Afinal, quem salta o pequeno-almoço não tem mais tendência para engordar, nem é menos saudável só porque não come a primeira refeição do dia. A importância do pequeno-almoço para começar o dia é uma ideia ancestral que ao longo do tempo foi sendo validada pela ciência. Mas, como já aconteceu tantas vezes no passado, os benefícios de determinado alimento ou comportamento podem ser postos em causa com os avanços da ciência. E a tendência dos mais recentes estudos parece pôr em causa o pedestal em que o pequeno-almoço é colocado.

Num estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition, em novembro de 2013, os investigadores comparam a relação entre o peso e o hábito de tomar o pequeno-almoço, questionando as várias teorias que dizem que saltar aquela refeição matinal pode contribuir para o aumento de peso. A análise a essas teorias concluiu que são apenas “presumivelmente verdadeiras”, devido, entre outras falhas, à crença universal de que o pequeno-almoço é fundamental, que influenciou muitas vezes os próprios investigadores.

Um estudo da norte-americana University of Alabama at Birmingham, publicado na edição de agosto do American Journal of Clinical Nutrition, sustenta a mesma conclusão. “Diz-se muitas vezes que o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia. Os nutricionistas sugerem regularmente que se tome todas as manhãs para obter muitos benefícios para a saúde, como a perda ou a manutenção do peso”, escreve-se na página da universidade. Mas a nova pesquisa mostra que “quando se compararam consumidores regulares com quem saltou a refeição regularmente, não existiu influência na perda de peso“.

<> on June 17, 2010 in Cape Town, South Africa.

Quem tomou o pequeno-almoço demonstrou queimar mais calorias. Mas foram as calorias ingeridas nessa refeição. ©Getty Images

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Para a investigação foram recrutados cerca de 300 voluntários, entre os 20 e os 65 anos, que estavam a tentar perder peso. Aleatoriamente foi-lhes pedido que saltassem o pequeno-almoço ou que o tomassem sempre, ou ainda que continuassem com a sua dieta habitual, sem qualquer alteração. 16 semanas depois, os voluntários regressaram ao laboratório para serem pesados e ninguém tinha perdido mais do que meio quilo. Não houve diferenças entre quem tomou sempre o pequeno-almoço e quem o saltou.

Agora que sabemos que a recomendação generalizada para tomar o pequeno-almoço todos os dias não tem impacto diferenciado na perda de pesos”, disse Emily Dhurandhar, autora principal do estudo, é possível avançar com novos estudos sobre a componente nutricional correta da refeição, uma vez que há “provas de que o pequeno-almoço pode influenciar o apetite e o metabolismo”.

No mesmo sentido vai o estudo do departamento de saúde da University of Bath, no Reino Unido, cujas conclusões mostram que quem tomava o pequeno-almoço de manhã tinha mais energia durante o dia. No entanto, as pessoas analisadas não queimaram mais calorias do que as que não comiam nada de manhã. Nas suas atividades físicas perdiam mais calorias, sim. As mesmas que tinham ingerido no pequeno-almoço, o que dá uma soma zero. Nas análises feitas ao metabolismo, colesterol e níveis de açúcar no sangue, ambos os grupos apresentaram resultados iguais àqueles que tinham antes de iniciarem o estudo.

Mais: o grupo privado de tomar o pequeno-almoço consumiu cerca de 20% menos energia (calorias) do que o outro grupo durante todo o dia, o que indica que o primeiro grupo não teve necessidade de compensar a energia que faltou pela ausência da refeição matinal.

É certamente verdade que as pessoas que tomam pequeno-almoço são tendencialmente mais magras e saudáveis, mas estes indivíduos também seguem tipicamente outras recomendações para uma vida saudável”, escreveu o investigador principal, James Betts.

Mais estudos deverão aparecer nos próximos tempos, agora que a comunidade científica encontrou novos resultados. Até prova em contrário, as pessoas que não gostam de tomar o pequeno-almoço têm um novo argumento em sua defesa.