Porto, 2010. Emílio Amarchande quer pegar em carros Mini Cooper e organizar visitas guiadas à cidade. Levar os turistas a conhecer a Invicta através de rotas temáticas e personalizadas, como a dos Descobrimentos ou a dos judeus. Nos percursos, os guias contavam curiosidades ligadas à cidade como aquela que se refere ao sucesso do comerciante que estabeleceu a primeira rota comercial com os ingleses. “Quando as pessoas queriam fazer algo de interessante faziam referência ao Sr. Afonso Martins Alho. Diziam ‘vais ser como o Alho’”, explica Emílio Amarchande ao Observador.

Jornalista de formação, trabalhava na área da segurança industrial, quando decidiu deixar o emprego que tinha para se aventurar no lançamento da Kyrostur – City Tour, a startup que lançou no início da crise financeira em Portugal. “Aparentemente, o turismo era o único setor que não estava em crise e criámos algo para o qual ainda não existia uma oferta direta”, explica.

Foi no caminho que fazia entre o trabalho e casa que reparou nos carros Mini, modelo antigo, à venda num stand de automóveis. A ideia surgiu: Porque não fazer visitas guiadas à cidade neste formato?

“Partimos do princípio que iria funcionar muito bem e achámos que, em vez de ficarmos de braços cruzados à espera do que viria dessa crise, poderíamos fazer algo para contornar os obstáculos”, recordou.

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Quando o projecto começou a materializar-se, Emílio Amarchande percebeu que os carros mais antigos poderiam ser um entrave ao conforto dos passageiros. “Pensámos num alemão ou num americano típico e percebemos que iam andar ali apertados”, conta. Resolveu fazer uma revisão da ideia e optar pelos modelos atuais da BMW.

Juntou-se Florbela Costa, sócia no projecto. “Partimos do princípio que iria funcionar muito bem e achámos que, em vez de ficarmos de braços cruzados à espera do que viria da crise, poderíamos fazer algo para contornar os obstáculos”, contou o ex-jornalista ao Observador.

“Cego” pela ideia, lançou a empresa em setembro de 2010. Um ano depois, encerrou-a. Tinha perdido o dinheiro e os cartões já não tinham crédito. “Tentámos de tudo para manter o grupo e quando percebemos que já não era possível, resolvemos parar. Tinhamos como prioridade manter os compromissos com os créditos, pessoas e carros em dia.”

Ao Observador garante que a empresa não ficou a dever “rigorosamente nada a ninguém” e devolveu os carros por iniciativa própria. “A verdade é que receberam as viaturas, não nos alertaram para mais nada e posteriormente processaram-nos por quebra dos contratos”, revela.

Os processos estão a decorrer em tribunal, com penhoras de salários e bens associadas. Emílio Amarchande explica que a culpa foi “das letras pequeninas” que não leu, apesar de ter agido com a “melhor das intenções” ao entregar as viaturas num estado “impecável” e com poucos quilómetros.

Falhas na política, falta de informação geral e aumento da despesa ditaram o insucesso da startup de Emílio Amarchande e Florbela Costa.

Para arrancar com o projeto, os sócios compraram quatro automóveis novos no valor de 120 mil euros em contratos de leasing, modelo de financiamento através do qual a empresa cede temporariamente um bem ao cliente através do pagamento de uma renda. Sobre os motivos que levaram ao insucesso da Kyrostur, Emílio Amarchande explica que a crise teve o seu impacto, mas que não foi a razão fundamental.

“Falhámos na estratégia, porque percebemos que no mercado dos hotéis, apesar de terem recebido muito bem o projeto, havia a concorrência de outros operadores mais enraizados. Acreditávamos que a primeira parte da nossa estratégia passava por este contacto e ainda nem sequer tinhamos trabalhado com algumas agências de promoção mo exterior. Falou a nossa política e alguma informação geral”, revelou.

Os aumentos de preços nos combustíveis e nas portagens e a introdução de custos nas Scut elevaram a fatia da despesa e a Kyrostur acabou por perder contra os adversários: a troika e o mercado.

Desfeito o sonho, Emílio Archande voltou à luta. “Anunciei-me de novo ao mercado e tive a sorte de, na terça-feira seguinte, estar a ser abordado para entrar numa nova empresa”, conta. Depois desta, recebeu uma proposta melhor e posteriormente outra. Atualmente, está envolvido em projetos de segurança relacionados com quedas em altura.