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O surf em Portugal: da Lipsticks ao Kikas

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Numa altura em que se diz que o stress é uma das doenças do século XXI, garanto-vos que um par de horas a apanhar ondas é o melhor remédio. O stress afoga-se no mar e nós ficamos como novos.

Por vezes é bom esquecer a política. A situação política vai aquecer depois das eleições de hoje, e teremos tempo e oportunidades para aí regressar. Hoje quero escrever sobre uma paixão que me acompanha há décadas: o surf. Os meses de Setembro e de Outubro são o tempo do surf em Portugal. Acaba o Verão, começam as ondas boas e o surf mundial chega ao nosso país. Tudo começa com um campeonato WQS (os campeonatos de qualificação para o principal circuito mundial, onde está a elite de 34 surfistas) em São Miguel, no início de Setembro (este ano o vencedor foi um surfista brasileiro, Yago Dora), segue-se depois outro WQS no Guincho e em Carcavelos (a decorrer até ao fim desta semana), e por fim o campeonato mais aguardado de todos, o WCT (a elite mundial dos 34 surfistas) em Peniche, num momento crucial para a atribuição do título mundial (o ano passado, o havaiano John John Florence sagrou-se campeão mundial nas ondas de Supertubos).

Mas o surf em Portugal começou muito antes dos campeonatos mundiais, das escolas e do profissionalismo. Era outro mundo. Para mim, começou no início dos anos de 1980 nas ondas da Caparica, sobretudo em São João. Se alguém na altura dissesse que o surf seria um dia desporto olímpico, acharíamos que teria enlouquecido. Mas o impensável chegou e o surf estará presente nos Jogos Olímpicos de Tóquio. É difícil imaginar como era o surf em Portugal em 1981, o ano em que pela primeira vez me pus em pé numa prancha de surf, uma Lipsticks (a primeira marca portuguesa de pranchas de surf) de um amigo, em São João da Caparica. Não havia internet nem “Beachcam”. Era impossível saber o estado do mar antes de chegar à praia. Sabíamos como estavam as marés e os ventos. De resto, olhávamos para o Bugio para ver se havia ondulação. Muitas vezes, depois de horas de viagem até à Costa, que incluía autocarro até Belém, barco até à Trafaria e depois quase uma hora a andar (os motoristas da RN não gostavam de invasões de grupos de surfistas com pranchas nos seus autocarros), podíamos chegar à praia e não haver ondas ou então estarem demasiado grandes para surfar. Para quem morava em Lisboa, ir para Carcavelos também era difícil porque os revisores (os famosos ‘picas’) não nos deixavam entrar no comboio com pranchas. Para surfar, tínhamos que andar muito a pé.

Também não havia escolas nem professores de surf. Eramos todos autodidatas. Aprendíamos com os nossos erros, com alguns sustos, e a reparar nos que surfavam há mais tempo. Daí, a alegria quando conseguíamos fazer um bom “cut back” ou um “off the lip”. Aéreos ou surf no rail não faziam parte do nosso mundo. A única coisa que não mudou foi o tubo: era e continua a ser a manobra rainha do surf. A aprendizagem incluía viagens à Ericeira e a Peniche, sobretudo nas férias do Carnaval ou da Páscoa, onde partilhávamos ondas com os estrangeiros (americanos e australianos a viajarem pela Europa). Ribeira de Ilhas e o Lagide (Baleal) eram escolas de aprendizagem por serem ondas compridas que permitiam várias manobras.

Muitos anos depois o mundo do surf mudou. Com a internet já todos sabem como estão as ondas e já não se perde tempo a ir à praia errada. Chegaram as escolas, os grupos de turistas nas ondas e os miúdos (e, cada vez mais, as miúdas) a começarem a fazer surf aos 10 anos ou até com menos idade. Não quero entrar em discussões sobre as vantagens ou desvantagens dos progressos. Já não tenho paciência para essas discussões e sou muito tolerante. Sigo um princípio muito simples. O oceano é de todos e o que interessa é o prazer do surf e o respeito pelos que partilham o mar connosco. O resto não me interessa. Abro apenas uma excepção. Não gosto da ideia de competições de surf em piscinas de ondas. O surf é no mar, não é em piscinas. Um bom surfista é aquele que se sabe adaptar às condições do mar.

Chegamos assim à competição e ao circuito mundial. Portugal partiu atrás e mais tarde do que outros países, sobretudo a Austrália, os EUA, o Brasil, a África do Sul e a França, mas está gradualmente a entrar na elite do surf mundial. O nosso país tem as melhores ondas da Europa. A Ericeira e Peniche têm inúmeras praias com ondas fantásticas. A costa ocidental do Algarve, entre Sagres e a Arrifana, é um paraíso para o surf. Os Açores e a Madeira também gozam de condições excelentes com ondas de todos os tipos. A viagem na busca de vagas desconhecidas é um sonho de todos os surfistas, mas não é necessário sair de Portugal para se apanhar ondas óptimas.

Com condições excelentes para se fazer surf, não espanta que tenham surgido grandes surfistas portugueses. Tiago Pires foi um exemplo e mostrou o caminho para se chegar à elite do surf mundial. Foi um pioneiro do surf português e esteve uma meia dúzia de anos na primeira divisão do circuito mundial (o WCT). Há igualmente um surfista português no circuito mundial de ondas grandes, João Macedo. Mais importante do que a sua presença neste circuito, Macedo viveu uns anos em São Francisco e tornou-se numa presença regular naquela que é provavelmente a onda mais perigosa do mundo, Mavericks. Conseguiu um feito notável, a admiração e o reconhecimento por parte dos surfistas locais. Temos ainda um português, Vasco Ribeiro, que foi campeão do mundo júnior e que poderá chegar brevemente ao principal circuito mundial.

Mas hoje o maior surfista português é Frederico Morais, Kikas em Portugal e Fred entre os seus pares internacionais. Kikas consegue o que todos os surfistas ambicionam: alcança os melhores resultados nas ondas de maior qualidade. Muitos conseguem bons resultados em ondas médias, infelizmente o mais comum nas provas do WQS. É bem mais difícil fazê-lo em ondas com poder e difíceis de surfar, como consegue Kikas. O ano passado, qualificou-se para o WCT nas poderosas ondas do Havai. Não o fez em ondas de metro, mas em vagas com dois, três metros. É assim que se ganha o respeito dos outros sufistas. Já este ano, Kikas alcançou os seus melhores resultados em ondas emblemáticas, onde todos sonham com bons resultados, como Bells na Austrália e Jeffreys Bay na África do Sul. Os resultados que Kikas já conseguiu no seu primeiro ano no WCT não enganam. Estará muitos anos entre os melhores do mundo. Se melhorar nas ondas tubulares de Teahupoo e de Pipeline – e quem cresceu a surfar os tubos de Carcavelos e de Supertubos tem todas as condições para o fazer – pode ser um surfista top 10 senão mesmo um candidato ao título mundial. Kikas é um grande profissional, um competidor nato, nunca se intimidando com os maiores nomes do surf mundial ou com as condições adversas do mar. Tem ainda uma qualidade fundamental para um surfista. É muito raro cair, concluindo quase sempre a onda. O surf de Kikas faz lembrar Andy Iron e Mick Fanning, dois antigos campeões do mundo.

Com o tempo, vão surgir outros ‘Kikas’ no surf nacional. O nosso país tem tudo para se tornar uma referência do surf mundial. Mas o surf é para todos. Gosto de ver velhos e novos, homens e mulheres, famílias e grupos de amigos a fazerem surf e a divertirem-se no mar. No surf só conta verdadeiramente uma coisa: ir para a água e apanhar ondas. O resto vem com o tempo. Numa altura em que se diz que o stress é uma das doenças do século XXI, garanto-vos que um par de horas a apanhar ondas é o melhor remédio. O stress afoga-se no mar e nós ficamos como novos.

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