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Ao fim de 40 anos, Estela de Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio (Abuelas de la Plaza de Mayo), encontrou o neto, raptado durante a ditadura militar argentina (1976-1983), que ficou conhecida por “Processo de Reorganização Nacional”.

Esta é, sem dúvida, uma das histórias mais felizes na Argentina, este ano. Cristina Fernández, presidente do país, ligou a Estela mal soube da notícia. Perguntou se era verdade e ela disse que sim. “Chorámos juntas, não sabíamos que dizer… Não há como, por mais que assim o queiram, negar que isto é um triunfo para os argentinos”, contou a presidente das Avós da Praça de Maio, numa conferência de imprensa, na terça-feira. Estela de Carlotto tem 83 anos e o neto Guido, 36 anos. Laura, filha de Estela e mãe de Guido, nome do neto, teria hoje 60 anos se não tivesse sido assassinada aos 24 anos, durante o período da ditadura militar no país.

Laura e Oscar Montoya, o seu companheiro, pertenciam à organização guerrilheira os “Montoneros”. Quando foi presa, Estela sabia que a filha estava grávida de dois meses e meio. Muitas testemunhas garantiram-lhe que a filha havia dado à luz um rapaz e que se chamava Guido, o nome do avô. Desde esse dia, Estela de Carlotto começou a procurar o neto por toda a parte, sem nunca ter pronunciado uma palavra de ódio ou vingança, escreve o El País. Só pedia justiça. Converteu-se numa referência mundial da defesa dos direitos humanos. Com os anos a passar, foi perdendo muitas das companheiras de luta. Mas ela continuou a procurar.

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O número mágico 114

A associação a que Estela preside encontrou ao longo dos anos 113 netos desaparecidos durante a ditadura. O 114º foi o seu. Guido é um músico e vive na localidade de Olavarría. De acordo com os testes, existe uma probabilidade de 99% ser o neto de Estela de Carlotto. Nenhuma das outras 114 histórias foi fácil, mas a descoberta do neto da presidente das Avós de Maio é algo especialmente simbólico.

Na terça-feira, Estela lembrou que os netos que procuram a associação também têm enormes dúvidas. “As famílias que os criaram podem dizer-lhes: ‘não me vais denunciar agora, quando eu te criei’. E muitas vezes eles esperam que essas famílias morram. O problema é que às vezes é tarde demais, porque os avós também já morreram”, explicou Estela.

A ditadura argentina tinha dois anos de existência quando, a 26 de Junho de 1978, nasceu Guido de Carlotto no Hospital Militar de Buenos Aires. Pelo que se sabe, Laura, a mãe, só teve autorização de estar cinco horas com ele. Laura estava detida no centro clandestino La Cacha, na localidade de La Plata. A mãe de Guido, um dos quatro filhos de Estela de Carlotto, foi raptada aos 23 anos, juntamente com o seu companheiro, em novembro de 1977, quando estava grávida de dois meses e meio. Meses depois do nascimento de Guido, Laura foi assassinada – o corpo foi entregue à mãe. Mas nunca se soube nada de Guido, até à passada terça-feira.

A Juíza Maria Servino de Cubría, encarregada de investigar a causa de vários desaparecimentos durante a ditadura militar, foi quem contou a Estela que tinham encontrado o seu neto. “Foi muito emocionante”, afirmou Servino de Cúbria, ao canal CN23. “Esta história não me deixou só emocionada a mim, mas toda gente que trabalha comigo. A Estela reagiu chorando, tremendo, emocionada. Não estava à espera desta notícia”, disse a juíza. Até terça-feira, Guido de Carlotto chamava-se Ignacio Hurban, nome atribuído pelos pais adotivos. Na linguagem das Avós de Maio este tipo de pais são conhecidos como os “apropriadores” – famílias que eram apoiantes da ditadura.

www.ignaciohurban.com

Hurban cresceu em Olavarría, um município a 308 quilómetros de Buenos Aires. Em adolescente, mudou-se para a capital para estudar música, mas mais tarde regressou à sua cidade, local onde dirige uma escola de música. Esta informação está disponível na página www.ignaciohurban.com. Gosta de jazz e tango, e chegou a participar num ciclo de música organizado pelas Avós de Maio. Agora, talvez, tenha de mudar o nome da sua página.

The president of Human Rights organization Abuelas de Plaza de Mayo, Estela Barnes Corlotto, talks to the press before being distinguished as illustrious citizen of South America's biggest trade bloc Mercosur before taking part in the XLI Ordinary Meeting of the Common Market Council (CMC) and Mercosur's Summit, at the convention centre of the South American Football Confederation (CONMEBOL) in Luque, near Asuncion, Paraguay on June 28, 2011. AFP PHOTO/NORBERTO DUARTE (Photo credit should read NORBERTO DUARTE/AFP/Getty Images)

“Eu não procuro mais do que a justiça, a verdade”, disse Estela, numa conferência de imprensa na terça-feira, quando ainda só tinha visto o neto por fotografias. “Tenho mais 14 netos comigo. O lugar dele estava vazio, à espera. O espaço nos retratos estava vazio, à espera. Já o vi nas fotos, é bonito. É um artista, é um bom rapaz. E procurou-nos. Veio até às Avós [de Maio] em julho, foi recebido e escutado”, explicou.

E acrescentou: “Quando o vir, acho que não vou dizer-lhe nada. Vou dar-lhe um abraço. Quero tocá-lo, quero ver se é como o sonhei. Eu vi-o em fotografias e parece-se connosco.” Até agora, Guido só manteve contacto com Claudia, uma das filhas de Estela. “Eu ainda não falei com ele. Ele disse [à filha Claudia] que estava muito feliz e pronto para nos ver. Ele sabe que toda a família está à espera dele”, disse Estela.

Ao longo dos anos, sempre que foi questionada se ia morrer sem conhecer o neto, Estela afirmava que essa ‘cruz’  era compensada por ter 14 netos. Nesta terça-feira, Kibo Carlotto, o filho mais novo de Estela, e irmão de Laura, confirmou à televisão argentina: “Passados 36 anos, encontramos o meu sobrinho. Ele apresentou-se voluntariamente para fazer um teste de ADN.”

A Associação das Avós da Praça de Maio tem 85 sedes na Argentina e 150 empregados. Até hoje, continua à procura dos netos desaparecidos. Ainda existem 400 denúncias por resolver.