Do “milagre finlandês” à “década perdida” foram poucos anos. A primeira expressão remete para o livro “The Finnish Miracle”, de 2011, no qual o autor canadiano André Noël Chaker conta a história de sucesso da Finlândia, líder de rankings internacionais que até foi considerado o melhor país do mundo pela revista norte-americana Newsweek. A segunda expressão é de 2015 e saiu da boca do primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb. Ele próprio, que elogiou o livro de Chaker aquando do seu lançamento, tem falado desta “década perdida” várias vezes durante a campanha para as eleições legislativas de 19 de abril.

A Finlândia vai a votos este domingo, 19 de abril, com números pouco motivadores. Depois de três anos em contração do PIB, está previsto o crescimento económico fixar-se nos 0,5% em 2015 — a nível europeu, só a Itália e o Chipre deverão ficar abaixo dessa marca. O desemprego já chegou aos 10,1%, número que só encontra par em 1999.

Longe vão os tempos em que a Nokia, cujo negócio na área dos telemóveis foi comprada pela Microsoft em 2014, era o símbolo de uma Finlândia plenamente próspera. Na década de 2000, antes de ser ultrapassada por empresas como a Apple e a Samsung, a Nokia chegou a representar um quinto das exportações finlandesas e contribuía para 4% do PIB. Em 2013, não passou dos 0,4%. A indústria do papel, outro dos alicerces da economia deste país densamente florestado, tem vindo a perder a batalha contra a tecnologia (leia-se, computadores e tablets, a maior parte de marcas que não a Nokia) e a competição de outros países, como a China. Mais recentemente, 10% das exportações finlandesas foram cortadas pela raiz graças à aplicação de sanções à Rússia por parte da União Europeia (UE).

Austeridade em casa…

Por tudo isto, a ideia de que a Finlândia precisa de aplicar medidas de austeridade parece ser consensual entre os partidos que podem chegar ao poder. Na linha da frente das sondagens está o Partido do Centro (24%), seguindo-se a líder do governo Coligação Nacional (16,9%), depois os eurocéticos do Partido dos Finlandeses (16,7%) e finalmente o Partido Social Democrata (15,1%). De todos, apenas este último se opõe, embora de forma genérica, a políticas de austeridade na Finlândia.

Em declarações ao Observador, Niklas Helwig, do Instituto de Relações Internacionais Finlandês, aponta que, uma vez que qualquer destes partidos está longe de chegar a uma maioria sozinho, “a coligação mais provável a sair daqui será uma com o Partido do Centro à frente, que contará com a ajuda da Coligação Nacional e do Partido dos Finlandeses”. A estes ainda se pode juntar o Partido Sueco, representante da minoria de falantes de sueco naquele país.

Em qualquer cenário, deverá ser Juha Sipilä que vai comandar a política finlandesa. Sipilä, um milionário que fez fortuna no setor da telecomunicação e no da bioenergia, tem conquistado a preferência do eleitorado ao passar a imagem de um tecnocrata bem-sucedido que está preparado para gerir o país como se este fosse uma empresa. “Acho que esta situação é pior do que a do início dos anos 90 [quando o país entrou em recessão entre 1990 e 1993, com o desemprego acima dos 12%] porque não temos nenhuma grande perspetiva neste momento. Não fizemos as grandes reformas durante as melhores alturas e agora elas vão ser difíceis de fazer nas piores alturas”, disse ao “Financial Times”.

Para já, a principal promessa eleitoral de Sipilä é a criação de 200 mil postos de trabalho no setor privado ao mesmo tempo que serão cortados 2 mil milhões de euros de despesa no público. Para chegar a este número, é provável que o sistema de saúde seja um dos mais afetados. Sem números significativos de imigração e com uma taxa de natalidade baixa, a Finlândia está a braços com um grave problema envelhecimento populacional. 19,07% dos finlandeses tem 65 anos ou mais, tornando este país no quarto mais envelhecido do mundo, segundo números da OCDE. (Portugal, já agora, vem logo a seguir, em quinto, com 18,72% de idosos)

Outra meta que Sipilä pretende alcançar é o decréscimo do défice orçamental de 3,4% em 2014 de modo a que fique abaixo do 3% fixados pelo Tratado Orçamental da zona euro. Já a dívida externa deverá ultrapassar este ano os 60%, teto máximo definido pelo mesmo documento.

… e fora de portas

A Finlândia tem sido dos países mais exigentes no que diz respeito à exigência de aplicação de medidas de austeridade no Sul da Europa. Numa entrevista à Deutsche Welle em fevereiro, dias antes o primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb, admitiu estar com “pouca paciência” para o governo grego. Na sua opinião, Atenas tem apenas uma opção: “Respeitar os seus contratos e obrigações. É nisso que a integração europeia consiste”. Dias depois dessa entrevista, a Grécia conseguiu uma extensão do empréstimo até junho, após acordar com o Eurogrupo um conjunto de reformas.

Ainda menos diplomático do que Stubb é o Partido dos Finlandeses, anteriormente conhecido internacionalmente como Partido dos Verdadeiros Finlandeses. Ao telefone com o Observador, Sampo Terho, eurodeputado desta força política que agora se candidata a um lugar de deputado no seu país, explica a mudança de nome. “O nome antigo dava a ideia de sermos muito chauvinistas, como se fôssemos um partido de extrema-direita, quando na verdade nós somos antes um partido de centro.”

Nas eleições de 2011, o partido liderado pelo controverso Timo Soini tornou-se na terceira força política na Finlândia, após conquistar 19,1% dos votos. Em Portugal é recordado pela forte oposição ao financiamento do plano de resgate assinado em maio de 2011, que acabou por ser aprovado em parlamento com o voto contra do então Partido dos Verdadeiros Finlandeses. O caso também ficou celebrizado por ter levado a uma badalada troca de galhardetes entre Portugal e a Finlândia no YouTube.

Agora, em 2015, o grande ponto de interrogação cai sobre a possibilidade de um terceiro plano de resgate grego. Terho, que é uma das figuras de proa do Partido dos Finlandeses, deixa uma garantia ao Observador quanto a esse assunto: “Connosco no governo não haverá apoio a nenhum resgate grego”. “Não faz sentido estarmos a mandar dinheiro para países que não conseguem pagar as dívidas deles. Eles têm de declarar falência e a partir daí lidar com a situação”, avança. Fora do euro? “Claro.”

A questão grega é uma das que reúne mais consenso dentro da possível coligação entre o Partido do Centro, a Coligação Nacional e o Partido dos Finlandeses. Embora o último seja o mais direto no que diz respeito a este assunto, o Partido do Centro também já deixou provas de não ser favorável a que se envie mais dinheiro para a Grécia. Em 2012, quando o parlamento finlandês aprovou o segundo resgate grego, os centristas votaram contra, juntamente com os eurocéticos. Por isso, é pouco provável que venham apoiar um terceiro.

A não ser, é claro, que a Alemanha seja a favor de mais um memorando para Atenas, explica Helwig, do Instituto de Relações Internacionais Finlandês. “A Finlândia irá sempre atrás daquilo que a Alemanha disser. Se a Alemanha e outros países, como a Holanda, votarem a favor no Eurogrupo, não vai ser a Finlândia fincar o pé e dizer não”, adianta, completando o raciocínio com o que lhe parece ser uma evidência: “Somos demasiado pequenos para isso”.