Honra. Era a única coisa que os espanhóis pediam para a última jornada. “Último não, se faz favor”, escrevia a Marca na sua primeira página, assim como Albiol na antevisão. O discurso atesta o desastre. Anuncia a receção complicada em Espanha. Adivinha a revolução, com o eventual adeus de históricos como Xavi e Xabi Alonso. Chegará uma nova fornada, com o maior legado da história do futebol espanhol, mas com o relvado a arder nos próximos tempos. Afinal, é disto que vivem os melhores: de corresponder às expetativas.

Espanha – Reina, Juanfran, Albiol, Sergio Ramos, Alba, Xabi Alonso, Koke, Iniesta, Santi Cazorla, David Villa e Fernando Torres

Austrália – Ryan, McGowan, Wilkinson, Spiranovic, Davidson, Jedinak, McKay, Bozanic, Leckie, Oar e Taggart

Depois de seis anos dignos de um conto de fadas, os espanhóis procuravam desta vez fugir a um triste fado que os assombrava: nunca um campeão do mundo em título havia sido eliminado sem somar pontos. Os espanhóis tornaram-se, após a derrota com o Chile, no quinto campeão em título a cair na fase de grupos, depois de Itália-1950, Brasil-1966, França-2002 e Itália-2010.

David Villa estava na equipa titular de Vicente del Bosque. Este era o adeus do “pichichi” de Espanha, o máximo goleador da La Roja. Os números são de craque: 58 golos em 96 partidas. Esta aventura começou em 2005 contra San Marino e, passados 3.421 dias, terminava esta segunda-feira, em Curitiba. Esta partida contra a Austrália oferecia algo importante a um outro jogador. Andrés Iniesta cumpria a 100.ª internacionalização, algo que apenas oito jogadores lograram: Casillas, Xavi, Zubizarreta, Sergio Ramos, Xabi Alonso, Fernando Torres, Raúl González e Puyol.

O onze da Espanha prometia mais frescura e compromisso. Três campeões espanhóis saltaram para o onze — Juanfran, Koke e Villa –, com a raça muito típica colchonera, como se ainda ouvissem Diego Simeone no banco a berrar e a puxar por eles. A falta de “fome” de que Xabi Alonso falou, essa, não afeta Koke. O médio mostrou desde cedo que estava fresco. Mais: queria muito estar ali. Reina fazia também a sua estreia em Mundiais.

O arranque desta partida não surpreendeu. Austrália e Espanha discutiram a bola como se fossem similares. A batalha estava no meio-campo, com erros e mais erros de parte a parte. Esta seleção espanhola é uma sombra do que foi. Apostava muitas vezes em jogo direto na frente (falta de confiança, pois claro), onde esperavam Fernando Torres e David Villa, muitas vezes a 387 quilómetros de distância do meio-campo. Os espanhóis estavam muito distantes entre eles, o que não permitia o tal tiki-taka e a pressão avassaladora na hora da perda de bola. Mais importante: a bola já não lhes responde como antes, já não se deixa encantar pelos pés desta gente. O mundo já não é cor de rosa.

Os primeiros momentos de perigo surgiram à passagem do minuto 20. Primeiro foi David Villa, que entrou muito bem na partida, a rematar nas orelhas da bola, após cruzamento açucarado de Iniesta. Depois foi Alba, que aproveitou a ressaca de uma bela iniciativa de Fernando Torres, para rematar forte: boa defesa de Ryan.

A magia chegou pouco depois. Iniesta, ao seu estilo, descobriu Juanfran no corredor direito. O lateral colchonero galgou uns metros e cruzou para a área, onde esperava o senhor golo da seleção espanhola. Villa até podia encostar fácil mas preferiu deixar o seu selo de qualidade em Curitiba: golaço de calcanhar. Um golo made in Atlético Madrid. Villa tornava-se assim no quarto espanhol a marcar em três Mundiais, depois de Julio Salinas, Fernando Hierro e Raúl González.

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Dribles sem fim, correrias, “tabelinhas” e um golo de calcanhar. David Villa estava simplesmente a desfrutar da sua despedida. Parecia que estava no jardim de sua casa.

O intervalo chegaria sem que se festejassem mais golos. A Espanha não encantava mas chegava com relativa facilidade às imediações da área dos Socceroos. Alba e David Villa assumiam-se como os jogadores mais ativos no ataque espanhol.

O mais emocionante da segunda parte até aos 57′ foi… a substituição de David Villa. Custa sempre ver aquela caminhada. A última. Sem regresso. Villa sabia que não voltaria a usar aquela camisola, a tal que beijou vezes sem fim quando marcou de calcanhar na primeira parte. Acaba assim, num Mundial de má memória, a sua contribuição na La Roja: 59 golos em 96 jogos; um Campeonato da Europa e um Campeonato do Mundo. Não está mal para contar aos netos…

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Não seria preciso esperar muito para a Espanha voltar a marcar. Estas coisas acontecem quando Iniesta decide fazer algo especial. O catalão recebeu a bola, levantou a cabeça, hesitou, mas era só para criar suspense. Lá decidiu então, um segundo depois, deixar Fernando Torres na cara do seu fantasma dos últimos anos: a baliza adversária. Torres dominou com qualidade e escolheu onde quis colocar, com tranquilidade. Com classe. É verdade que esta Austrália não deu trabalho como Holanda e Chile, mas Torres e Villa parecem muito mais talhados para a seleção. A obrigação de utilizar e servir Diego Costa foi um dos tiros no pé da La Roja…

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A loja do senhor Vicente del Bosque estaria fechada? Não senhor. É que entrou Cesc Fàbregas, um catalão que vestia a camisola 10 e que, por isso, teria de inventar algo. E inventou: um passe picado genial para as costas da defesa. O destino era Juan Mata, um diabo vermelho. O médio parou com pé direito e rematou por baixo das pernas de Ryan com o esquerdo. Parecia fácil…

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O relógio continuava imperturbável rumo ao minuto 90 e impunha-se uma pergunta: será que Xavi Hernández não entraria? Afinal, ele foi a bandeira, coração e cérebro desta geração de ouro espanhola. Não, del Bosque não nos daria o prazer de voltar a ver Xavi tocar na bola, com aquele seu jeito de cabeça levantada e imperial. Xavi era como um génio da simplicidade. Graças a ele e ao seu Barcelona, os miúdos na rua passaram a apreciar o passe e receção. O que é simples ganhou beleza. É esse o legado de Xavi.

O apito final chegaria e com ele o fim das aventuras em Campeonatos do Mundo para lendas nacionais como Casillas, Xavi, Xabi Alonso, Villa e Torres. “Tudo o que é bom acaba rápido”, diz a sabedoria do povo. Desta vez, mal. Esta Espanha encantou com o seu futebol inspirado no Barça de Pep Guardiola desde 2008. Acabou em 2014, sem glória. No pasa nada: são eternos.