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Marta Martins sempre ouviu falar da história dos cadeados que, presos ao gradeamento de pontes emblemáticas, simbolizam o amor eterno. Isso fascinava-a. A vida proporcionou-lhe encontros regulares com a cidade da luz quando o namorado, Jorge, se mudou para Paris por motivos profissionais. Foi uma questão de tempo até a relações públicas convencer o companheiro a selar a paixão de ambos num cadeado, na Pont des Arts.

“Era tão obrigatório como ir a um museu. Tão cor de rosa como ir à Disney”, conta entusiasmada. “Senti que podia definir a minha história, até porque queremos sempre pormenores românticos”. O casal estava junto há um ano e meio quando decidiu participar na alegada tradição. “Tivemos dificuldade em encontrar um lugar para o cadeado, já não havia espaço junto à zona central”, explica. Depois de algum esforço, prenderam a peça de metal. De costas voltadas para o rio, lançaram a chave em direção às águas do Sena.

A dupla com que o Observador falou não é exceção. São muitos os casais que, vindos de diferentes partes do globo, têm a mesma prática. A ideia é que a união permaneça intacta para todo o sempre. Mas, ao que tudo indica, as pontes poderão não ter o mesmo destino. Cerca de 2,40 metros de gradeamento da Pont des Arts tombaram, este domingo, para dentro da própria estrutura, que foi imediatamente encerrada ao público. Não houve feridos a registar e a grelha de metal foi, entretanto, substituída por painéis de madeira. A culpa foi do peso do amor ou, então, dos cadeados chamados love locks.

O fenómeno em causa terá começado na Rússia, diz o Independent. Espalhou-se um pouco por todo o mundo e é sobretudo comum na cidade dos amantes, onde ganhou um protagonismo intenso em 2008. Atualmente, acredita-se que estejam cerca de 700 mil cadeados a cobrir a Pont des Arts, criada em 1804 e que se estende por 150 metros, bem como outras pontes ao longo do Sena.

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Apesar do romance envolvido, a história tem suscitado reações adversas, criando polémicas em torno da segurança das pontes parisienses. As autoridades têm sido confrontadas com a necessidade de encontrar uma alternativa à situação, mas o receio de que tal possa ter um impacto negativo na indústria do turismo é real, explica a NBC. Já no mês passado, a presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, convidou os cidadãos a abrir um debate em torno da questão, no sentido de procurar uma solução.

Em janeiro deste ano, duas amigas norte-americanas a viver em Paris lançaram a campanha No Love Locks, conta a BBC. Lisa Taylor Huff e Lisa Anselmo criaram, no início do ano, um abaixo-assinado para acabar com os love locks. Até ao momento, o mesmo conta com quase 8 mil assinaturas. Na página de Facebook do projeto, é explicado que, só desde domingo à noite, foram angariadas 600. Considerando a mesma data, cerca de 140 artigos na imprensa internacional falam sobre o assunto e, em particular, sobre a campanha.

Yasmina Chraïbi, 25 anos, é uma parisiense a viver em Portugal. Para ela, os love locks são uma simpática atração turística, até porque Paris é suposta ser uma cidade romântica. Mas ao Observador conta também que, no futuro, será melhor encontrar uma solução mais ecológica. Explica ainda que os cadeados são removidos com alguma frequência porque a ponte das artes é de pequena dimensão. “Para mim, não é algo muito estético. Mas não desaprovo”. A polémica está longe de terminar e pode significar o fim dos cadeados, mas não do amor.