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Em primeiro lugar, saiba que é possível guardar um vinho aberto e um vinho fechado. Os processos são diferentes e a duração do armazenamento também, mas comprar um vinho não é sinónimo de ter de bebê-lo à pressa.

No caso de um vinho aberto, o escanção Sérgio Antunes aconselha que o coloque no frigorífico, independentemente de ser um vinho branco ou tinto. Isto porque, segundo o escanção, “a oxidação e a evolução são mais lentas, porque o que oxida o vinho é o oxigénio”. Durante três a quatro dias o seu vinho não vai estragar no frigorífico, o que não é garantido se o deixar à temperatura ambiente.

Se, por outro lado, a garrafa estiver fechada e quiser guardá-la para uma ocasião especial, saiba que existem seis fatores a ter a em conta para não ter a surpresa de ter um vinho estragado a sair do gargalo:

1. Exposição à luz

Apesar de as garrafas de vinho serem feitas de um vidro escuro, não deixam de ser de vidro, ou seja, permitem que os raios solares acabem por passar. O que o excesso de luz vai fazer, de acordo com o escanção Rodolfo Tristão, é “acelerar o processo de envelhecimento e acabar por alterar a cor dos vinhos. O branco vai ganhar cor e o tinto vai perdê-la”.

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2. Humidade

Os três escanções contactados pelo Observador são unânimes no que à percentagem de humidade ideal diz respeito: 70 por cento é a humidade a que o vinho deve estar exposto. Segundo o escanção Manuel Moreira, “é como uma caixa de charutos”. Um valor difícil de obter mas que, com alguns truques, não é impossível. Rodolfo Tristão sugere que, no armário onde colocar as garrafas, coloque também um copo de água ou um pano molhado, para que assim consiga chegar à percentagem desejada. A vantagem da humidade é que faz com que a rolha não fique ressequida e mantenha a elasticidade, protegendo o vinho do malogrado oxigénio.

3. Temperatura

Tanto o vinho branco como o tinto devem ser mantidos a uma temperatura o mais fresca possível. Idealmente, essa temperatura deve rondar os 10 e os 12 graus e deve ser sempre constante. Uma exposição do vinho a grandes temperaturas não só vai acelerar o processo de envelhecimento como pode mesmo “cozê-lo”. Manuel Moreira diz que a expressão “vinho cozido” vem de “quando se prova um vinho que ficou com aromas de queimado e lhe falta frescura”, devido à exposição a altas temperaturas. Algo comum no vinho Madeira que é intencionalmente aquecido, para acelerar o processo de envelhecimento. Como aqui isso não é pretendido, Manuel Moreira aconselha a colocar o seu vinho sempre na parte mais fresca da casa, numa garagem ou até numa zona que tenha um ventilador.

4. Posição da garrafa

A garrafa deve estar sempre deitada e nunca de pé. E a razão está na hidratação da rolha, novamente. “A garrafa deve estar deitada porque se estiver de pé a rolha seca, pode até cair. Ao estar deitada a rolha fica sempre húmida e, desta forma, não deixa o ar passar”, diz Sérgio Antunes.

5. Vibração

O movimento não é aconselhável ao vinho, muito menos abanar a garrafa. Rodolfo Tristão diz que “quando a garrafa está armazenada, os sedimentos encontram-se no corpo da garrafa, e ao agitá-la vão acabar por misturar-se”. Por isso o sommelier deixa uma dica: “Se estiver a pensar abrir uma garrafa no dia seguinte, o que deve fazer na noite anterior é coloca-la de pé, para que os sedimentos possam descer.”

6. Local de armazenamento

É difícil encontrar uma área que corresponda a todas estas exigências, principalmente quando lutamos com falta de espaço em casa. Mas Sérgio Antunes alerta que “não se deve armazenar vinho num espaço que tenha odores, porque passam para a garrafa. As pessoas costumam guardá-las no meio de alhos, cebolas e até de lixívia”. Ao que parece, não é só ao solo circundante que o vinho vai buscar sabor — depois de engarrafado continua a absorver o que o rodeia, e ninguém quer beber vinho com aroma a lixívia. Para quem compra muitos vinhos, o melhor mesmo é adquirir um armário de vinhos, diz Rodolfo Tristão, pois dessa forma todas estas condicionantes estão asseguradas.

No entanto, não basta seguir todas estas normas à risca, também tem de ter em conta a qualidade do vinho que tem em mãos. Nem todos os vinhos ficam melhores com o tempo, depende muito da qualidade e das regiões de onde são provenientes. Rodolfo Tristão diz que os “vinhos com mais mau feitio”, ou seja, aqueles vinhos complexos que quando se bebe até parece que “deixam a boca encortiçada”, são os que melhor evoluem com a passagem do tempo. É o caso dos vinhos da Bairrada, do Dão, do Douro ou da Beira Interior. O período de vida de uma garrafa vai depender do tratamento do qual foi alvo ao longo da sua existência, podendo durar de 10 a 60 anos, ou mesmo 300, no caso do vinho Madeira.

Para Manuel Moreira, ao fim de 20 anos “a rolha vai perder a elasticidade porque o álcool vai corroê-la”. Mas o escanção admite que já provou vinhos com muitos anos e “rolhas vergonhosas” que estavam impecáveis. Isto justifica-se pelo facto de o vinho ser “um ser vivo” que evolui de formas diferentes. “Cada garrafa vai dar um vinho diferente.”

Para que um vinho que foi armazenado envelheça bem, tem de ter uma boa estrutura e concentração, uma vez que “o álcool, o açúcar e a acidez são como que uma espécie de ‘armadura’ para o vinho envelhecer”. “Se não tiverem isso nem vale a pena esperar”, garante Manuel Moreira, acrescentando que “esta tipologia de gosto (de vinhos velhos) está em desuso, porque as pessoas agora querem tudo no momento” e optam por vinhos frutados, frescos e imediatos”.