“A maré mudou. Os homens livres do mundo marcham juntos pela vitória”. A 6 de junho de 1944, o general Eisenhower lia este discurso às tropas aliadas prestes a desembarcar nas praias da Normandia. O Dia D, que desde 1943 estava a ser preparado secretamente, tirou a vida a muitos jovens soldados, mas inverteu o curso da II Guerra Mundial e permitiu a libertação do velho continente. Anos depois, Eisenhower não conseguia falar desse dia sem chorar.

É neste tom emotivo que as celebrações do desembarque da Normandia ocorrem todos os anos. Esta sexta-feira, o aniversário é redondo. O Dia D faz 70 anos e muitos sites de jornais norte-americanos e europeus encheram-se de fotografias, testemunhos de veteranos, documentários multimédia e muitos textos nostálgicos para lembrar o dia a que o Guardian chama “o momento fundador da nossa era”. O Observador preparou um guia com os melhores trabalhos publicados.

Comecemos, precisamente, pelo Guardian, que marca o tom dos festejos com um editorial onde escreve que o Dia D nos “deu uma história e um mito que todos os anos, de forma homeriana, repetimos com amadas descrições sobre o clima, a batalha de St Mère Églie ou os comandos de Lord Lovat. Também nos deu um padrão pelo qual nos devemos guiar”.

Mas o texto vai mais fundo e, olhando para a Inglaterra na altura da II Guerra e para a Inglaterra de hoje, acaba por propor uma reflexão sobre a forma como “um entendimento obsoleto do papel” do país na guerra “sustenta o pensamento isolacionista” e sobre a perda de solidariedade ao longo do tempo. “A distância entre oficiais e homens encolheu, (…) homens e mulheres puseram a mesma energia na luta pela vitória e, à medida que as bombas iam caindo, as cidades partilharam os riscos. Tudo isto implicou uma atitude diferente relativamente à classe e ao género depois do fim da guerra. O nível de solidariedade atingido durante o conflito – ainda que por vezes seja romanceado – tornou-se a medida pela qual avaliamos o quanto regredimos desde aí”.

Ainda no Guardian, podemos ler os testemunhos de leitores que responderam ao apelo do jornal e contaram histórias e memórias do Dia D. São textos contados pelos veteranos ou pelos filhos destes e a partir das respostas, dois jornalistas do Guardian fizeram uma seleção mais cuidada, incluindo alguma informação de contexto.

Será interessante parar por um momento e imaginar a seguinte cena, contada pelo piloto veterano Robert Ashby, ao jornal:

Tínhamos esperado encontrar o inferno assim que desembarcássemos, mas não foi isso que aconteceu. De facto, depois de um breve momento em que parámos para recuperar o fôlego, apercebemo-nos de que o perigo não eram os nossos inimigos mas os outros aviões. Estavam a aterrar em todos os locais (…). Alguns vinham de direções erradas e muitos chocavam contra postes ou outros aviões.

Tudo isto aconteceu no espaço de um minuto. Quando parou, houve um silêncio repentino. Só podíamos ouvir o suspiro suave do vento através da erva. Isto é tipicamente inglês, creio eu: A primeira coisa que fizemos na Normandia foi tirar as garrafas térmicas e beber uma caneca de chá…”

O site da BBC preparou um verdadeiro documento histórico que deverá ser guardado na sua biblioteca digital. Aqui pode acompanhar a cobertura das cerimónias de celebração oficiais que hoje decorrem na Normandia e contam com a presença da rainha de Inglaterra, Barack Obama, Vladimir Putin e François Hollande. Para além disso, pode ouvir e ler o relato original de John Snagge. “O Dia D chegou”, disse Snagge. Mas a BBC também convidou atores como Patrick Stewart e  Benedict Cumberbatch para ler os noticiários desse dia.

Na BBC pode ainda ver um trabalho multimédia  que explica os detalhes da operação Overlord. Saiba como os aliados construíram em poucos meses o porto “Mulberry” e enganaram os alemães relativamente à data e ao local da invasão.

Não podemos deixar de recomendar esta reportagem áudio sobre as jornalistas que cobriram este dia. Em 1944, as mulheres não podiam fazer trabalho jornalístico na frente de batalha. Mas essa proibição não impediu Martha Gellhorn que decidiu embarcar, às escondidas, num barco hospital que desembarcou nas praias francesas. Depois do Dia D, outras mulheres partiram para a Normandia e acabaram por acompanhar as tropas aliadas até estas chegarem a Paris no dia da libertação.

No site da revista americana Time, veja as fotografias que combinam os locais do desembarque com imagens tiradas nos mesmos locais, 70 anos depois e ouça o discurso com que o presidente norte-americano Franklin Roosevelt marcou o início da operação. No Le Monde também é possível comparar os cenário por onde os aliados passaram com o aspeto que têm nos dias de hoje.

Falando em fotografias, o site Mashable tem aquelas que considerámos as mais espetaculares.

Termine no site da revista france Le Point que tem um live blog do Dia D e acompanha, hora a hora, não as celebrações oficiais, mas o desembarque. O Le Figaro fez um vídeo semelhante. Como se estivéssemos em 1944.