Ainda não há data para as eleições legislativas de 2015, mas já se fazem contas. Primeiro, aos números das sondagens, depois aos números do calendário. A verdade é que o tema da coligação PSD/CDS, assim como o das presidenciais, saltou para a esfera mediática a mais de dez meses das eleições, e o PSD defende que o salto foi cedo de mais. O Observador mediu o pulso às bases do partido e, pelo menos ali, reina a tranquilidade. “Estamos numa fase muito embrionária”, defendeu o presidente da distrital do PSD do Porto.

Do Porto a Lisboa, passando por Aveiro, Viana do Castelo ou Vila Real, as distritais sociais-democratas são unânimes no que diz respeito ao timing dos ciclos eleitorais que aí vêm. Ora dizem que uma decisão sobre a eventual coligação pré-eleitoral entre PSD e CDS “ainda não está na agenda”, que “o assunto ainda não foi abordado internamente”, como sublinhou Ulisses Pereira, presidente da distrital de Aveiro, ora que o “importante agora é governar”.

Para já, uma coisa é certa: “É prematuro falar sobre o assunto”, resume o presidente da distrital de Vila Real, Domingos Dias.

“No tempo certo as direções nacionais [do PSD e CDS] irão pesar as vantagens e as desvantagens da coligação, por agora ainda estamos numa fase muito embrionária”, afirma ao Observador Virgílio Macedo, líder distrital do Porto, para quem “ganhar as legislativas” tem sempre de ser o foco da preocupação. Lisboa vai no mesmo sentido, com o presidente da distrital social-democrata, Miguel Pinto Luz, a acrescentar que, apesar de “não haver conversas sobre isso”, a sua convicção é de que Pedro Passos Coelho já tem uma “opinião” e que “depois do primeiro trimestre”, a matéria da coligação ficará mais clara.

Certo é que o calendário está a favor dos que não têm pressa. De acordo com a lei eleitoral, o Presidente da República tem de marcar a data das eleições legislativas com uma antecedência mínima de 60 dias e as candidaturas têm de ser apresentadas até 41 dias antes da data das eleições. Como é obrigatório pela Constituição que as eleições decorram algures entre 14 de setembro e 14 de outubro, Cavaco só teria de anunciar as eleições no final de julho, no mínimo, e as candidaturas só teriam de ser apresentadas em agosto.

Isto porque, imaginando que as eleições se realizam logo no primeiro domingo possível, a 20 de setembro, o Presidente da República terá de anunciar a data pelo menos no dia 27 de julho (60 dias antes). Bastando para isso que convoque a habitual audição com os partidos políticos dois ou três dias antes, para tratar da formalidade. Em 2009, pelo menos, foi assim. Na altura, a escolha do Presidente da República para as eleições recaiu sobre o dia 27 de setembro, tendo reunido com os partidos no dia 24 de junho.

De acordo com o artigo 23º da lei eleitoral, a apresentação das candidaturas pelos partidos tem de ser feita até 41 dias antes da data prevista para as eleições. Assim sendo, e pegando no mesmo exemplo do dia 20 de setembro, as candidaturas só teriam de ser apresentadas no máximo a 10 de agosto. As coligações pré-eleitorais, no entanto, têm de estar decididas antes dessa data, já que têm de ser primeiro comunicadas ao Tribunal Constitucional.

Isto, claro, se as eleições forem no primeiro dia possível, sendo que também poderão realizar-se a 27 de setembro, a 4 de outubro ou a 11. Quanto mais tarde for, mais tempo têm os partidos para decidir os moldes da sua candidatura.

Primeiro a coligação, só depois as presidenciais

Se o calendário eleitoral para as legislativas não aperta, o das presidenciais também não assusta as bases sociais-democratas. Também nisso todos os líderes distritais contactados pelo Observador concordam. “As presidenciais só vão ser pensadas depois das legislativas”, defendeu Miguel Pinto Luz, sublinhando que “tanto os portugueses como o próprio partido estão mais preocupados em quem os vai governar”, e por isso afastam qualquer especulação.

O presidente da distrital de Lisboa não quer “falar em nomes”, mas garante que qualquer nome que tem sido falado – Pedro Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa ou Rui Rio – “tem qualidades para chegar a Presidente da República”. Mas uma discussão sobre os eventuais candidatos presidenciais, que têm primeiro de manifestar vontade clara de avançar, é sempre afastada da agenda partidária.

“O partido não deve tomar as dores dos putativos candidatos presidenciais”, diz Virgílio Macedo ao Observador.

Quem já arriscou falar em nomes foi um grupo de autarcas do interior (presidentes das câmaras de Oleiros, Pedrógão Grande, Pampilhosa da Serra, Sertã e Vila de Rei) que na semana passada escreveu um comunicado de apoio a uma candidatura de Santana Lopes. O atual presidente da Santa Casa da Misericórdia tem mostrado pressa em avançar, com ou sem o apoio do partido, e tem apontado abril como a altura certa para formalizar a decisão.

Mas ainda há Marcelo, que não confirma nem desmente a vontade de avançar, adiando a decisão para o outono, ou seja, para depois das legislativas. Na direção do PSD, no entanto, há mesmo quem veja no avanço de Santana apenas uma estratégia do ex-primeiro-ministro de espicaçar o professor e obrigá-lo a tomar uma decisão mais cedo do que quereria. E Rui Rio continua no hipotético boletim de voto. Este fim de semana chegou a primeira prova sólida de que o ex-presidente da câmara do Porto continua na corrida, com o Diário de Notícias a citar fontes próximas ao ex-autarca para dizer que está disponível desde que seja apoiado pelo partido e desde que não tenha outros nomes à direita a empatar.

A verdade é que pode mesmo ser o preferido de Passos. A lógica, defendida por fonte próxima do primeiro-ministro, é que se avançar para as presidenciais, pelo menos, não disputará a liderança do partido em caso de derrota nas legislativas.