O caso remonta a 8 de janeiro, precisamente o dia seguinte ao atentado à sede do jornal francês Charlie Hebdo, mas só agora chegou a público depois de, esta quarta-feira, o menino ter sido ouvido numa delegação da polícia de Nice, na presença dos pais e de um advogado. Ahmed, de oito anos, foi interrogado durante duas horas por alegada “apologia ao terrorismo”.

Em causa estão umas declarações feitas pela criança na sala de aula de uma escola primária de Nice. De acordo com o Libération, que divulgou a história, o professor falava sobre o ataque à sede do jornal satírico do dia anterior, que matou 17 pessoas, e perguntava aos alunos se também eles “eram Charlie” (como o slogan que se propagou #JeSuisCharlie). Todos responderam que sim, à exceção de Ahmed, que disse que não. E justificou: “Porque eles caricaturaram o profeta. Eu estou com os terroristas”.

Perante a resposta, o professor alertou o diretor da escola, que por sua vez decidiu chamar o menino e os pais à escola. Mas não se ficou por aí e dias mais tarde, a 21 de janeiro, denunciou o caso numa esquadra da polícia local por “apologia ao terrorismo”, de acordo com o advogado da criança, Sefen Guez, que criticou duramente a atitude do professor e do diretor da escola. “Interrogar um menino de oito anos reflete o estado de histeria coletiva que atualmente há em torno da noção de apologia ao terrorismo”, disse, acrescentando que neste caso era apenas “necessário um pouco de pedagogia”.

No Twitter, o advogado, que esteve presente durante as duas horas de audição, deu conta de alguns detalhes da conversa entre o polícia e a criança. Segundo Sefen Guez, perguntaram-lhe o que significava para ele a palavra terrorismo e Ahmed não soube o que responder. “É absurdo que se tenham levado a sério as palavras de um menino que não entende sequer aquilo que disse”, escreveu o advogado.

Segundo o Le Monde, o Coletivo contra a Islamofobia em França apressou-se a denunciar a situação quando teve conhecimento pelos jornais, na quarta-feira, criticando igualmente a “histeria coletiva” em que o país mergulhou desde o início do ano, quando a Europa ficou em sobressalto depois do ataque ao Charlie Hebdo.