O recém-eleito candidato do PS a primeiro-ministro e ainda presidente da Câmara Municipal de Lisboa não tem assento na Assembleia da República, mas não faltou à sessão plenária desta tarde. António Costa foi o nome mais falado esta tarde no Parlamento – ainda que por uma ou outra vez tenha sido confundido com o de outros Antónios. Maioria exigiu esclarecimentos sobre “propostas concretas” e disponibilidade do PS para negociar, enquanto Ana Catarina Mendes, fortemente aplaudida pela bancada socialista, quis dar sinais de união. “A bola está do lado de António Costa”, avisou o vice-presidente do PSD José Matos Correia.

Apesar de terem começado por “congratular” António Costa, tacitamente representado esta tarde no Parlamento pela deputada Ana Catarina Mendes, que foi a escolhida do partido para ir ao púlpito fazer a declaração política do PS, do CDS ao Bloco de Esquerda todos levantaram dúvidas sobre o desfecho da crise interna do Partido Socialista. E as dúvidas foram fundamentalmente as mesmas: quais as propostas concretas e o que mudou na política de entendimentos do PS.

“Temos o direito de saber o que quer fazer o dr. António Costa sobre os destinos do país, temos o direito de saber o que pretende fazer o dr. António Costa em matéria da União Europeia, do Tratado Orçamental, da reforma do Estado”, disse o vice-presidente do PSD Matos Correia, repetindo várias vezes que Costa “se tem limitado a acumular afirmações vagas e ocas”. Se o “novo líder político do PS” não o fizer, disse o social-democrata, “poderemos tirar duas conclusões: ou não tem ideias nem propostas concretas, ou tem ideias mas tem receio de as apresentar porque teme a impopularidade do povo”.

Matos Correia, que chegou a confundir o nome de António Costa com o de António Vitorino, usou ainda o seu tempo de intervenção na Assembleia da República para encostar o Partido Socialista à parede no que diz respeito a eventuais consensos com a maioria. Deixando a “bola do lado de António Costa”, o vice-presidente do PSD quis saber “com que PS podemos contar a partir de agora: um PS em que mudou o António mas tudo permanece na mesma, ou um PS disposto a dar o seu contributo para uma agenda séria e reformista que olhe para os portugueses e não para si próprio?”

A resposta surgiu pela voz da diretora de campanha de António Costa durante as primárias, Ana Catarina Mendes, que foi fortemente aplaudida pela bancada socialista durante toda a sua intervenção. “A melhor resposta são as mais de 170 mil pessoas que no domingo saíram à rua para ir votar”, disse a deputada socialista, que sublinhou que “António Costa não é um político qualquer” e que a “fortíssima mobilização” dos simpatizantes socialistas mostra que “só com o PS é possível liderar uma alternativa a este Governo”.

Mas mais do que falar sobre as primárias, Ana Catarina Mendes quis passar uma imagem de união do partido neste período pós-crise interna.

Não há novos nem velhos PS, e não esperem um PS a contas e braços com outro PS, mas sim um PS a contas com o PSD”, disse.

Mas mesmo depois da intervenção de Ana Catarina Mendes, as dúvidas persistiam, e voltaram a ser levantadas pelas várias bancadas, da esquerda à direita. A deputada do Bloco de Esquerda Cecília Honório, que começou por registou o “sucesso de participação” nas primárias de domingo, pediu “garantias” de que não vai haver “tentação” da parte do “novo PS” de mexer nas leis eleitorais em vésperas de eleições e de que vai pronunciar-se sobre as “questões estruturantes”. “O que tem este novo PS a dizer sobre a dívida pública e o tratado orçamental?”, perguntou a bloquista, exigindo esclarecimentos.

À direita, também Hugo Soares, do PSD, e Nuno Magalhães, do CDS, sublinharam a mensagem de Matos Correia e quiseram saber se o “novo e o velho PS” são afinal o mesmo ou se o PS de António Costa está “aberto a conversar com os partidos da maioria e disponível a encontrar soluções para o país”.

“Ficamos a saber [depois da declaração de Ana Catarina Mendes] aquilo em que o PS não embarca, o que não quer e o que não fará”, disse Nuno Magalhães. “Mas em que é que embarca e o que é que vai fazer?”, perguntou o centrista, dizendo querer “perceber a dimensão do compromisso” do Partido Socialista que está em fase de transição da liderança.

Respondendo aos esclarecimentos das várias bancadas, Ana Catarina Mendes disse compreender a “ansiedade das respostas“, mas sublinhou que “haverá tempo para amadurecer um conjunto de questões, que serão abordadas no tempo certo”. Deixou apenas a certeza de que o PS não fará “ataque à escola pública, à segurança social nem aos desempregados”.