O “Sim” venceu na Irlanda. Os irlandeses aprovaram este sábado, por larga maioria, a legislação sobre o casamento homossexual, num referendo que marcou a história. Os primeiros resultados foram divulgados pela televisão pública RTE, quando estavam contabilizados 40 das 42 circunscrições, e davam conta de que 62,3% dos votantes escolheu legalizar o casamento gay.

A Irlanda torna-se assim o 19.º país – o 14.º na Europa e onde se inclui Portugal – a legalizar o casamento homossexual. No entanto, foi o único a organizar um referendo sobre este tema, com os restantes países a optarem pela via parlamentar.

O resultado, registado 22 anos após a despenalização da homossexualidade, constitui uma derrota para a Igreja católica irlandesa, que promoveu uma campanha ativa pelo “não” e traduz a sua erosão na sociedade irlandesa.

O arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, já afirmou que o “sim” dos eleitores irlandeses é um exemplo da “revolução social” que o país atravessa “há algum tempo” e à qual a Igreja católica deve reagir. Martin admitiu que chegou o momento de a hierarquia católica iniciar um processo de profundo debate e “revisão da realidade”.

O arcebispo, citado pela agência Efe, assegurou que os responsáveis católicos devem encontrar “uma nova linguagem” para propagar mais eficazmente a mensagem da Igreja, sobretudo entre os mais jovens, cujo voto foi decisivo para a vitória do “sim”.

Durante a campanha, a Igreja, apoiada por grupos conservadores, movimentos antiaborto e uma minoria de senadores e deputados, defendeu que o casamento homossexual atentava contra os valores da família tradicional que iria modificar radicalmente os processos de adoção, incidindo negativamente nos direitos dos menores.

Antes de se saberem os resultados finais o ministro da Igualdade irlandês, Aodhán Ó Ríordáin, já esperava que o referende desse parecer positivo à união de homossexuais. “Eu acho que está ganho“, comentou Aodhán Ó Ríordáin à Reuters, citado pelo britânico The Guardian. No Twitter, a manifestação foi ainda mais efusiva.

A contagem começou às 9h00 locais e as indicações sugeriam que o casamento gay vencesse. A Irlanda tornou-se no primeiro país a legalizar o casamento entre homossexuais através de uma consulta popular, e a decisão é considerada histórica: há 22 anos, a homossexualidade era vista como um crime naquele país.

Os irlandeses foram chamados às urnas na passada sexta-feira e a taxa de participação nacional esperada ronda os 60%, com 3,2 milhões de pessoas registadas para votar. 

A República da Irlanda promulgou em 2010 uma “lei de relações civis” que, pela primeira vez no país, reconhecia legalmente os casais de pessoas do mesmo sexo, mas não as classificava como “casamento” nem lhes conferia proteção constitucional, como passa a ocorrer com a vitória do “sim”.

A Irlanda, país de 4,6 milhões de habitantes, votou em 1995 pela legalização do divórcio, apesar da Igreja também se ter oposto. O aborto continua proibido, sendo apenas praticado caso a vida mãe esteja em perigo.

*Artigo atualizado às 19h53 de 23 de maio com resultados finais