Rádio Observador

Livros

Aqui está um dicionário de portoguês, carago!

2.859

O professor portuense João Carlos Brito pôs mãos à obra para juntar o sentimento tripeiro numa obra. Se não sabe o que é uma sertã nem "estar com o toco", o melhor é ler o livro para não ser morcão.

Autores
  • Sara Otto Coelho
  • Andreia Reisinho Costa

Provavelmente não sabe, mas tem uma sertã na cozinha. E se alguma vez lhe disserem que está “com o toco”, é melhor abrir um sorriso para disfarçar. Se não percebeu nada do que aqui foi escrito, o livro Lugares e Palavras do Porto, publicado este verão por João Carlos Brito, é o melhor aliado para quem não se quer sentir um “morcão” na Invicta.

João Carlos Brito considera-se um verdadeiro tripeiro. “Aquele que se orgulha em qualquer lado da sua cidade e que sente paixão pelo Porto, que vê os aspetos negativos da cidade mas que não admite que os outros o digam. Aquele sentimento sempre que se atravessa a Ponte D. Luís de regresso. Um sentimento que pode ter sido desenvolvido pelo centralismo”. Está dada uma possível definição para o sentimento tripeiro, pelo professor bibliotecário que acaba de publicar um livro que reúne mais de 2.500 palavras e expressões do Porto. “A maior e mais completa recolha de sempre”, promete.

Para dissipar dúvidas, sertã é a palavra portuense para frigideira, e estar com o toco significa estar de mau humor. João Carlos Brito fica com o toco por não haver mais gente a estudar este património linguístico, coisa que já faz há mais de 20 anos. Em 2010 publicou o livro Heróis à Moda do Porto, “uma brincadeira” já com alguns vocábulos do Porto, mas sem o rigor científico de Lugares e Palavras do Porto, disse o autor portuense ao Observador (numa entrevista feita no Porto, claro).

“Chegámos a uma altura em que se não as registarmos ela perdem-se no tempo” e dá como exemplo os sinónimos bué e o tótil. “Tenho 47 anos. Pelos meus 20 anos, o tótil era usado pelos portuenses e o bué pelos lisboetas. Ai do portuense que utilizasse o bué, era logo um ‘betinho de Cascais!'”. Mas a realidade mudou. “Recentemente fizemos um teste junto de alunos do 2.º ciclo da escola do Cerco do Porto e verificámos que os miúdos de 11 e 12 anos já quase só usam o bué”, prova de que as marcas linguísticas tendem a esbater-se, com a televisão a desempenhar um papel muito importante no processo.

dicionário do porto

©Andreia Reisinho Costa

No livro também se encontram histórias, memórias e metáforas, mas o dicionário de “Portoguês” é o grande destaque do livro. “Ao longo dos anos vou selecionando e pesquisando, e tento ir atrás das palavras, da sua origem”. Ter a certeza que uma palavra é ‘propriedade’ das pessoas do Porto é muito difícil, mas “há indicadores que nos garantem que determinada palavra terá nascido numa determinada região”.

Ou seja, em Lugares e Palavras do Porto (160 páginas, 12,40 euros) não estão só palavras usadas na Área Metropolitana do Porto, estão também palavras conhecidas no resto do país mas cuja origem será portuense, e onde se incluem corruptelas, gírias e conceitos, “palavras que por um determinado motivo, por serem referências a locais, a datas, a factos históricos que estão relacionados com a cidade, também entraram”. Gelsenkirchen é uma dessas novas palavras, desde que em 2004 o Futebol Clube do Porto ganhou a Liga dos Campeões naquela cidade. O facto de João Carlos Brito ser portista ajuda a explicar a existência de várias referências ao clube.

A expressão “Esperto como um alho”, por exemplo, foi localizada como originária do Porto ou de um portuense. Depois, há que validar se determinada palavra ainda é usada pelos portuenses. O professor tem uma amostra para o ajudar neste último aspeto. “Tenho um grupo de 50 pessoas, 25 moram no Porto e 25 fora da cidade, mas que têm algumas referências sobre o Porto”. São essas pessoas que o ajudam a perceber que a expressão ‘à minha beira’, por exemplo, não é utilizada em todos os distritos do país.  A partir daí começa a investigação para se detetar a origem, e o trabalho nunca acaba, porque estão sempre a aparecer vocábulos novos.

A conversa não podia terminar sem esta pergunta. Afinal de onde vem a palavra “carago”, carago? “Vem do espanhol “carajo”, é um pau, e a palavra surgiu por associação fálica”. Se África influenciou os lisboetas, a Galiza exerceu influência a norte, de que é exemplo a troca dos “v” pelos “b” nas palavras .

joão carlos brito, escritor

João Carlos Brito considera-se um verdadeiro tripeiro (e um grande portista)

Palavras e Lugares do Porto resulta de um projeto lançado publicamente por João Carlos Brito, que depois escolheu 25 textos de 25 autores em função das temáticas. “Selecionei os textos em função da qualidade. Depois tentei dar um caráter interessante ao livro, quer em termos de tema quer em termos de registo. A minha parte é a do dicionário e é um trabalho que está sempre a ser atualizado”.

Ou seja, daqui a tótil tempo podemos ter nas mãos um dicionário de “Portoguês” ainda mais completo, carago.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)