A Fórmula 1 arranca no domingo, em Melbourne, na Austrália, onde os monolugares que embalam a mais de 300 quilómetros por hora vão começar a dar voltas às pistas, em busca de pontos e vitórias. Tudo começará no circuito de Albert Park, onde se verá os primeiros resultados de meses e meses de trabalho nos carros, afinações no motor e treinos com os pilotos. As contas nunca variam: cada escuderia tem dois monolugares e o mesmo número de pilotos para os conduzir. Menos a Sauber, equipa que, a partir desta quinta-feira e a mando da justiça, tem três.

É hábito que haja sempre um piloto de testes, ou de reserva, que serve de antídoto para qualquer problema que, durante a época, possa surgir — como um acidente lesionar um dos pilotos principais. Mas a Sauber, a três dias do primeiro Grande Prémio da temporada de Fórmula 1, terá obrigatoriamente de correr com Giedo van der Garde no interior de um dos Ferrari C34 que tem prontos. O motivo precisa de algumas linhas para ser explicado, sendo esta a primeira: o Supremo Tribunal de Victoria, na Austrália, rejeitou esta quinta-feira o recurso apresentado pela escuderia contra o que três juízes decidiram no dia anterior.

Essa decisão deu razão ao piloto holandês, de 29 anos, que meses antes alegara que a Sauber lhe prometera, contratualmente, um lugar na equipa em 2015, depois de, na temporada anterior, realizar sete sessões com a escuderia, como um dos tais pilotos de teste. Tudo começou na Suíça — país onde a equipa está sediada –, quando o Tribunal Arbitral helvético, na passada semana, considerou que a Sauber não o poderia excluir da equipa.

O caso arrastou-se até à justiça australiana, que continuou a dar razão a Gido van der Garde e, portanto, obriga a Sauber a integrá-lo no Grande Prémio que decorrerá em Melbourne, no domingo. Como tal, a escuderia enfrenta agora alguns problemas. O primeiro está no facto de ter o sueco Marcus Ericsson e o brasileiro Felipe Nasr como pilotos, com quem realizou todos os preparativos de pré-época. “Estamos desiludidos com esta decisão e agora precisamos de tempo para compreender o que significa e o impacto que terá no arranque da época”, admitiu Monisha Kaltenborn, advogada e chefe da equipa.

Mas tempo é coisa que a Sauber não tem — os treinos para a corrida australiana começam já na sexta-feira, às 12h30 (1h30 em Portugal Continental). Logo, não será possível alterar um monolugar cujo chassi e assento, por exemplo, que foram construídos para as alturas e os corpos de Ericsson e Nasr, não para os de Van der Garde. “O que não podemos fazer é colocar a segurança da equipa, ou de qualquer outro piloto na pista, em perigo, ao termos um piloto, que não está preparado, dentro de um carro que foi desenhado para outros pilotos”, defendeu, baseando-se num argumento que, sem sucesso, foi utilizado pelos advogados da equipa em tribunal, conta o The Guardian.

Giedo Van der Garde nunca conduziu um Ferrari C34. Na época passada a Sauber utilizava o anterior modelo, o C33, e o holandês já não agarra no volante de um monolugar da Fórmula 1, em competição, desde 2013, quando participou no circuito mundial ao serviço da Caterham. “O Sr. Van de Garde não tem experiência de condução neste Ferrari e não terá tempo suficiente para aprender [a fazê-lo]”, alegou Rodney Garratt, um dos advogados da escuderia suíça.

Jenson Button, campeão mundial de Fórmula 1 em 2009, e hoje piloto da McLaren, ao comentar o caso à BBC, considerou “uma vergonha” o facto de a Sauber “ir nesta direção” contra Van der Garde. “A segurança sempre foi uma preocupação no desporto motorizado e não a devíamos falar nela de forma leve. Acho que ele conduzir, ou não, o carro, não é a questão”, defendeu o britânico, de 35 anos. Já Felipe Massa, brasileiro de 33 anos que corre pela Williams, indicou que “os pilotos não deviam ser tratados desta maneira” e “os contratos devem ser respeitados, seja o de um engenheiro ou de um piloto”.

Mas o holandês, além de garantir que “ainda” tem “uma relação muito boa com a equipa”, assegurou que está “na melhor forma física de sempre”, pois treinou “diariamente nos últimos três meses”. Quanto à inevitabilidade de Ericsson ou Nasr, um deles, ter de largar um monolugar para Van der Garde conduzir, o piloto disse: “Cabe a eles decidirem o que vamos fazer, e à equipa. Não é um problema meu. Estou feliz por termos vencido o caso. Agora quero voltar à ação.”

Agora é esperar para ver o que Giedo Van der Garde e a Sauber decidirão fazer. Haverá sempre a hipótese de a equipa e o piloto chegarem a um acordo, para que a escuderia não perca os milhões de euros que os patrocinadores de Marcus Ericsson e Felipe Nasr trazem à Sauber. Algo que implicaria sempre o pagamento de uma indemnização ao holandês — mas dinheiro é coisa que a escuderia suíça não tem em abundância.

Outro fator é a Super Licença que qualquer piloto de Fórmula 1 deve possuir para poder competir na modalidade. E o processo de obtenção da licença requer que o piloto submeta documentos, primeiro, na entidade que gere o desporto automóvel na Holanda para, só depois, enviar essa papelada à Federação Internacional Automóvel (FIA), organismo ao qual compete emitir a autorização final.