Uma equipa de investigadores do Laboratório Cold Spring Harbor, em Nova Iorque (Estados Unidos da América) descobriu que, ao contrário do que se pensava até agora, cada neurónio pode ter mais do que uma função consoante a informação que recebe. Os neurónios que são estimulados por sinais sensoriais (como uma cor ou um som) têm uma função específica, mas os neurónios que têm funções complexas podem desempenhar mais do que uma função em simultâneo, segundo o artigo publicado na Nature Neuroscience.

Analisando uma parte específica do cérebro de ratos – o córtex parietal posterior – os investigadores verificaram que a atividade desempenhada pelo animal depende tanto dos estímulos recebidos (visuais ou auditivos), como da decisão tomada, ou de ambos em simultâneo. “Como se os neurónios estivessem a fazer múltiplas tarefas simultaneamente – daí o termo ‘multitasking’”, esclarece ao Observador David Raposo, primeiro autor do estudo e aluno do Programa Internacional de Doutoramento da Fundação Champalimaud (Lisboa).

O investigador explica ainda que “o córtex parietal posterior tem sido implicado em várias funções, que vão desde a perceção e memória espacial, à tomada de decisões, planeamento de movimentos ou atenção”, justificando o estudo desta parte do cérebro. Mas lembra que outros neurónios, como os das áreas sensoriais que recebem estímulos diretos, continuam a ter funções específicas consoante o estímulo recebido.

Ciente de que analisar uma tomada de decisão implica etapas muito diferentes como “perceção do estímulo, avaliação das opções disponíveis, escolha de uma resposta e execução da ação da resposta”, David Raposo admite que “fica em aberto em que condições o cérebro utiliza esta estratégia [‘multitasking’] e se a resolução de múltiplas tarefas em simultâneo é sempre vantajosa ou não”.

Realizar várias tarefas em simultâneo ou ser capaz de responder perante fatores diferentes demonstra uma grande flexibilidade deste tipo de células, “permitindo que uma única rede de neurónios esteja envolvida em várias etapas dos processos cognitivos complexos, como a tomada de decisões”, diz o investigador. “Esta população de neurónios muda a atividade dinamicamente de acordo com a evolução das necessidades do animal.”

O próximo passo será conseguir desenvolver o mesmo tipo de investigação com voluntários humanos. “Se isto se concretizar será um passo importante para aproximar o nosso estudo a uma aplicação clínica”, diz David Raposo, acrescentando que estes conhecimentos poderão, no futuro, criar condições para “restabelecer o normal funcionamento do cérebro em pacientes com perda de capacidades cognitivas”.