“Se quiserem ver o impacto da crise na Grécia, têm de ir a Perama”, disse-nos uma dirigente do Syriza.

E nós fomos.

Perama, uma povoação portuária da região de Piréu, nos subúrbios de Atenas, é uma das regiões mais pobres do país. Os estaleiros navais e as empresas de transporte marítimo faliram durante a crise. Dos 25 mil habitantes da cidade, 10 mil trabalhavam neste setor. Hoje, apenas 2 mil mantêm o emprego. 20% das casas não têm água ou luz e, entre os jovens, a desocupação é endémica.

“Perama está a sofrer uma crise humanitária sem paralelo em todo o país”, diz Yiannis Lagoudakis, o presidente da autarquia, eleito pela lista do Syriza. “Muitos dos habitantes recebem ajuda alimentar e não têm seguros de saúde”. As paredes do gabinete estão decoradas com quadros que mostram um porto cheio de atividade. Pela janela, vislumbram-se contentores de todas as cores e armazéns em ruínas. As gruas estão paradas e não há vivalma. Os quadros mexem-se mais que a realidade.

“O resultado político desta catástrofe foi a ascensão do fascismo. O Aurora Dourada teve, nas últimas eleições, 14% dos votos desta região”, diz o autarca. Muitos dos sindicatos, tradicionalmente controlados pelo KKE, o Partido Comunista grego, passaram para as mãos da extrema-direita.

Lagoudakis tenta travar o fenómeno com medidas sociais. “Criámos bancos alimentares e, aos poucos, estamos a devolver às pessoas os serviços básicos de energia e água. Também prestamos serviços médicos ambulatórios”. Cerca de 50% dos moradores de Perama vivem com menos de 200 euros por mês.

Pedimos a Lagoudakis para nos levar até uma dessas famílias.

Ao invés, dirige-se a um armário, sobre o qual tem uma bandeira da Venezuela, e leva-nos a uma garrafa de conhaque e outra de rum: “Este é o que o Fidel Castro bebe”, diz, enquanto nos oferece um copo. Acende um cigarro. “Primeiro, antes de começarem o trabalho, vamos ali a um restaurante beber um ouzo (uma espécie de aguardente grega)”, prossegue. “Estes são dias de grande frenesim. Vamos ganhar as eleições e, em novembro, o Podemos vai ganhar em Espanha. Depois, Itália e Portugal vão seguir o nosso caminho. Vamos revolucionar a política do sul da Europa”.

Depois de dois copos bem aviados, Lagoudakis pega no carro para nos levar ao restaurante. Não usa cinto de segurança. Poucos gregos o fazem. Muitos também andam de mota sem capacete. As leis na Grécia são um pouco mais “flexíveis” que na maioria dos países europeus.

À mesa, não chegam apenas garrafas de ouzo: chegam também pratinhos com saladas de polvo, peixe fumado e arroz de marisco. “Na Grécia, podemos não ter dinheiro, mas para comer, beber e fumar, há sempre”, diz Lagoudakis, sempre hospitaleiro, enquanto fuma um charuto. Chegam também várias pessoas, não as famílias que procurávamos, mas elementos da família do político: bebem um copo e vão à sua vida. As horas passam. Começa a escurecer.

O irmão mais velho de Yiannis não vota Syriza, vota KKE. Diz que o Syriza não é a esquerda verdadeira. O autarca responde que assim que Tsipras se tornar primeiro-ministro, os comunistas vão aceitar coligar-se para governar. “Nem pensar”, responde o outro.

Chega ainda Nikos, 68 anos, barba grisalha de marujo, toda a vida trabalhador nos estaleiros, agora desempregado. Os avós foram apoiantes dos nazis durante a II Guerra Mundial. Ele não vota Aurora Dourada, mas Gregos Independentes, o partido nacionalista-cristão que as sondagens indicam poder chegar aos 3% (o mínimo para ter representação parlamentar). “Talvez possamos ser nós a coligarmo-nos com o Syriza no governo”, diz. Yiannis prefere o KKE.

O repasto dionisíaco acaba abruptamente. Yiannis tem três reuniões: o último ouzo, saúde para todos. Os jornalistas ficam órfãos das famílias que procuravam. Decidimos procurar o Aurora Dourada. Lagoudakis dissera-nos que é para lá que se dirigem os gregos desesperados, sem respostas.

Temos um número de telemóvel sem nome atribuído. À primeira, dizem-nos que não falam inglês. Arranjamos um transeunte para traduzir: respondem que não falam com quem não conhecem. É de noite e chove. Entramos no autocarro para regressar a Atenas. Última tentativa: pedimos a um dos passageiros para ligar novamente. Dão-nos uma morada. Saímos do autocarro.

Numa rua pouco iluminada, sobressai uma grande bandeira da Grécia e um símbolo que parece uma cruz suástica em posição de repouso. Mais tarde, viríamos a saber que não tem nada a ver com a suástica: é o símbolo do Aurora Dourada, um ícone da Grécia Antiga que representa a fusão entre ação e estratégia. Qualquer semelhança com o imaginário hitleriano é pura coincidência.

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“Desculpem não respondermos à primeira mas pensámos que podia ser uma sabotagem de um dos nossos inimigos: a polícia ou um comunista”, diz Panagiotis Pipinis, 40 anos, apoiante do partido. Pipinis é um grego nascido na Austrália, filho de imigrantes, mas detesta os imigrantes que vivem na Grécia: “Todos os que estão ilegais devem regressar aos seus países”, argumenta.

Segundo ele, a tragédia humanitária em Perama deveu-se à migração das empresas navais, que passaram a operar com bandeiras turcas. O Aurora Dourada quer agora devolver-lhes as bandeiras nacionais, algo que têm em abundância por toda a sede, acompanhadas por cruzes célticas, fotografias de elementos presos e assassinados e de manifestações. Na sala principal, cerca de uma dezena de homens e mulheres, todos vestidos de preto, debatem as eleições: “Estamos convencidos de que vamos ser a terceira força política mais votada, com cerca de 10%. Aqui, em Perama, contamos chegar aos 15 pontos”, diz Pipinis.

Entramos com o grego-australiano numa salinha do primeiro andar, a que se chega depois de subir uma escada em caracol. Lá dentro, Periklis Moulianakis, de 41 anos, segurança e candidato ao Parlamento no círculo de Perama. Desde que o líder local do movimento foi detido, em 2013, Periklis assumiu a organização política, intermediando as decisões tomadas a partir da cadeia e as ações dos militantes. Atrás da secretária, está uma cadeia vazia: “Ninguém se senta ali desde que o nosso líder foi preso”, diz Periklis. No tampo da mesa, um calendário aberto no dia 28 de Setembro de 2013: “É a data da detenção do nosso estimado presidente Nikolaos Michaloliakos e de outros cinco líderes do partido. Para que não nos esqueçamos que somos vítimas da maior perseguição política na história da União Europeia”.

https://www.youtube.com/watch?v=rzS7jcQXRs4&feature=youtu.be

O segurança aponta para uma fotografia pendurada na parede: “Aqueles dois irmãos foram assassinados pelos comunistas. Sabem o nome deles? Não? Mas conhecem o de Pavlos Fyssas [activista de esquerda assassinado por um elemento do Aurora Dourada], correto?”, questiona Periklis. “Esse é que é o problema. Estes irmãos são Giorgos Fountoulis e Manos Kapeloni, membros-fundadores do partido. O assassino de Fyssas está preso mas o destes nunca foi apanhado porque o Governo protege a esquerda”.

Peripis e Periklis conspiram que o Syriza e o Nova Democracia têm um acordo tácito e que se vão coligar depois das eleições, hipótese que nenhuma outra força política grega sequer equaciona. “E quando ambos falharem, os gregos vão perceber que somos a única solução para o país”, argumenta Pepinis.

Uma solução que passa pelo antissemitismo e “pelo fim da islamização da Europa”. “O que aconteceu em Paris não foi, para nós, novidade. Contávamos que acontecesse mais cedo”, afirma Pepinis, que antes de ter sido atirado para o desemprego, trabalhava na caixa do Makro. O Aurora Dourada está a ser investigado pela autoria de mais de 60 crimes, entre 2008 e 2014. Para além do assassinato de Fyssas, respondem pela tentativa de homicídio a pescadores egípcios, ataques a mesquitas e sinagogas e o brutal espancamento de militantes comunistas durante uma campanha do KKE em Perama.

“Fazemos o que temos de fazer para sobreviver”, diz Periklis.

Num anexo, há uma espécie de altar, apenas com o símbolo dourado do partido e um livro. É de lá que Pipinis chega com dois cd’s – um com imagens de uma gigantesca parada num antigo templo grego em que vários partidários surgem na capa a fazer a saudação romana -, e o programa eleitoral: além da expulsão dos imigrantes, propõe a implementação de fundos sociais, uma Grécia dentro da União Europeia e do euro (“mas com condições mais favoráveis”) e a libertação de todos os prisioneiros do Aurora Dourada.

“Isto é o que vamos fazer quando chegarmos ao poder, talvez já este ano”, argumenta Pipinis.

Saímos de Perama sem ver o impacto da crise. Apenas os que dele tiraram proveito político.