Uma peça avança. As outras ficam quietas. Para a frente, na diagonal ou para os lados. Pode dar um ou vários passos. São 16 peças e estão à mercê da mente que comanda e da mão que executa. “Cada vez me interesso mais por xadrez”, admite Pep, o Guardiola que, há um ano, se fixou em Munique, aprendeu a falar alemão e arrancou as raízes germânicas a uma equipa. Ao Bayern, ao campeão de tudo, onde quis semear a raiz do tiki-taka. Antes de o fazer, porém, o catalão tirou um ano sabático: 12 meses em Nova Iorque. E foi lá que conheceu Garry Kasparov.

Só por obra do acaso. Um dia, a agenda de Pep estava livre para ir jantar fora. Pegou no telefone, varreu a lista e pensou em Xavier Sala i Martín, catalão, professor na Universidade de Columbia e ex-tesoreiro do Barça entre 2009 e 2010. O convite seguiu, mas esbarrou numa porta — Martín já ia partilhar mesa, refeição e conversa com alguém. Por isso, convidou Guardiola para se juntar. O treinador aceitou.

E quando chegou ao restaurante lá estava Kasparov, a mente brilhante do xadrez, o russo que, entre 1986 e 2005, liderou o ranking mundial durante 225 semanas (em 228 possíveis). “Pep e Garry não falaram de xadrez nem de futebol, mas de invenções, tecnologia e do valor de quebrar os moldes. Nas virtudes de não se acobardarem perante a incerteza e a paixão”, recordou Xavier Sala i Martín, ao confessar-se “fascinado” por “ver dois homens tão inteligentes” a “improvisarem uma conversa”. Que durou, durou e durou.

O episódio é um de muitos que Martí Perarnau, jornalista e antigo atleta olímpico, recolheu ao longo da última época — que preencheu a perseguir Pep Guardiola. Balneário, treinos, jogos, palestras e jantares, o escriba foi a sombra do treinador durante a primeira temporada do catalão no Bayern de Munique. “Só me pediu que não contasse nada do dia-a-dia, de contratações, dos onzes iniciais para os jogos ou de algo que prejudicasse o clube”, admitiu o jornalista, assegurando que Guardiola “não leu uma linha” do ‘Herr Pep’, livro que foi apresentado na quarta-feira, em Madrid.

Em outubro de 2012, o catalão e o mestre russo do xadrez reencontraram-se. E Guardiola pasmou-se. Kasparov, conformado, disse-lhe que “era impossível” conseguir ganhar a Magnus Carlsen, hoje campeão mundial de xadrez e, na altura, com 21 anos. Pep não entendia e insistia que sim, era possível. Tinha que ser. As explicações para o desânimo de Kasparov, porém, vieram de outras vozes. “Talvez seja um problema de concentração”, suspeitou Cristina, mulher do catalão, porventura lembrando os então 49 anos do xadrezista. Mas Daria, mulher do russo, argumentou contra.

Disse que Carlsen era jovem e “ainda não tinha noção do desgaste de um jogo de xadrez”, como recordou Perarnau no livro. E Daria prosseguiu, ao explicar que o norueguês “aguentaria estar cinco ou seis horas” a lutar contra Kasparov, que “não queria passar outra vez pelo sofrimento de passar tantas horas seguidas com o cérebro a toda a velocidade”, ocupado a “calcular possibilidades sem descanso”.

Lá está, o mesmo que Guardiola faz. Sempre e a toda a hora, no futebol. “Sou um ladrão de ideias, estou todo o dia a analisar e observar o que posso utilizar”, lê-se, às tantas, no livro que, por enquanto, ainda só existe na versão original, escrita em castelhano. É esta obsessão, o vício em melhorar e evoluir, que por vezes enclausura Pep na culpa própria quando as coisas não correm bem. “Enganei-me completamente. Foi uma grande borrada, a pior que cometi enquanto treinador”, desabafou, quando o Bayern de Munique foi eliminado pelo Real Madrid, na época passada, nas meias-finais da Liga dos Campeões (perdeu por 0-4, em casa, na segunda mão).

E Guardiola não se desculpou. “Durante toda a temporada recusei-me a jogar em 4-2-4, sempre a resistir. E, no dia mais importante… Que borrada”, chegou a confessar o técnico, a quem Philip Lahm, capitão do Bayern, chegou a dizer que a equipa estava “com ele até à morte”. Pelo menos esta época ainda lá estão juntos, em Munique.