O estereótipo do homem-guitarra atrai muita gente, mas afasta igual número. Quem não gosta de chavões musicais, olha para mais este “cantautor” e foge sem ouvir, porque espera canções iguais a todas as outras, lentas, voz e guitarra a cair num poço com o fundo da amargura com que são escritas canções cinzentas. Mas vencida a tentação da fuga, ou tenha havido a sorte de surgir uma pista que nos faça seguir pelo caminho certo — o de meter o CD na gaveta do leitor –, eis que se revela um artista com tudo para levantar voo de uma vez por todas.

Tem sido essa a crítica generalizada a “I Forget Where We Were”, o segundo álbum de Ben Howard. O cantor compositor tem 27 anos, nasceu em Londres e pagou do próprio bolso o primeiro disco, um EP chamado “Games in the Dark” (2008). Depois deste, mais dois no mesmo formato até chegar ao álbum de estreia, em 2011.

Foram editados ainda mais dois EPs até este segundo álbum (lançado em outubro), um disco negro mas que não se deixa embalar pela tristeza fácil. Sofisticado e complexo, é sofrido mas procura a fuga em direção à luz. Talvez seja isso que faz de “I Forget Where We Were” um álbum para expurgar sofrimento. Esquecer é uma forma de deitar coisas fora, e assim voltar a ganhar espaço. Um disco de outono, mas já a espreitar a primavera.

Ben Howard já ganhou dois Brit Awards e foi nomeado para o Mercury Prize, mas “I Forget Where We Were” talvez seja o disco certo no momento certo, o reconhecimento e o princípio de uma carreira do tamanho do seu talento. Prémios destes são sempre bons, mas contas feitas, é a música o que fica.

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