Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

E se Portugal jogasse um Mundial sem o melhor jogador do mundo? A pergunta fará muitos engolir a seco, certamente. Mas a verdade é que Cristiano Ronaldo, um jogador que mais parecia um robot, sem lesões e lamentos, começa a dar sinais de que não é de ferro. As mazelas e as limitações são agora, mais que nunca, uma realidade para o capitão da selecção portuguesa.

O nome de Ronaldo estava na ficha de jogo para a derradeira jornada da Liga Espanhola contra o Espanyol mas o jogador sentiu algumas dores no aquecimento e decidiu-se que não jogaria. “O Cristiano fez um bom treino na sexta-feira”, garantiu Carlo Ancelotti, treinador do Real Madrid, após a partida (3-1). E prosseguiu: “Ele estava confiante, sentia-se melhor. Mas no aquecimento não estava cómodo e não arriscámos. É uma pequena contratura. Estamos tranquilos porque creio que terá tempo para recuperar-se e jogar a final [da Liga dos Campeões].”

Apesar da aparente tranquilidade do treinador italiano, a história não está bem contada, assegura, num artigo do El País, o jornalista Diego Torres, o mesmo que relatou a experiência de José Mourinho no Santiago Bernabéu no polémico livro “A Guerra de Mourinho”. Enquantos uns falam numa “pequena contratura”, outros, como este jornalista argentino com acesso privilegiado junto do balneário merengue, garantem que o problema está no joelho esquerdo.

Segundo o mesmo jornalista, os médicos do clube têm repetido desde março que o atleta necessita descansar, que o seu corpo está a atingir o limite e que o tendão rotuliano do joelho esquerdo tem uma inflamação aguda. Ronaldo terá ignorado os conselhos dos médicos, que lhe explicaram que o problema poderia resultar numa tendinite incontrolável, e decidiu competir. Há relatos também de que Ronaldo está a ser tratado por médicos da sua confiança, a quem paga do seu bolso, em oposição aos especialistas do clube, o que terá gerado uma onda de indignação e conflito no clube madridista.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

“A contratura pode ser uma consequência de uma lesão maior, de uma situação que se venha a arrastar”, disse ao Observador Hugo Tomé, o fisioterapeuta dos escalões de formação do Estoril Praia, que garante que uma contratura se cura em menos de uma semana. “Existem estabilizadores passivos do joelho (ligamentos) e os activos (músculos) que auxiliam na estabilização da articulação. Quando existe uma falência num dos estabilizadores, a outra será mais recrutada. A nível muscular pode causar mais fadiga, espasmos e stress, numa clara tentativa de compensação da tal falência”, explica. Ou seja, a contratura poderá ser resultado da falta de descanso ou a consequência de uma lesão maior, que coloca os músculos em tensão, exigindo assim mais esforço aos mesmos.

“A questão é que quando tens uma final não deves arriscar”, explicou no sábado Ancelotti, “se a final tivesse sido contra o Espanyol, o Cristiano tinha jogado, seguramente. Mas tendo uma final tão importante [pela frente], não necessitamos arriscar. O Cristiano é muito sincero nisto.”

Ronaldo chega a esta fase da temporada com 46 jogos nas pernas, nos quais marcou 50 golos (14 assistências). Os recentes números da sua utilização são preocupantes e nada habituais: o avançado atuou apenas 324 minutos nos últimos dez jogos (900’). O português esteve ausente em metade e só completou dois: falhou com Dortmund (0-2), Almería (4-0), Barcelona (2-1), Celta (2-0) e Espanyol (3-1); jogou os 90’ contra Bayern (4-0) e Valencia (2-2); e foi substituído contra os bávaros, na primeira mão das meias-finais da Champions (1-0; 73’), Osasuna (4-0; 62’) e Valladolid (1-1; 9’). Este último, a 7 de Maio, foi a sua última aparição nos relvados. O extremo não jogava tão pouco tempo (nove minutos) desde fevereiro de 2007, num jogo a contar para a Taça de Inglaterra ao serviço do Manchester United. Mais: foi a primeira vez que foi substituído na primeira parte desde que chegou ao Santiago Bernabéu em 2009.

Em 2012, Ronaldo também chegou ao Europeu da Ucrânia e Polónia condicionado, acabando por faltar a vários treinos durante a primeira semana de trabalhos. O extremo chegou então a essa competição com 54 jogos (60 golos e 15 assistências).

E se o capitão falhasse o Mundial? 

António Simões, antigo jogador do Benfica que esteve presente no Inglaterra-66, perspectiva que uma eventual ausência de Ronaldo no Campeonato do Mundo poderia ser um desafio à unidade da equipa. “Há mais vida para além do Cristiano Ronaldo: há o Mundial e Portugal. Imagino essa situação com tristeza e preocupação, mas essencialmente como um desafio de unidade e força para compensar a ausência dele. Com Cristiano será uma coisa, sem Cristiano será outra… para pior. Com certeza que a equipa fica muito mais frágil”, considerou. E como reagiriam os “Magriços” se, em 1966, Eusébio falhasse uma competição ou jogo importantes? “Eusébio foi o melhor, desse tempo e de agora. Em 66, Portugal tinha meia dúzia de jogadores que não tem agora, com todo o respeito. As duas ausências [Eusébio e Ronaldo] valem o mesmo mas os jogadores de 66 colmatariam de outra forma…”

Zinedine Zidane, o treinador adjunto de Carlo Ancelotti no Real Madrid, elogiou o português e mostrou-se otimista: “Não vejo nenhuma razão para que ele não possa manter o nível que apresenta no Real Madrid durante o Mundial. Aquilo que ele tem alcançado aqui tem sido impressionante. Ele é o melhor para nós e tenho todas as razões para acreditar que ele vai colocar o relvado a arder. É verdade que Portugal está num grupo complicado com a Alemanha mas Ronaldo já demonstrou o seu talento quando defrontar os alemães em 2012”, disse em declarações ao The Times da Índia. “Ronaldo tem um talento extraordinário. Vejo-o trabalhar todos os dias e, acreditem, ele é simplesmente um génio”, desabafou.  Zidane sabe bem o que é brilhar num Campeonato do Mundo, pois foi a estrela maior da seleção gaulesa na conquista do França-98.