Passaram quase 50 anos desde que o primeiro exemplar do dinossauro Deinocheirus mirificus foi descoberto no deserto de Gobi, na Ásia. O esqueleto estava muito incompleto, mas os membros anteriores tão distintos permitiram classificá-lo como uma nova espécie. Os dois novos espécimes agora descritos na revista científica Nature permitiram perceber mais sobre este animal – os parentes mais próximos, o tipo de alimentação e o modo de locomoção.

O espécime descoberto em 1965 apresentava apenas os dois membros anteriores, algumas vértebras e costelas. Mas o destaque estava precisamente no tamanho desses membros – 2,4 metros de comprimento era muito pouco comum para um dinossauro bípede (no Tyrannosaurus rex não media mais de um metro). Foi esta característica única que lhe valeu o nome Deinocheirus, do grego “mão horrenda”, mirificus, do latim “invulgar”. Mas era impossível sequer perceber a que família podia pertencer.

Deinocheirus mirificus_Eduard Solà_Wiki

Os membros anteriores com mais de dois metros valeram a classificação desta espécie – Eduard Solà/Wikimedia Commons

Dos dois novos espécimes encontrados, um deles têm os membros superiores ainda maiores, mas os esqueletos mais completos permitem encaixar estes dinossauros na família dos “dinossauros semelhantes a aves” (Ornithomimosauria). São parentes dos tiranossauros e dos velociraptores, mas são omnívoros. Embora os dentes sejam típicos dos animais que se alimentam de plantas, no estômago foram encontrados restos de peixes. A alimentação, assim como os dedos grandes para não se enterrarem no lodo, indicam que os Deinocheirus mirificus viveriam próximo da água. De facto, acredita-se que há 70 milhões de anos o deserto de Gobi teria um ambiente semelhante ao delta do Okavango, em África.

El País descreve-o como semelhante a uma avestruz com 11 metros de altura, seis toneladas e meia de peso, uma corcunda, um focinho de um metro com um bico como o de pato e grandes garras na extremidade dos braços longos – mãos horrendas invulgares. Os novos dados surgem graças ao trabalho da equipa de Yuong-Nam Lee, investigador no Museu Geológico do Instituto Coreano de Geociência e Recursos Minerais (Coreia do Sul). Um dos espécimes foi descoberto em 2006, o outro em 2009, mas só em 2011 foram recuperados os ossos que tinham sido roubados e vendidos ilegalmente muitos anos antes.

Deinocheirus mirificus_Michael Skrepnick

Ilustração do dinossauro de membros anteriores longos e abdómen grande – Michael Skrepnick

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Os cientistas acreditam que a corcunda de Deinocheirus mirificus fora do comum serviria para sustentar as pernas muito fortes e o abdómen grande graças aos ligamentos que teria – à semelhança do que acontece com as pontes suspensas como a Ponte 25 de Abril. “É definitivamente um animal invulgar”, disse à Nature Thomas Holtz, um paleontólogo de vertebrados na Universidade de Maryland. “Tinha uma ‘barriga de cerveja’ maior do que os ornitomimossaurios típicos.”