Eleições na Grécia

Como a nossa esquerda radical vê o Governo Syriza

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Entre os atuais e os ex-bloquistas ouvidos pelo Observador a posição é unânime: a coligação Syriza/Anel não é a ideal, é a possível. Mesmo assim, há algum embaraço com opção dos amigos gregos.

Marisa Matias (à direita) acredita que a coligação Syriza/Anel era a única "possível" face ao contexto grego

NUNO VEIGA/LUSA

No rescaldo da vitória expressiva nas eleições gregas, o grupo de esquerda radical Syriza anunciou que ia formar Governo com os conservadores dos Gregos Independentes (Anel). Por cá, a decisão dos gregos criou embaraço entre alguns bloquistas e ex-bloquistas – a própria direção do Bloco ainda não se pronunciou sobre a questão. Apesar disso, numa coisa concordam: foi a solução possível, mas não a desejável.

Marisa Matias, eurodeputada bloquista, explicou ao Observador que “não tendo tido a maioria absoluta”, a decisão de Alexis Tsipras em coligar-se com o Anel foi “a solução possível”. Aliás, “outro cenário seriam as eleições antecipadas”, algo que a Grécia não poderia enfrentar neste momento.

Uma decisão que, aliás, estava em cima da mesa à partida: não conseguindo a maioria absoluta, o Syriza já tinha anunciado que recusava coligar-se com partidos que acordaram a intervenção da troika, o que reduzia consideravelmente o leque partidário, lembrou a bloquista. Além disso, “os Gregos Independentes foram os únicos que mostraram disponibilidade efetiva para formar Governo”.

Apesar das diferenças entre as linhas ideológicas do Syriza e dos Gregos Independentes – em matérias de defesa dos direitos das minorias e dos imigrantes, por exemplo – Marisa Matias destacou dois pontos que colocam essas diferenças num plano secundário: primeiro, o Anel tem uma posição em relação à política económica e financeira “muito próxima do Syriza”, ou seja, “romper com o memorando da troika e renegociar a dívida pública”. Em tudo o resto, apesar dos eventuais atritos entre parceiros da coligação, o Syriza já avisou que não vai ceder em questões essenciais, o que deverá reduzir as negociações a temas não fraturantes, explicou.

Em segundo lugar, esta coligação tem um papel estratégico fundamental “para dar força à Grécia nas negociações com a União Europeia (UE)” – se o partido liderado por Tsipras se tivesse coligado com qualquer outro parceiro que não defendesse a reestruturação da dívida, o “Syriza ia já de gatas” para Bruxelas, sem força para negociar com a UE, defende a eurodeputada.

Posição semelhante tem José Manuel Pureza, também ele militante bloquista. Ouvido pelo Observador, o antigo líder do grupo parlamentar do BE começou por dizer que “esta opção se justifica pela necessidade de pôr termo à política de austeridade”. Tal, acredita, só será possível com uma posição forte do Governo grego, formado por dois partidos que defendem como único caminho “a renegociação da dívida pública” e um “posicionamento de distância em relação às políticas definidas pela troika”.

Desafiado a imaginar um cenário semelhante em Portugal – neste caso, uma coligação que envolvesse um partido de extrema-esquerda e um partido conservador de direita – José Manuel Pureza foi claro: “[Ao contrário do que acontece na Grécia], a direita partidária portuguesa está totalmente alinhada com a troika e as orientações de Bruxelas”, logo, seria impossível uma coligação feita nos termos que edificam o Governo Syriza/Anel – acordos na dimensão económico-financeira, desacordo em (quase) tudo o resto.

Mariana Aiveca, deputada do Bloco de Esquerda desde 2005, preferiu mesmo não se pronunciar sobre a coligação entre o Syriza e o Anel. “O povo grego votou democraticamente no Syriza (…) e reconheceu-lhe competência para governar e formar governo”, respondeu ao Observador.

Confrontada pelas diferenças conhecidas entre as orientações ideológicas dos dois partidos, a bloquista optou por sublinhar “a viragem importante que a vitória do Syriza representa para a Grécia e para a Europa”, em vez de se deter “nesses pormenores” e “fazer pronunciamentos sobre questões internas do Syriza”. “É a primeira vez que um Governo, cujo eixo central é a renegociação da dívida, é eleito na União Europeia”, o que trará consequências para a política económica e financeira da União Europeia, acredita Mariana Aiveca.

Os recados aos dissidentes do Bloco de Esquerda

Apesar de não ter havido, até ao momento, uma posição oficial do partido sobre a coligação do Syriza com o Anel, no blogue Esquerda.net – plataforma oficial do BE – vão-se multiplicando artigos de opinião sobre a vitória de Tsipras e o casamento com Panos Kammenos. No artigo “O Syriza está a falar a sério”, José Gusmão corrobora a visão de Marisa Matias e José António Pureza, sublinhado que, sem o Anel como parceiro – o único que se mostrou disponível para governar e para negociar a reestruturação da dívida – a Grécia “cairia na primeira chantagem, na primeira retaliação” dos parceiros europeus e falharia como todos os outros governos anteriores.

Já Luís Fazenda, por sua vez, aproveitou para tecer duras críticas à posição assumida por Rui Tavares, um dos fundadores do Partido Livre e principal rosto entre os dissidentes de Bloco de Esquerda. Fazenda lembrou o resultado do “famigerado partido Dimar” (0,49%) – grupo dissidente do partido liderado por Tsipras – apoiado “entusiasticamente” por Rui Tavares.

Assim termina a triste aventura dos dissidentes do Synaspismos (principal componente do Syriza) que pretendiam entender-se com o Pasok (da Internacional Socialista) para formar um governo de centro-esquerda e acabar com os pressupostos “tabus” de governação de Tsipras e outros, que então encabeçaram o Synaspismos”.

Mas as críticas de Fazenda não se ficam por aqui: “O engraçado desta inquietação é termos visto Rui Tavares e companhia alargada a querer “embandeirar em arco da governação” com a vitória do Syriza, quando nem sequer defendem para sua aplicação nenhum dos pontos fundamentais do seu programa”, escreveu.

E o que pensa Rui Tavares sobre a coligação entre Syriza e Gregos Independentes? “Não é de todo o parceiro de coligação que escolheria”, assumiu ao Observador.

As coligações devem ser coerentes (…) Os partidos progressistas devem procurar o apoio entre outros parceiros progressistas (…) Esta posição não me parece correta, quando estão em jogo duas posições tão antagónicas em relação a quase tudo, menos à renegociação da dívida. [Por isso], limitar um acordo de coligação a esta área é um grande erro”, insistiu.

Além disso, para Rui Tavares, que em 2011 rompeu com o Bloco de Esquerda em conflito com Francisco Louçã, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, “não me parece que o Anel vá facilitar na hora de negociações bilaterais com a União Europeia”.

Nesse sentido, um dos principais promotores da candidatura cidadã Tempo de Avançar, a par de Ana Drago e Daniel Oliveira, acredita que o Executivo liderado por Tsipras deve “procurar auscultar as diferenças forças políticas, como o KKE (partido comunista grego) e como o To Potami (centro-esquerda), sobretudo em matérias de políticas sociais, de imigração e defesa de minorias. “A procura de apoios e acordos políticos não se deve esgotar na coligação”, alertou Rui Tavares.

Apesar de, tal como Rui Tavares, ter abandonado as fileiras do Bloco e de integrar o Tempo de Avançar, Daniel Oliveira tem uma posição mais próxima dos ex-camaradas bloquistas: a escolha do Anel “é difícil de engolir”, mas é a única opção válida para “vencer esta batalha” entre gregos e os países que se opõem à ideia da renegociação da dívida, com a Alemanha de Merkel à cabeça.

A presença dos Gregos Independentes, por mais incómoda que seja, põe no Syriza e não no seu aliado o ponto de equilíbrio entre a renegociação da dívida e a vontade não sair do euro (…) As instituições europeias e a Alemanha não poderão usar o Anel para criar fraturas internas no Governo [ao contrário do que poderia acontecer com o To Potami]. Terá sido isto, parece-me, a pesar na escolha do aliado do Governo. Porque neste momento AlexisTsipras tem uma prioridade: não perder o braço de ferro com Merkel”, escreveu Daniel Oliveira num artigo de opinião publicado no Expresso, intitulado “O Anel que convém a Tsipras”.

Se é o ideal? Daniel Oliveira parece dar entender que não. Mas é a solução mais “pragmática”, ainda que custe a engolir. “Já se tinha dito que as escolhas a fazer para vencer a batalha seriam difíceis. Foi só a primeira”, comentou.

Joana Amaral Dias, que desbravou caminho entre dissidentes do Bloco de Esquerda, tem uma leitura semelhante à de Daniel Oliveira, em relação à coligação entre Tsipras e Panos Kammenos. “Foi uma atitude inteligente [a de Tsipras], prudente e que comporta uma gestão fina dos riscos (…) No fundo, o Syriza matou dois coelhos de uma cajadada só”, afirmou ao Observador.

E que coelhos são esses? Primeiro, com o consenso interno acautela “um eventual falhanço nas negociações com a União Europeia”. E, em segundo lugar, porque “vai acantonar a escalada da Aurora Dourada (extrema-direita), esses sim, um perigo para a construção da democracia grega”.

Ainda assim, a pergunta impõe-se: era este o parceiro ideal da coligação de extrema-esquerda? Não, assumiu. “Se me pergunta se o meu coração palpita com esta coligação, posso dizer-lhe que não. Mas, racionalmente, foi uma decisão com vários ganhos”.

 

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