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NOVA SBE: Management Hot Topics

Porque me recuso a dar SÓ tempo de qualidade aos meus alunos?

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É bom perceber que, dos millenials a todos os demais, o tempo será sempre curto. Para dar feedback, para acolher, para ouvir, para entusiasmar, para procurar que se superem. Mas todos o valorizam.

Apanhei no Linkedin um texto simples, mas fabuloso por isso mesmo, sobre tempo de qualidade, da autoria de Kathleen Bellehumeur. Partilho o acesso.

O artigo refere, e bem, que o tempo de qualidade passado com os filhos é uma falácia porque, na realidade, a ideia de que quando se despende pouco tempo se deve estar com qualidade e os momentos devem ser inesquecíveis é, no mínimo, falaciosa. E Kathleen refere, basicamente, que ninguém quererá admitir, ou pelo menos exteriorizar, que colocar os filhos nas cadeirinhas do carro todos os dias versus um Sábado de manhã num passeio inesquecível de bicicleta são coisas não discutíveis e não comparáveis. Todos genericamente preferirão o segundo momento, memorável, aos vários momentos de guerra do quotidiano. Porque é essa a essência do tempo de qualidade.

Mas, lá está, o problema é que não somos nós que classificamos tempo de qualidade e tempo de não qualidade e não decidimos igualmente, e em antecipação, quais os momentos que serão de qualidade e aqueles que não o serão. Os momentos especiais e inesquecíveis hão-de surgir, organicamente, apenas por passar tempo com os filhos.

Tomo isto como a maior das verdades. Não será por decidirmos que hoje vai ser um dia especial que esse dia é especial como não temos forma de controlar os momentos inesquecíveis. A realidade, porém, doa a quem doer, é que só haverá tempo de qualidade se passarmos tempo com os nossos filhos. Se investirmos tempo. Se disponibilizarmos tempo.

Ora o mesmo acontece com os nossos alunos. Não digo que não haja tempos programados como de qualidade. Há e haverá certamente. Mas uma lógica de boa experiência e tempos memoráveis só existirá, efetivamente e de forma completa, se nos dedicarmos a passar tempo com os nossos alunos. Se formos ter com eles. Se os acolhermos e nos preocuparmos com o processo formativo. Se soubermos que cada um deles tem curiosidades, dificuldades – que não são apenas de matéria – e, se esse for o caso, “questões profissionais” que estão por resolver.

Tal como provavelmente os filhos não terão muito boas recordações do pouco tempo que os pais passam com eles também poderão ter poucas ou nenhumas recordações do tempo que os professores lhes dedicam.

Fica bem, aqui chegados, aquele statement de que os alunos, na universidade, têm de se desengomar e todas as dificuldades que lhes forem criadas terão que ser por eles vencidas pois é assim que se moldam e se formam. Verdade. Mas parcialmente verdade. Não deixa de ser verdade, em paralelo, que o que nos pedem as gerações de hoje – e os alunos e formandos de hoje, não o podemos esquecer – são experiências. E boas experiências só ocorrem com os nossos alunos quando lhes despendemos tempo. Tempo de qualidade nascerá pelo tempo programado mas, muito dele, emergirá pelo tempo orgânico, funcional, nos finais de aula, nos corredores, nas office hours, no jardim ou onde seja desde que possamos com eles dialogar, ouvir, acolher, experienciar.

Julgo que nada ensino a ninguém se disser que os nossos alunos valorizam a dedicação, o tempo despendido, a dádiva, a preocupação que devemos ter por se tornarem melhores e se superarem. Devemos desafiá-los, devemos ouvi-los, devemos entusiasmá-los, devemos procurar que se superem. Mas para isso…é preciso tempo. Tempo para os ouvir, tempo para os desafiar, tempo para os fazer superarem-se. Tempo. E não apenas tempo pré-programado mas tempo. Despender e investir tempo neles.

É bom perceber que, dos millenials a todos os demais, o tempo será sempre curto. Para dar feedback, para acolher, para ouvir, para entusiasmar, para procurar que se superem. O tempo será sempre e inexoravelmente curto. Mas todos o valorizam.

É também difícil admitir que nos tempos que correm temos de dedicar tempo aos nossos alunos quando, e se, não temos tempo para nós. Se o tempo é um dos bens mais preciosos dos dias que correm. A questão, porém, é que o tempo num modelo educativo, se queremos fazer a diferença, está também no tempo dedicado. Dar-lhes tempo. Oferecer-lhes tempo. Para que do tempo nasçam as experiências e também a qualidade. É precisamente por isso que me recuso a dar SÓ tempo de qualidade aos meus alunos.

Professor Catedrático, NOVA SBE – Nova School of Business and Economics, crespo.carvalho@novasbe.pt

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