Chegou o momento em que escrevo o meu artigo anual sobre futebol para felicitar o campeão nacional. Faço-o com muito mais gosto quando é o Porto. Mas no futebol devemos felicitar os campeões, sobretudo quando merecem. E o Sporting mereceu ser campeão este ano. Aliás, é um campeão extraordinário: ainda não sofreu qualquer derrota. Um campeão invencível é sempre um grande vencedor.

Mas há outras razões que justificam a vitória do Sporting. O principal mérito vai para o treinador, Rúben Amorim. Está no princípio da carreira (apenas a segunda temporada na primeira divisão), mas já se percebeu que será um grande treinador. Tem um sistema de jogo bem definido, vê-se que os jogadores sabem o que devem fazer. Soube ainda dar confiança e espírito de luta a jovens jogadores. O que não é nada fácil, especialmente quando a equipa abanou com três empates seguidos. Na minha opinião, o jogo decisivo foi em Braga. O Sporting jogou com 10 jogadores durante mais de 70 minutos, após uma expulsão injusta. O Sporting defendeu e lutou como só as equipas que acreditam plenamente no seu treinador o fazem. Frederico Varandas também teve mérito porque arriscou na contratação de um treinador jovem, e foi atacado por muitos que agora celebram o campeonato.

Há outra razão porque a vitória do Sporting é impressionante. Gastou pouco dinheiro nas contratações (apesar dos 15 milhões pelo Paulinho). Comparem com as 100 milhões gastos pelo Benfica, o que mostra que o dinheiro não é tudo no futebol, e ainda bem. Com pouco dinheiro para gastar, o Sporting apostou em jogadores portugueses e muitos formados nas suas escolas. No jogo de ontem com o Boavista, o Sporting começou o jogo com sete portugueses, e foi assim na maioria dos jogos. O Benfica e o Porto começam normalmente com dois ou três portugueses. Os seus dirigentes deviam pensar sobre isso e fazer menos negócios com empresários.

O Sporting revelou grandes jogadores portugueses. Começando na defesa, Nuno Mendes, com 18 anos, é um jogador extraordinário. Será titular da seleção durante mais de dez anos. Gonçalo Amorim também é um jogador de seleção para o futuro. No meio campo, Palhinha já merece ser o titular indiscutível da seleção a trinco (desculpem pela palavra, mas este artigo é mesmo para os adeptos de futebol). Por fim, no ataque, a maior revelação foi Pedro Gonçalves. Um jogador extraordinário (não imaginam as vezes que lamentei que o Porto não o tivesse contratado, ele que é portista, ou era…). E Nuno Santos é outro grande jogador, menos regular, mas com um enorme talento (outro que o Porto deixou fugir).

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Por fim há uma razão final que me dá, confesso, alguma satisfação por assistir o Sporting ganhar o campeonato. Tenho muitos e bons amigos (e primos) sportinguistas. Muitos deles têm filhos que nunca viram o Sporting ser campeão. Vi-os sofrer anos sem fim, mas continuarem com uma fé infinita no seu clube. Queixam-se muito, o que às vezes é irritante, mas merecem a alegria que vem com a conquista de um campeonato. Por eles, fico contente e a eles dou os meus parabéns. Espero que não se habituem. Mas agora façam a festa, e até eu vou celebrar com eles. Afinal, onde vai um, vão todos.

PS: O meu Porto não ganhou nada, mas não fiquei triste com a temporada, por duas razões. Fomos aos quartos de final da Champions, o que para um clube português equivale a uma vitória europeia. Depois, em princípio, ficaremos à frente do Benfica (espero que se confirme), o que dá acesso directo à Champions, muito importante para o Porto. Além disso, que me perdoem os sportinguistas, o Benfica é o grande rival do Porto. Por fim, desejo que Sérgio Conceição continue no Porto. Ganhar dois campeonatos em quatro anos, e chegar duas vezes aos quartos de final da Champions, com jogadores médios, é excelente. Custa-me vê-lo quando perde a cabeça, e isso prejudica o Porto. Mas eu sei, como todos os adeptos do Porto sabem, que o nosso treinador é um grande portista. Isso conta muito.