O neto de Manoel de Oliveira e ator Ricardo Trepa lamentou a morte do avô, mas considera que o cineasta teve “uma grande vida e pode fazer todos os filmes que quis”. Relembra Oliveira como “um grande avô e um grande realizador”, algo que Manoel “foi, é e vai ser sempre”, mesmo depois da sua morte.

“Morreu hoje o maior cineasta português de todos os tempos (a par de João César Monteiro).” É a primeira frase do texto que Miguel Gomes enviou ao Observador sobre a morte de Manoel de Oliveira. O realizador de “Tabu” ou “Aquele Querido Mês de Agosto” diz que Oliveira, nos seus filmes, “sempre foi fiel a pulsões e obsessões. Foi acrónica e gloriosamente romântico, pudicamente perverso, alternou candura e ironia até ficarmos sem conseguir distinguir uma e outra.”

Miguel Gomes recebeu a notícia em França, onde está a terminar a montagem do filme “As Mil e Uma Noites”. Desde Paris, o realizador finalizou a mensagem a salientar a importância de Manoel de Oliveira para a sua carreira, e para a de outros realizadores portugueses, chamando-lhe “Mestre”.

Morreu hoje o maior cineasta português de todos os tempos (a par com João César Monteiro). A sua longevidade fascinava­-nos a todos mas não nos deve impedir de reconhecer neste momento a verdadeira singularidade, aquela que poderemos reencontrar nos seus filmes. Aí foi sempre fiel a pulsões e obsessões. Foi acrónica e gloriosamente romântico, pudicamente perverso, alternou candura e ironia ate ficarmos sem conseguir distinguir uma e outra. Filmou radicalmente a materialidade das coisas – dos cenários de papelão do teatro à integralidade do texto num romance – para que o cinema se pudesse aproximar de uma verdade: a da evidência.

Se eu e os meus colegas hoje em dia temos oportunidade de filmar devemo-lo em grande medida ao génio e à tenacidade do Mestre Manoel de Oliveira.

Miguel Gomes

Paris, 2 de Abril de 2015

“O cinema era a razão da longevidade dele”, recordou ao Observador Luís Urbano, da produtora O Som e a Fúria, responsável pelos dois últimos filmes do cineasta – “O Gebo e a Sombra”, 2012, e a curta-metragem “O Velho do Restelo”, 2014. “O Manoel tinha uma imaginação diabólica e um sentido de humor permanente. Acima de tudo, tinha a inquietação de alguém que sistematicamente se move para encontrar respostas para as suas dúvidas.”

O produtor recordou que o cineasta deixou vários filmes escritos e planeados, facto resultante dessa mesma “inquietação”. “Enquanto estava à espera de financiamento para um filme, ele escrevia muitas coisas. Era constante nele: se não estivesse a filmar ou a montar um filme, então estava a escrever outro. Para ele, a melhor razão para sobreviver era fazer cinema.”

Luís Urbano disse ainda que o legado do realizador natural do Porto “é o espírito de liberdade de criação, uma recusa total de aceitar que sejam impostos limites à liberdade criativa”. “Quando se diz que o cinema português tem a marca de ser muito livre, devemos isso ao Manoel”, finalizou o produtor, que soube da notícia num telefonema feito por um dos filhos do realizador.

Alberto Seixas Santos, cineasta, um dos aderentes ao movimento do Novo Cinema português, falou ao Observador no “maior cineasta português, sem dúvida.” Para Seixas Santos Manoel de Oliveira tem de ser considerado uma das grandes figuras do Norte, região que retratou “como ninguém”. “O Manoel era um cineasta do Norte do país, aquilo que tem a ver com o Norte todo está consignado na sua obra.”

“Gostava muito dele. Conhecemo-nos no Cineclube do Porto, nos anos 50. Era um artista com um talento inacreditável. Não há muito por onde olhar para descobrir alguém com o imenso talento, era um grande cineasta. Deixa um grande vazio.”

Alberto Seixas Santos, cineasta

Um dos primeiros filmes produzido pelo produtor de cinema Paulo Branco era do cineasta Manoel de Oliveira. O produtor, em declarações à SIC, revelou que não podia esperar, na altura, que Manoel de Oliveira com 75 anos ainda tivesse tanto para mostrar. “Foi o começo de uma aventura extraordinária que durou 25 anos.” Uma aventura e uma figura que o surpreendeu todos os dias durante os anos em que trabalharam juntos. Paulo Branco admitiu que aprendeu tudo o que sabe com o “grande vulto da cinematografia mundial”. “Aprendi tudo com ele, como viver o dia-a-dia dedicado à sua paixão.”

Morre Manoel de Oliveira, mas não morre a vasta obra que deixa. “Neste momento muito triste importa dizer que esse legado vai obviamente perdurar”, lembrou João Lopes, crítico de cinema. “São muitas décadas de trabalho em cinema que não podem ser condensadas numa ideia, numa tendência, num estilo.”

O crítico, em declarações recolhidas pela TVI, recordou que o cineasta passou por “tempos heroicos” quando o cinema ainda era mudo, mas que “esteve sempre na linha da frente da modernidade”. Assumiu que mesmo tendo criado uma “obra com altos e baixos e ziguezagues”, Manoel de Oliveira “foi um artista capaz”, que “nunca deixou de ter público”. Apesar dos géneros muito diferentes por que passou – “desde a tragédia mais pura até à comédia mais desconcertante” -, o público sempre se mostrou disponível para aceitar as suas propostas, considera João Lopes.

Manoel de Oliveira já se encontrava doente quando concedeu uma entrevista a Pedro Mexia, crítico de cinema, no final de 2013. “Não foi diferente daquilo que eu conhecia”, referiu Pedro Mexia, também à TVI, que viu o cineasta fragilizado em termos de saúde, mas com uma enorme vitalidade em relação ao cinema.

Apesar do pouco contacto que Pedro Mexia teve com Manoel de Oliveira diz que “no contacto pessoal se passava o mesmo que nos filmes” – era alguém que sabia o que queria fazer e fazia aquilo que queria. E fazia-o de uma forma muito sua, alguns dos filmes eram tão pessoais que “nos deixavam desconcertados”, mas eram sempre carregados de uma “extrema lucidez”.

Margarida Gil, presidente da Associação Portuguesa de Realizadores, em declarações à Agência Lusa, disse que o desaparecimento do cineasta não é uma surpresa, mas é difícil de acreditar: “como se fosse uma hipótese de eternidade que desaparecesse”. Porque, segundo ela, “o seu cinema fá-lo-á eterno”.

Manoel de Oliveira é, para Margarida Gil, uma das grandes figuras do pensamento português. “Uma pessoa que carregou toda a memória do século XIX e XX e que refletiu sempre, através do seu cinema, sobre a humanidade e Portugal”. E acrescenta: “pouca gente refletiu tanto sobre a condição humana como Manoel de Oliveira”.

A atriz Maria Rueff publicou na conta de Twitter um vídeo do Herman Sic em que “Nelo” e “Dália” falam de Manoel de Oliveira.