Os militares destacados estão prontos. O avião C-130 também. A “mala” está feita e empacotada no hangar. A partida da participação portuguesa para a missão europeia na República Centro Africana estava prevista para esta terça-feira. Estava, mas desde a semana passada que a data ficou por definir.

Ouve-se a fricção do vento nas hélices a rodar, os motores a acelerar. Ao longe, vê-se a cauda de um C-130 que sai do hangar. Os escritórios e hangar da esquadra 501, “os Bisontes”, estão localizados na base aérea Nº6 no Montijo. É desta esquadra que vai sair o destacamento português para a missão europeia de “reposição da ordem pública” na República Centro-Africana, cuja partida estava prevista para esta terça-feira.

Alguns militares estão à conversa no exterior do edifício que tem um bisonte pintado na parede. Lá dentro, no fundo do corredor principal, vê-se um homem sozinho. Veste um macacão verde, tem os óculos de sol modelo aviador, e está encostado a uma mesa de pé alto a comer um chocolate e a beber café. Uma das fachadas da sala é envidraçada e tem-se vista direta para a pista de descolagem.

No ombro esquerdo vê-se um emblema onde está bordado o número 3.000. Representa 3.000 horas a voar numa aeronave C-130. Lá fora, o “zum-zum” inicial transforma-se numa descolagem em direção aos Açores. “Normalmente não os vejo descolar por fora”, diz o tenente-coronel Paulo Peres, o responsável pelo destacamento português para a missão europeia na República Centro Africana (EUFOR-RCA). Na mesma paisagem distingue-se um C-130 pintado num padrão camuflado. Mas este não tem hélices. “É uma vaquinha”, diz. Trata-se de uma aeronave de onde se tiram peças caso surja uma emergência em algum avião. Na linguagem da Força Aérea, também se pode chamar “inibida” a uma aeronave assim, pronta a ser reabilitada a qualquer momento.

Paulo Peres participou nos destacamentos para o Egito, Líbia e Afeganistão. Sobrevoou a primavera árabe. A República Centro-Africana não será um cenário totalmente novo para ele. Pode até dizer-se que já fez transportes sob todo o tipo de condições. Por aterragem em pista de alcatrão, em terra, por lançamento de paraquedas. Se necessário, consegue pilotar a uns três ou quatro metros acima do chão e largar a carga sem aterrar. Voar bem baixinho naquele “bisonte” com asas.

Era esperado que o destacamento português pudesse partir nesta terça-feira. “Era”, diz o tenente-coronel, a rir-se. “Da nossa parte, temos tudo pronto a qualquer momento”, acrescenta. Na passada sexta-feira, o destacamento foi avisado pelo Ministério da Defesa que ainda não será no dia 20 de maio. Em janeiro deste ano, foi anunciada a participação de Portugal nesta missão europeia. Desde essa data sabe-se que o contigente português ia ser de 47 militares da força aérea e um C-130, apesar de ainda ter sido falado o envio de mais um contigente da Guarda Nacional Republicana.

O Observador sabe que uma missão de reconhecimento deve ser enviada nos próximos dias para Douala, uma cidade costeira dos Camarões, e que o adiamento do envio dos militares portugueses deveu-se a indecisões quanto à base mais próxima a ser utilizada no terreno.

Na noite de quarta-feira da semana passada, o comandante da missão europeia no terreno, Philippe Ponties, enviou uma carta ao governo português a dizer “não era conveniente” o envio do contingente para Bangui, capital da República Centro Africana. Não estavam asseguradas as condições necessárias para establecer a missão no terreno.

Está previsto o envio de um avião C-130 com 47 militares da Força Aérea para a RCA, mas o tenente-coronel responsável pela missão portuguesa explica que “podem não ser necessárias todas [as pessoas destacadas]”. Só depois da missão de reconhecimento é que podem ter certezas. Portugal é um dos 13 países que vão contribuir para a missão europeia na RCA, onde vai ser responsável essencialmente pelo transporte de equipamentos, pessoas e tudo o resto que seja necessário.

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Os C-295 que pertencem à esquadra 502.

Uma expulsão “étnica”

Entre março e dezembro de 2013, as forças Séléka, coligação de antigos rebeldes muçulmanos, governaram e impuseram um regime de terror na República Centro Africana. A queda do regime foi celebrada pela comunidade internacional. Depois veio a vingança: formou-se uma milícia chamada anti-balaka, formada por cristãos movidos por sentimentos de vingança pelos anteriores massacres da coligação Séléka.

A Amnistia Internacional lançou em fevereiro um relatório que fala de uma “limpeza étnica” de muçulmanos na parte ocidental do país. “Os ataques contra muçulmanos foram cometidos com a intenção declarada de forçar uma saída do país”, lê-se no documento.

A Human Rights Watch já alertou que a possibilidade de toda a população muçulmana, perto de 800 mil pessoas, poder estar a deixar o país. De acordo com os registos da Amnistia Internacional foram documentados diversos actos de terror contra muçulmanos em Bangui, a capital do país, bem como noutras cidades. Muitos anti-balaka consideram os muçulmanos como “estrangeiros” que deveriam abandonar o país.

Donatella Rovera, conselheira sobre situações de crise da Amnistia Internacional, com duas décadas de experiência no acompanhamento de conflitos, afirmou em entrevista ao Público que os defensores da limpeza étnica na República Centro Africana “não se escondem, dizem abertamente: nós queremos expulsá-los do país”.

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Alguns dos elementos do destacamento que vão partir para a República Centro Africana.

Um “bisonte” com asas

Um C-130 da esquadra 501 está no hangar para inspeção. Um dos quatro motores está pendurado por uma grua e a ser examinado minuciosamente por três pessoas. Num canto do hangar, encontra-se um amontoado de caixas metálicas prateadas, uma hélice gigante com as pontas pintadas de amarelo, pneus e peças mecânicas. Tudo isto vedado por um fita plástica vermelha e branca.

“Já tenho acautelado todo o material que é preciso para partir”, diz José Dias, 51 anos. O sargento-ajudante é o responsável pela manutenção da aeronave e preparação dos equipamentos para a missão. José, tal como o chefe de equipa, já esteve destacado no Paquistão, “seis ou sete vezes no Afeganistão” e Gabão. O sinal de partida para a República Centro Africana não depende dele, nem de nenhum elemento da esquadra 501. “É uma decisão política, são coisas que nos ultrapassam”, diz.

À frente do hangar onde estão arrumadas as “malas” para a República Centro-Africana está estacionado outro C-130. “É este que vai”, diz o tenente coronel Paulo Peres, quando mostra o interior do cockpit do avião. É um espaço exíguo, mas, mesmo assim, tem assentos para quatro pessoas. Os sensores são muitos e analógicos. Na retaguarda do cockpit está um pequeno ecrã para o navegador. Neste caso, navegadora.

Tânia Ribeiro, tenente, 32 anos, é a única mulher da tripulação. Já participou em diversas missões que lhe permitiram obter experiência, mas nunca mas nunca foi destacada para uma missão de longa duração, explica. Tânia vai ser a responsável por planear as rotas e estar atenta às condições meteorológicas, “algo muito importante em África.”

“Já há algum tempo que não havia destacamentos”, lembra a navegadora. “Ouvimos os mais antigos [contar as histórias dos seus destacamentos] e gostávamos de aprender”, acrescenta. O último destacamento da esquadra 501 foi no Afeganistão em “2008 ou 2009”. Tal como os outros elementos do grupo, Tânia está à espera.

Para Ivo Erse, primeiro-cabo, 24 anos, esta missão vai ter um significado especial: é a primeira. Será o responsável por controlar o oxigénio líquido do C-130, auxiliar na recepção da aeronave, apoiar o mecânico. Diz que está motivado a partir para “ajudar outras pessoas”, num tom esperançoso. Talvez seja o que sabe menos sobre a situação no terreno, as preocupações dele são mais técnicas. Mas foi quem disse com maior convicção: “Estamos prontos, só falta chamarem-nos.”