não estava necessariamente associada ao género. A aparência da criança também era tida em conta. Se o bebé tivesse olhos azuis, provavelmente usaria mais roupas azuis, enquanto nas crianças com olhos e cabelo castanho era mais provável que vestissem roupas cor-de-rosa ou de outra cor, acrescenta a investigadora.

"Em algumas partes da Europa, em particular nas zonas católico-romanas, o azul era a cor das meninas porque era associada à Virgem Maria. Noutros locais, o azul era utilizado para o primogénito"
Jo B. Paoletti, investigadora e antiga professora da Universidade de Maryland

Este cenário começa a mudar no final do século XIX e início do século XX, com o aparecimento da psicologia e da questão do subconsciente. Ou seja, surge a ideia de “que aquilo que acontece na infância, ainda que as crianças não se lembrem, pode afetar a vida adulta“, além de que começa a haver uma “preocupação” com a homossexualidade, especialmente nos rapazes. “Uma das ‘soluções’ passava por tratá-los como pequenos homens e treiná-los a serem homens [heterossexuais] desde crianças. E isso acontece cada vez mais cedo”, explica.

Esta preocupação traduziu-se numa mudança de atitudes por parte da sociedade. O corte de cabelo nos meninos, no século XX, começa a ser feito “cada vez mais cedo”, enquanto antes “era feito apenas quando entravam para escola, por volta dos cinco, seis e até sete anos”. Os rapazes também começam a usar calças e calções cada vez mais cedo e os tais vestidos brancos passaram apenas a ser usados nos primeiros meses de vida do bebé.

“Houve uma série de coisas que foram acontecendo, ainda que não ao mesmo tempo. O meu irmão, por exemplo, nasceu em 1947 e a minha mãe dizia que ele usou esses vestidos brancos nos primeiros meses.”

Cor-de-rosa para os meninos e azul para as meninas? Era uma das hipóteses

A questão de o azul e o cor-de-rosa serem cores de menino ou menina surge durante este processo. O jornal inglês The Guardian refere um artigo de março de 1914, do jornal Sunday Sentinel, no qual se aconselha a usar “cor-de-rosa para o rapaz e azul para a rapariga” se se optar por seguir “a tradição”.

Jo B. Paoletti também faz referência a um artigo, de junho de 1918, da Infant’s Department, uma revista dirigida às pessoas que fabricavam e vendiam roupas de crianças, onde se lê que muitos dos seus leitores (fabricantes) lhes tinham escrito a colocar esta questão.

“Tem havido várias opiniões sobre este assunto, a regra mais aceite é o cor-de-rosa para o rapaz e o azul para a rapariga. A razão é que o cor-de-rosa, sendo uma cor assertiva e forte, é mais adequada para o rapaz; enquanto o azul, que é mais delicado, é mais bonito para a rapariga”, lê-se no artigo.

Artigo da Infant’s Department de junho de 1918 (Imagem retirada do site de Jo B. Paoletti)

“Mas isto era apenas um fabricante. Havia outros a dizerem que o cor-de-rosa era melhor para as meninas e cada um tinha as suas razões. Não havia uma regra”, sublinha a investigadora.

Jo B. Paoletti fala ainda de um artigo da revista Time, de 1927, onde se lê que a Princesa Astrid da Bélgica estava grávida e começara a “decorar o berçário de cor-de-rosa em antecipação de um herdeiro do sexo masculino” — nasceu afinal uma menina, batizada de Josefina Carlota da Bélgica.

No mesmo ano, e tendo em conta que ninguém se decidia relativamente à cor adequada para meninos e meninas, a revista norte-americana contactou vários armazéns um pouco por todo o país para perceber qual era a regra — e chegou à conclusão que não havia regra nenhuma. “Se se vivesse em Chicago, era um padrão, se se vivesse em São Francisco era outro.”

A investigadora fez um quadro baseado no artigo e, apesar das diferenças geográficas, há mais armazéns a optarem pelo cor-de-rosa para rapazes.

Gráfico feito por Jo B. Paoletti, tendo por base o artigo da revista Time de 1927 (imagem retirada do site de Jo B. Paoletti)

“Os Estados Unidos são um país muito grande, temos pessoas que vieram de várias partes do mundo e que têm as suas próprias simbologias relativamente às cores”, adianta a antiga professora universitária.

“Evolução gradual?”

Então, quando é que ocorre a mudança para o padrão atual (rosa para as meninas e azul para os meninos)? De acordo com Jo B. Paoletti, foi algo que foi acontecendo gradualmente. Só em meados dos anos 80 é que se tornou quase uma regra.

O The Guardian refere que a mudança ocorreu após a Segunda Guerra Mundial e cita um artigo de 1948 do jornal Chicago Reader, onde se lê que a “Princesa Isabel [atual Rainha Isabel II] está claramente à espera de um rapaz, porque um berçário temporário instalado no Palácio de Buckingham foi decorado com laços de cetim azuis.”

O site Racked, por sua vez, também adianta que, nos Estados Unidos, o cor-de-rosa começa a ser visto como uma cor feminina depois da Segunda Guerra Mundial, sobretudo porque era a cor favorita de Mamie Eisenhower, mulher do antigo Presidente dos EUA Dwight D. Eisenhower. Na altura, a Casa Branca tinha tantos móveis cor-de-rosa — toda a cozinha tinha essa cor — que ficou conhecida como “o Palácio Cor-de-Rosa”. Esta moda espalhou-se e começaram a surgir uma série de produtos para a casa nessa cor.

Jo B. Paoletti não é tão específica. “Entre 1940 e 1960, houve uma evolução gradual. O cor-de-rosa era muito utilizado nas raparigas, mas ainda havia locais em que era uma cor de rapaz. Quando eu era pequena, nos anos 50, as coisas não eram como são agora. A cor mais usada para bolos de aniversário para as crianças era o rosa, independentemente de ser um rapaz ou uma rapariga.”

E dá mais um exemplo. “No filme da Walt Disney ‘Peter Pan’, que saiu em 1953, o bebé está com um pijama cor-de-rosa durante todo o filme.” No seu site, a investigadora dá ainda conta de que a cor do pijama de Michael foi recentemente mudada para azul, numa edição especial em DVD.

À esquerda, o filme “Peter Pan”, em que o bebé aparece com um pijama cor-de-rosa. À direita, a capa de DVD do mesmo filme, divulgada no site de Jo B. Paoletti, mas em que Michael surge com um pijama azul

A “mudança radical” nos anos 80

Nos anos 70, continua a especialista, nota-se uma “rejeição” relativamente às roupas associadas a um género. “Nesta altura, as raparigas começam a levar calças para a escola e os rapazes têm cabelo comprido e usam camisas com flores. Quando se chega a meados dos anos 80, há uma mudança radical.”

Jo B. Paoletti notou isso pessoalmente. Quando a sua filha nasceu, em 1982, conseguiu roupas das mais variadas cores (encarnado, azul, verde, etc), mas quando o filho nasceu, quatro anos depois, o tipo de roupa era totalmente diferente: só havia praticamente uma cor (azul) e tinham sempre um desenho, como por exemplo um urso a segurar uma bola, que masculinizava ainda mais a peça de roupa.

“Havia sempre qualquer coisa que atribuía o género e isso também aconteceu com as roupas das raparigas. De repente, deixou de haver a variedade de cores, consoante a época do ano, e passou a haver cores pastéis durante todo o ano e cada vez mais cor-de-rosa”, recorda a antiga professora universitária.

"Nos anos 70, as raparigas começam a levar calças para a escolas e os rapazes têm cabelo comprido e usam camisas com flores. Quando se chega a meados dos anos 80, há uma mudança radical"
Jo B. Paoletti, investigadora e antiga professora da Universidade de Maryland

Segundo a especialista, isto aconteceu essencialmente por dois motivos. O primeiro está ligado aos pais, que, quando eram crianças, em finais dos anos 60 e início dos anos 70, eram vestidos com roupas com cores neutras e, por isso, as pessoas nunca sabiam se se tratava de um menino ou de uma menina. Quando tiveram filhos em meados dos anos 80, fizeram exatamente o oposto e começaram a vestir os filhos de acordo com o sexo. “Se no início do século XX não se devia saber qual o sexo dos bebés, nem as próprias crianças deviam saber, nesta altura é importante que as pessoas saibam e que as crianças saibam.”

Outro fator que influenciou esta situação foram as ecografias. Estes exames permitiram às pessoas saber se estavam à espera de um rapaz ou de uma rapariga e levaram-nas a passar a comprar roupas de acordo com o sexo, tanto que outras opções de roupas com cores neutras tornaram-se cada vez mais “escassas”. “Como o sexo é a única coisa que sabem e é algo tão facilmente estereotipado, esses estereótipos chegam à vida da criança ainda antes de ela nascer.”

Algo que foi extremamente benéfico para a indústria. Foi uma forma de aumentar as vendas porque, como as roupas deixaram de ser neutras, não passavam de um filho para o outro. “Isto é uma sociedade de consumo, portanto as pessoas, quando vão ter um bebé, compram coisas novas e a única coisa que se sabe é o sexo. Se esse teste, em vez de dizer o género, dissesse que a criança iria ser musical, as pessoas iriam comprar coisas ligadas a instrumentos musicais, gira-discos, etc.”

"Isto é uma sociedade de consumo, portanto, as pessoas, quando vão ter um bebé compram coisas e a única coisa que se sabe é o sexo. Se as ecografias, em vez de dizerem o género, dissessem que a criança iria ser musical, as pessoas iriam comprar coisas ligadas à instrumentos musicais, gira-discos, etc."
Jo B. Paoletti, investigadora e antiga professora da Universidade de Maryland

Mas porquê o rosa para as raparigas e o azul para os meninos? Jo B. Paoletti não tem uma justificação. “Para mim, foi algo muito arbitrário. Foi uma coisa que aconteceu gradualmente, ao longo de 85 anos — entre 1900 e meados dos anos 80. Havia mais pessoas a usar cor-de-rosa para as meninas e azul para os meninos. ”

Isto não significa que tenha de ser assim para sempre. O simbolismo das cores é algo que vai mudando com o tempo. “O simbolismo das cores é uma coisa cultural. O cor-de-rosa não é inerentemente uma cor feminina, a cultura é que a torna uma cor feminina. Há uns anos, se uma pessoa se vestisse toda de preto, os outros iriam assumir que essa pessoa estava de luto. Hoje em dia, pode ser só uma pessoa gótica ou que gosta de usar roupas pretas. Esse simbolismo da cor preta mudou gradualmente.”

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