A seleção nacional. Será este o maior foco de atenção durante o Mundial 2014, claro. No Brasil, porém, vão andar outras três seleções que o Observador também escolheu para ir acompanhando mais de perto: a brasileira, anfitriã e pentacampeã do mundo, a espanhola, rainha em título na Europa e no Mundo e, por último, a belga, que reúne talvez a fornada mais promissora de jogadores. Por isso, resolvemos traçar um breve perfil de cada uma delas.

Ouvir a conferência de imprensa de Pep Guardiola, em 2008, aquando da sua apresentação no Barcelona e escutar o discurso do rei Juan Carlos no momento da sua abdicação é um primeiro passo para entender a cultura espanhola. Se quiserem, até o discurso de Julen Lopetegui quando foi apresentado no FC Porto. Coragem, orgulho, ambição e vontade de serem os protagonistas. Aquele gostinho em serem donos do seu destino. É esta a nova Espanha. Antes, era um bocado como a Holanda, de quem dizíamos e dizemos “tem bons jogadores mas nunca fazem nada…”

Em 2008, com o histórico Aragonés, a Espanha conquistou o Campeonato da Europa contra a Alemanha (1-0, Torres) e deu início à sua caminhada triunfal e épica. Para quem considera que a revolução de Guardiola no Barcelona e este título é mera coincidência, desengane-se. O catalão transformou o futebol espanhol: posse de bola é a prioridade. A proximidade entre os jogadores permitia uma troca de bola segura, que levava o adversário ao desespero e, consequentemente, a pressionar erradamente. Quando perdiam a bola, estavam tantos jogadores perto desta que sufocavam logo o rival na pressão, obrigando-o a chutar para a frente. É isto que temos visto no futebol do Barcelona e de Espanha, com mais ou menos gás. Os princípios são estes. Em 2012, com um Mundial no bolso pelo meio, venceria o Campeonato da Europa novamente, depois de um 4-0 à Itália na final.

A qualificação para a Copa do Brasil foi pacífica mas a França de Deschamps ainda deu algumas dores de cabeça. Oito jogos, seis vitórias e dois empates. Parece “peanuts”, certo? Mas não foi. As vitórias magras nas primeiras duas jornadas por 1-0 contra a Finlândia e Geórgia deixavam antever dificuldades. Seguiu-se um 4-0 contra a Bielorrússia para sacudir as más energias, mas um empate caseiro com os finlandeses (1-1) voltaria a demonstrar que, se calhar, estaríamos perante o fechar de um ciclo. Mas não, a coisa rolou e confirmariam o favoritismo.

As presenças de Real Madrid, Barcelona e Atlético Madrid nas meias-finais da Liga dos Campeões atestam a força deste campeonato e país. A Casillas, Sergio Ramos, Iniesta, Silva e companhia, juntam-se agora Juanfran, Koke e Diego Costa, jogadores que chegam ao Brasil com Simeone a correr no seu sangue, o treinador colchonero que transformou a mentalidade no Vicente Calderón.

Uma das lições mais dolorosas desta Espanha foi a Taça das Confederações no Brasil, no verão passado. A seleção de Neymar atropelou os castelhanos por 3-0 na final do Maracanã, no Rio de Janeiro. Neymar e o Brasil regressam agora à agenda espanhola.

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WASHINGTON, DC - JUNE 03:  Andres Iniesta of Spain controls the ball during a training session of the Spain National Team at the Robert F. Kennedy Stadium on June 3, 2014 in Washington, DC.  (Photo by David Ramos/Getty Images)

Andrés Iniesta. O homem que parece bailar enquanto desvia a bola dos adversários. É o único que, arriscamos dizer, merece esta descrição depois de Zinedine Zidane. Iniesta tem cola nos pés, tem 38 olhos, tem humildade e um coração do tamanho do mundo. Não se entende. Silencioso, trabalhador, discreto e mágico. Chega de elogios? Sim. O seu nome está imortalizado nas histórias dos Campeonatos do Mundo: resolveu a final de 2012 contra a Holanda. Aos 29 anos, poderá atingir as 100 internacionalizações no decorrer deste Mundial. Em 2008 e 2012 esteve na equipa ideal dos Europeus e em 2010 foi eleito o terceiro melhor jogador do mundo. O palmarés grita a modica quantia de 26 troféus, entre eles três Ligas dos Campeões. É um campeão.

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Spain's coach Vicente Del Bosque gives instructions during a training session on June 9, 2014, at CT do Caju in Curitiba prior to the start of the 2014 FIFA World Cup.  AFP PHOTO/ LLUIS GENE

Vicente del Bosque. A postura é de senhor, o currículo é de se lhe tirar o chapéu. Herdou a obra que Aragonés herdou de Guardiola e teve a inteligência de não querer alterar os princípios. Duas Ligas dos Campeões, uma Intercontinental, um Campeonato da Europa e um Mundial, entre outros troféus espanhóis. É este o cartão de visita de um homem que podia muito bem ser o pai de um bom amigo nosso. A calma, simplicidade, o sorriso discreto de quem não quer dar nas vistas. Del Bosque procura agora igualar Vittorio Pozzo, o italiano que conquistou dois Campeonatos do Mundo seguidos pela Itália — 1934 e 1938. Pozzo é o único que venceu dois troféus do Mundial, algo a que apenas Luiz Felipe Scolari e del Bosque podem aspirar. Como jogador, esteve apenas presente numa grande competição internacional. Foi o Euro-1980, onde a Espanha desiludiu ao não passar da fase de grupos.

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Spain's goalkeeper Iker Casillas kisses the trophy as he celebrates with team mates on a stage set up for the Spanish team victory ceremony in Madrid on July 12, 2010 a day after they won the 2010 FIFA football World Cup match against the Netherlands in Johannesburg.      AFP PHOTO / MIGUEL RIOPA (Photo credit should read MIGUEL RIOPA/AFP/Getty Images)

A estreia remonta a 1934. A queda aconteceu apenas nos quartos-de-final contra a Itália de Pozzo, o tal italiano que falámos umas linhas acima. A Espanha até empatou com os italianos (1-1) mas o jogo de repetição ditaria o fim da aventura. Giuseppe Meazza resolveu aos 11′. Sim, aquele que daria o nome ao estádio do Inter de Milão. Entre 1930 e 2014, os espanhóis falharam a presença em seis Campeonatos do Mundo: 1930, 1938, 1954, 1958, 1970 e 1974. O melhor desempenho, até 2010, havia sido em 1950, quando terminaram em último lugar do grupo final, que contava com Uruguai — seriam campeões mundiais –, Brasil e Suécia. A Espanha atingiu entretanto três vezes os quartos-de-final da competição (1986, 1994, 2002), mas a glória chegaria em 2010. Vicente del Bosque comandou o sonho na África do Sul e Iniesta sentenciou a final contra a Holanda. Olé!