O realizador Miguel Gonçalves Mendes está esta segunda-feira a caminho de Cochim, Índia, para uma viagem de nove meses pelo mundo para rodar o documentário “O sentido da vida”, uma espécie de “cápsula temporal” sobre o ser humano e a atualidade.

No cais de Santa Apolónia, em Lisboa, horas antes de partir, no domingo, num navio rumo à Índia, Miguel Gonçalves Mendes gravou alguns planos com um dos protagonistas do documentário, Giovane Brisotto, brasileiro, de 28 anos e portador de paramiloidose familiar, conhecida como “doença dos pezinhos”.

Giovane Brisotto, Miguel Gonçalves Mendes e uma pequena equipa técnica embarcaram numa volta ao mundo, sem recursos a aviões, para filmar “o percurso que se supõe dos portugueses que disseminaram a doença [paramiloidose familiar] pelo globo há 500 anos”, explicou o realizador à agência Lusa.

O realizador está há pelo menos dois anos a preparar este documentário. Giovane é quem guia a narrativa pelo mundo e quem se cruza com personalidades que, no conjunto, o ajudarão a descobrir o sentido da vida.

Antes desta viagem, já foram feitas filmagens em vários países, com algumas das personalidades já confirmadas: o escritor Valter Hugo Mãe, o músico islandês Hilmar Orn Hilmarsson, a figurinista japonesa Emi Wada e o juíz espanhol Baltazar Garzón. Em setembro contará com a participação do astronauta dinamarquês Andreas Morgensen, de partida para a Estação Espacial Internacional.

Entre as personalidades convidadas, mas ainda por confirmar, estão a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e o papa Francisco.

No filme, Giovane Brissotto representa o cidadão comum, enquanto as personalidades representam os “novos heróis da contemporaneidade, mas tão humanos” como qualquer um.

Segundo Miguel Gonçalves Mendes, o motor base de “O sentido da vida” é o fator doença, como elemento determinante de mudança de alguém, que tem “uma espécie de desejo de vida, de urgência de viver, e de adquirir um saber de viver compacto”.

“Achámos que a paramiloidose familiar era a que nos permitia mais camadas narrativas e uma ligação a Portugal, ao Brasil e a um questionar, em termos de história da Humanidade e da globalização, de alguém que é uma espécie de espelho… O Giovane tem uma doença que não é do país dele, fomos nós que deixámos há 500 anos”, sublinhou Miguel Gonçalves Mendes.

Para Giovanne Brissotto, engenheiro cartógrafo de formação, esta é uma estreia absoluta no cinema. Conheceu Miguel Gonçalves Mendes no Brasil e “topou participar” no filme.

Apesar do ar frágil, tímido e discreto, Giovane Brissotto contou à agência Lusa que tem expetativas em relação à viagem: “É tudo novo para mim. Estou começando a me acostumar, todo o mundo olhando, as câmaras. Pelo lado bom, estou conhecendo outros lugares. Nunca tinha vindo a Portugal e nunca pensei que um dia iria para a Ásia”.

Em nove meses, a equipa de rodagem fará cerca de 56.000 quilómetros, com paragem, por exemplo, no Egipto, Índia, Nepal, Camboja, Vietname, China, Japão, Estados Unidos, Patagónia (Chile) e Pólo Sul.

Com um orçamento de cerca de 1,5 milhões de euros, “O sentido da vida” conta com coprodução da O2 Filmes, produtora do realizador brasileiro Fernando Meirelles.

Miguel Gonçalves Mendes avançou para este projeto – que só deverá chegar aos cinemas em 2017 – depois de ter feito o documentário “José & Pilar”.

Da filmografia fazem parte ainda filmes como “Autografia” (2004), “Floripes” (2007) e a série “Nada tenho de meu”.

Miguel Gonçalves Mendes tem ainda em carteira a adaptação para cinema de “O evangelho segundo Jesus Cristo”, de José Saramago.