Óbito

Morreu Silva Lopes, antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal

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O antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal tinha 82 anos e estava internado desde o final de fevereiro no hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Diana Quintela / Global Imagens

Morreu ao final desta tarde de quinta-feira José Silva Lopes, antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal. Tinha 82 anos e estava internado no hospital de Santa Maria, em Lisboa, desde o final de fevereiro.

José da Silva Lopes nasceu em Ourém a 10 de Maio de 1932. Licenciou-se em economia e finanças no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), atual Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), e começou a carreira profissional no Ministério da Economia, em 1955, onde tratou dos dossiês da adesão de Portugal à EFTA e ao GATT. Em 1969, ingressou na administração da Caixa Geral de Depósitos, enquanto dirigia o gabinete de estudos e planeamento do Ministério das Finanças, responsabilidades que assumiu até 1974. Nessa qualidade, foi chefe adjunto das negociações de Portugal para a celebração de um Acordo de Comércio Livre com a Comunidade Económica Europeia, em 1972.

A partir de 1975, preencheu o cargo de governador do Banco de Portugal que manteve até 1980, numa época em que Portugal, depois dos anos quentes que se seguiram à Revolução de 1974 e após ter celebrado o primeiro acordo de assistência com o Fundo Monetário Internacional, em 1977, procurava estabilizar a economia e a situação financeira. Integrou os quatro primeiros governos provisórios que se seguiram ao 25 de abril, ocupando, sucessivamente, os cargos de secretário de Estado das Finanças, durante o primeiro Governo provisório, de ministro das Finanças, nos segundo e terceiro Executivos pós-revolução, e de ministro do Comércio Externo no quarto Governo provisório.

Mais tarde, em 1978, regressou ao Governo como ministro das Finanças e do Plano, enquanto membro do terceiro Governo Constitucional, liderado por Alfredo Nobre da Costa, que durou escassos três meses e que foi o primeiro que resultou da iniciativa do então Presidente da República, António Ramalho Eanes.

Foi consultor do FMI e do Banco Mundial a partir de 1980 e representante de Portugal junto do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, de 1991 a 1993. Pelo meio, foi deputado na Assembleia da República durante três anos, eleito nas listas do Partido Renovador Democrático nas legislativas de 1985, ganhas pelo PSD liderado por Cavaco Silva. De 1996 a 2003, presidiu ao Conselho Económico e Social (CES). Antes, de 1993 a 1995, foi presidente da Comissão de Desenvolvimento da Reforma Fiscal (1993-1995).

O percurso do economista também passou pela banca privada. De 1965 a 1969 esteve no Banco Lisboa e Açores e liderou o conselho de administração do Montepio Geral de 2004 a 2008. Em 2003, Jorge Sampaio, então Presidente da República, distinguiu Silva Lopes com a Grã Cruz da Ordem de Cristo, devido à atividade de 48 anos como economista e pelos cargos que ocupou no serviço público. Também recebeu condecorações em Espanha, França e Brasil.

Respeitado pela independência e pela forma desassombrada como emitia as suas opiniões sobre o estado da economia e da sociedade portuguesas, José da Silva Lopes não receava a polémica que podia suscitar com as frequentes intervenções públicas, nomeadamente através dos media e de conferências em que era solicitado a participar. Crítico de muitos aspetos do mais recente programa de assistência da troika a Portugal, o economista dizia à Rádio Renascença, em 2013, sobre os controversos cortes nas pensões de reforma: “Eu sou pensionista, quem me dera a mim que não toquem nas reformas, mas tocam, vão tocar e eu acho muito bem. Não há outro remédio. A geração grisalha não pode asfixiar a geração nova como tem feito até aqui”.

Contra aquela que era a perspetiva dominante entre a sua geração e na área política de centro-esquerda que estava mais próxima das suas posições e análises, acrescentava: “Sou a favor da contribuição de solidariedade social, sou a favor desta taxa que o Governo agora promete e que, se calhar, também vai ser declarada inconstitucional. E digo uma coisa: se nós temos a Constituição e a interpretação do Tribunal Constitucional a impedir estas coisas, isto rebenta tudo”.

Sobre os sacrifícios exigidos pelos compromissos assumidos a Portugal nos anos mais recentes, Silva Lopes afirmava, em junho de 2013, em entrevista ao Jornal de Negócios: “Em Portugal, querem que o Governo gaste mais, não querem que o Governo aumente os impostos e querem que o Governo tenha um défice mais pequeno. Ora, isto é uma impossibilidade aritmética. E, no entanto, as mesmas pessoas, o mesmo grupo, o mesmo partido, querem estas coisas ao mesmo tempo. Este tipo de situações ilógicas é que nos levou a isto”.

Com uma boa parte do seu percurso profissional dedicado ao serviço público, o economista também tinha uma opinião sobre o facto de as gerações mais jovens demonstrarem menos interesse pelo setor e pelo desempenho de cargos políticos. “Muitos não querem assumir a ideia de ir para o Estado porque não vale a pena. Ainda por cima, vão para lá e só levam pontapés nas canelas, mesmo que sejam bons ministros e estejam a fazer o melhor que podem”, declarava na mesma entrevista, acrescentando: “Um dos grandes dramas do país é que hoje ir para o Estado não tem prestígio. As boas capacidades do país estão a planear a campanha de um detergente. Ou num banco qualquer. O país está a aproveitar muito mal as suas capacidades”.

O “caso BPN” e os ataques e dúvidas que suscitaram acerca da atuação do Banco de Portugal como supervisor do setor financeiro, também não escapou ao estilo assertivo de Silva Lopes. À Antena 1, disse: “Uma coisa que me espanta é que anda tudo a atirar a Vítor Constâncio, e, entretanto, Oliveira e Costa e os outros que com ele estavam na administração do BPN estão por aí à mesma na calma à espera que o processo deles venha a prescrever. Isso é que me irrita nos portugueses”. E rematava: “Quando vemos Oliveira e Costa e os seus cúmplices, que estão à grande, a viver a vida que querem, com o dinheiro que querem, isso é que os devia irritar, mas não, andamos nestes joguinhos políticos”.

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