Dezassete de Maio, 2011. Os cofres de Portugal estão nas lonas, não há dinheiro e ajuda precisa-se. Três dias antes, o Porto é campeão nacional. O país olha para fora e pede um resgate financeiro. O Sporting já não tem Liedson. O FMI responde ao pedido e arrancam três anos de austeridade. O Benfica de Jorge Jesus cai nas meias-finais da Liga Europa, contra o Braga.

Enquanto o país trava a fundo, os grandes só reduzem uma mudança. Nos três anos seguintes, Benfica, Porto e Sporting sentiram na pele algumas consequências da convivência com a troika – arrecadaram menos dinheiro na venda de bilhetes, lucraram menos com o merchandising e acabaram também por reduzir os gastos na compra de jogadores. Mas pouco…

Os Relatórios e Contas mostram que na primeira temporada com o país sob resgate, a única torneira que se começa a fechar é azul. Nas bilheteiras, o Porto acaba 2011/12 a perder dinheiro (-9%) face ao que recebera na época anterior, enquanto Benfica (+33,1%) e Sporting (+40,4%) contam mais euros nos cofres. Em parte, a queda portista explica-se pelo sucesso na temporada transata (2010/11): Villa-Boas pegou no volante da equipa e tudo atropelou no campeonato, Taça de Portugal e Liga Europa. Ou seja, difícil era igualar a façanha e continuar a encher o Estádio do Dragão jogo sim, jogo sim.

Há um antes e um depois da troika. A três dias da FMI, do BCE e da UE (a 17 de maio), o campeonato fecha com o dragão na frente, sem derrotas e com o Benfica a  11 pontos. O Sporting fecha o pódio, longe, a 26 pontos. No dia 22 de maio, a época fecha com o Porto – melhor, o Super Porto de André Villas-Boas -, a atropelar o Vitória de Guimarães (6-2) no Jamor e a levar para casa a Taça de Portugal. Semanas antes conquistara já a Liga Europa, em Dublin, frente ao Sporting de Braga.

Um ano para se notarem os efeitos

Finda a temporada de estreia na companhia da troika, as coisas mudam. Em 2012/13, Sporting (-42,3%), Porto (-30,7%) e Benfica (-20,7%), todos perdem nas receitas de bilheteira. Nem os encarnados se safam, apesar de manterem as expetativas de conquistarem tudo até final da época – campeonato, Liga Europa e Taça de Portugal. O que não veio a acontecer.

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Autor: Andreia Costa

A temporada 2011/12 termina com outro campeonato vestido de azul. O Benfica repete o segundo, mas o Sporting (4.º) é desta vez ultrapassado pelo Braga, que lhe rouba o terceiro posto. Em 2012/13, a coisa piora. Os leões fazem a pior classificação de sempre na liga (7.º lugar) e o Benfica tropeça em todo o lado.

O Orçamento do Estado para 2012 coloca um entrave para quem de debate com problemas de receitas. O Estado dita a subida do imposto aplicado aos bilhetes para espetáculos desportivos, dos 6 para os 23%. Moral do imposto – os preços sobem nas bilheteiras e a cintura financeira encolhe em quem tem de os comprar (adeptos).

“A implementação do programa de austeridade a que Portugal se viu obrigado desde Maio de 2011 fez-se sentir de uma forma mais direta pela alteração da taxa de IVA que incinde sobre os espetáculos desportivos com efeitos a partir de Janeiro de 2012, que passou da taxa reduzida (6%) para a taxa normal (23%), para além do menor poder de compra dos consumidores particulares e das empresas, dos constrangimentos na obtenção de crédito e do aumento dos custos associados aos financiamentos.” – Relatório e Contas do Benfica da época 2011/12.

Para a temporada que terminou no domingo (2013/14) só estão disponíveis dados até dezembro de 2013 – os Relatórios e Contas mais recentes dos três grandes apenas cobrem o primeiro semestre. Até aí, o Porto foi o clube que mais se ressentiu. As derrotas com Paulo Fonseca no banco e o percurso na Champions, sem vitórias caseiras, podem justificar a queda de 44,1% nas receitas que entraram no clube – por comparação com o primeiro semestre da época passada. O Benfica também caiu (-8,8%).

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Autor: Andreia Costa

O Sporting quebra a regra e dispara nos ganhos com bilhetes (+45,1%). A ascensão nas receitas no clube de Alvalade coincide com a entrada de Bruno Carvalho e Leonardo Jardim – o presidente em março de 2013, o treinador no verão desse ano. Em 2013/14, a equipa esteve sempre nos três primeiros classificados, bateu o pé aos rivais como já não o fazia há muito e acabou qualificado para a Liga dos Campeões (2.º lugar).

No final do semestre em análise (14ª jornada), a equipa encontrava-se em 1º lugar, com 33 pontos. A performance desportiva tem sido de um nível elevado, tendo a equipa mais 21 pontos face à mesma altura da época passada (embora na corrente época com mais duas jornadas disputadas). O Sporting apresentou o melhor ataque (33 golos) e a melhor defesa (9 golos) – Relatório e Contas do Sporting, 1.º Semestre de 2013/14

Contas às escuras

Entre 2011 e 2013, porém, houve um caminho onde o Sporting andou a comer o pó deixado pelos dois rivais – no merchandising. Nos Relatório e Contas de 2012/13 e do primeiro semestre de 2013/14, o clube não revelou as receitas nesta área. “O merchandising está na SPP [Sporting Publicidade e Marketing] e não na SAD”, explicou ao Observador o gabinete de comunicação do clube.

Nas receitas de merchandising constam os lucros registados com a venda de produtos oficiais (camisolas ou equipamentos, por exemplo), diretamente na loja do clube ou em outros pontos de venda dos seus artigos.

Só olhando para as contas semestrais se conseguem avistar resultados no Sporting. Em dezembro de 2011/12 e 2012/13, o clube registava receitas de 650 e 617 mil euros, enquanto os rivais rompiam a fasquia do milhão: o Benfica com cerca de 1,5 e 1,6 milhões, e o Porto com 1,7 e 2,2 milhões de euros.

De novo, os números são um reflexo do que o relvado conta. As duas épocas em questão foram das piores na história do clube leonino. Em 2011/12 perde sete partidas no campeonato, acaba no 4.º posto e só disfarça esta prestação com a aventura até às meias-finais da Liga Europa. Na época seguinte, não há maquilhagem para o fracasso – o Sporting acaba no 7.º posto (o pior registo de sempre) e na corda bamba do campeonato fica com quase tantas derrotas (10), quanto vitórias (11).

Benfica só conheceu prejuízo em 2013

Todos os anos é regra: há sempre dinheiro a vir da carteira dos adeptos. Os euros, porém, chegam de todo o lado e com isso os clubes cozinham um bolo para fatiarem como quiserem. Nos primeiros semestres de 2011/12 e 2012/13, esse bolo foi sempre positivo para o Benfica – único dos grandes que conseguiu apresentar sempre lucro. Em 2011 o Porto apresentou prejuízo e, em 2012, o Sporting chegou a perder mais de 20 milhões de euros.

Um resultado líquido consolidado é calculado através do conjunto de desempenhos financeiros das empresas que integram um grupo empresarial – neste caso, uma Sociedade Anónima Desportiva (SAD).

Dividindo as contas por semestre, os encarnados só por uma vez acabaram com prejuízo. O resultado consolidado entre junho e dezembro de 2013 ficou nos 15,9 milhões de euros negativos, embora não incluísse “a alienação de direitos desportivos realizada em janeiro” de 2014. Logo, os ganhos obtidos com as vendas de Matic, Rodrigo e André Gomes (os dois últimos a um fundo), não foram contabilizados.

O único dos grandes que conseguiu chegar à fronteira de 2014 com um saldo positivo às costas foi o Sporting. Os leões fecharam o primeiro semestre da temporada que agora terminou com um resultado consolidado de 3,7 milhões de euros. O salto é grande se considerarmos que, nas duas épocas anteriores, o clube de Alvalade ultrapassou sempre os 19 milhões de prejuízo.

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Autor: Andreia Costa

Esta melhoria dos resultados foi possível por uma redução significativa dos gastos e perdas operacionais excluindo transações de passes de jogadores (-29%), de uma diminuição de 37% das amortizações e perdas de imparidade do plantel e de uma variação positiva de cerca de 13 milhões de euros na rubrica de rendimentos com transações de passes de jogadores” – Relatório e Contas do Sporting, 1.º Semestre de 2013/14

Já o Porto quebrou uma tendência em 2011/12. Após “cinco anos consecutivos de resultados positivos”, lê-se no relatório portista, o clube encerrou um semestre com prejuízo – nessa temporada (2011/12), aliás, as contas dos dragões acabam com perdas de 35,7 milhões de euros. Na época seguinte recuperou, ostentando lucros a rondar os 20,3 milhões. A comparação entre semestres mostra o mesmo filme e a apresenta a sequela – em 2013/14, os dragões regrediram e voltaram a dar as boas-vindas aos resultados negativos (os piores entre os três grandes).

Um saco das compras oscilante

Na hora de fechar as contas, o prato mais pesado na balança não costuma variar muito. E as duas janelas de transferências (a primeira entre julho e agosto, a segunda durante janeiro) são como um leilão – os grandes compram, vendem e jogam com o dinheiro que têm. Entre 2011 e 2013, Benfica e Porto nunca gastaram menos que 25 milhões de euros em compras. Nas duas primeiras épocas com a troika a observar, o clube da Luz utilizou à volta de 61,3 milhões de euros para caçar 25 jogadores. Já os dragões pegaram em cerca de 62,8 milhões para contratarem 15 novos nomes.

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Autor: Andreia Costa

Em duas épocas, os milhões pagaram qualidade. Ao Benfica chegaram Enzo Pérez, Salvio, Witsel ou Lima, enquanto o Porto recebeu Danilo, Alex Sandro, Jackson Martínez ou Defour, além do regresso de Lucho González ao clube.

Importa referir que, tanto nos encarnados como nos dragões, há casos em que as contas com transferências de jogadores entrem no exercício da época ‘errada’. No início de 2013/14, por exemplo, o Porto vende James Rodríguez e João Moutinho por 45 milhões de euros ao Mónaco,  mas a transação consta no Relatório e Contas da temporada 2012/13. Já o Benfica ainda registou no exercício da época passada as contratações de Markovic, Djuricic ou Sulejmani.

Os 11,8 milhões de prejuízo com transferência que o Porto registou em dezembro, portanto, podem-se explicar pelo fator James/Moutinho. Já os 6,9 milhões negativos do Benfica ficarão a dever-se à ausência de uma venda milionária – algo que os encarnados conseguiram nas temporadas anteriores.

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Autor: Andreia Costa

O relatório mais recente do Benfica não foi a tempo de incluir os 25 milhões de euros que, em janeiro, o Chelsea de José Mourinho pagou para meter Nejmanja Matic num avião para Londres.

Focar os binóculos nos semestres é o mesmo que chegar a duas estreias. A primeira, do Benfica. Só à primeira metade da atual época – ou seja, na terceira época ao sabor da troika – os encarnados sofreram prejuízo com transferências. A outra é do Sporting, que contrasta com a versão encarnada.

Os leões conseguiram fechar um semestre com receita nas transferências, ao registarem um lucro de 13 milhões de euros. Nas duas temporadas anteriores, o Sporting foi acumulando um monte. E a prová-lo estão os cerca de 40,5 milhões que o clube amealhou para contratar 39 jogadores (18 em 2011/12 e 21 em 2012/13).

A temporada que acabou no domingo não podia oferecer maior contraste – o clube gastou apenas 2,6 milhões de euros até dezembro e foi o que mais apertou o cinto. Já os encarnados (14,6 milhões) e os dragões (14,4 milhões), nem por isso. Benfica e Porto guardaram para o último Natal partilhado com a troika as maiores despesas com transferências. Antes, o clube da Luz gastara 14,4 e 13,5 milhões de euros, enquanto os portistas se ficaram pelos 2,9 milhões e os 186 mil euros.