Aos 12 anos aspirava ser a “melhor atriz nativo-americana viva”. Conseguiu. Hollywood abriu-lhe as portas e Misty Upham contracenou com a nata da indústria do cinema – Meryl Streep, Julia Roberts e Benicio Del Toro. Em outubro foi encontrada morta numa ravina em Auburn, Washington. O crânio e as costelas estavam partidos, o corpo encontrava-se junto ao turbulento rio White. Misty tinha 32 anos. Até ter sido encontrada, esteve desaparecida durante 11 dias. E a sua morte está envolta em mistério.

Filha de um professor de música e de uma dona de casa, Misty cresceu entre o Montana e Washington, com ocasionais períodos em que a situação financeira dos pais obrigava a que se mudasse para a reserva Blackfeet – no estado do Montana, casa de vários povos nativos-americanos. A sua vida foi marcada por vários episódios menos felizes: o estigma social devido às suas origens, a violação aos 13 anos por um grupo de homens (ela que tinha sofrido violações anteriores quando era ainda mais nova, por um membro próximo da família), a luta contra o alcoolismo, o abuso de medicação para estabilizar a depressão, a ansiedade, a bipolaridade e o stress pós-traumático.

Mas Misty não desistiu do seu sonho mesmo quando a primeira professora de teatro lhe disse para encontrar outra profissão. “Ela continuou durante cinco anos, a escrever, a realizar, a atuar, a encontrar o seu próprio modo de atuar”, contou o seu pai ao Guardian. Aos 20 anos fez o primeiro filme – Skins – e vários se seguiram: Edge of America, Expiration Date, Frozen River, Big Love, Django Unchained. Apenas não aceitava papeis onde os nativos-americanos encarnavam o estereótipo de alcoólicos.

A 5 de outubro de 2014, Mista desapareceu. Apesar dos apelos desesperados da família, dois dias depois a polícia ainda não tinha iniciado as buscas. “Eles disseram: ‘Nós não temos provas de que ela está desaparecida. Ela provavelmente está numa festa com os amigos em qualquer lado'”, contou o seu pai. Só 8 dias depois do dia do desaparecimento é que a polícia, pressionada pelas notícias dos media, comunicou o seu desaparecimento. Dois dias antes, o pai decidiu organizar um grupo de buscas com a ajuda de um primo.

Misty foi encontrada morta a 16 de outubro por dois amigos, Robert Kennedy e Jeff Barehand, que deixaram de lado o trabalho e a família para a encontrar. A polícia, escreve o Guardian, perdeu mais tempo a responder aos media do que a procurar o corpo e nem uma única publicação foi feita no Facebook para tentar divulgar o seu desaparecimento, refere o jornal. “Se o Robert e eu não estivéssemos estado lá naquele dia, ela ainda poderia lá estar”, afirmou Jeff.

Na cerimónia dos Óscares prestaram-lhe homenagem. “O seu legado é enorme para os jovens Nativos interessados em cinema. É uma porta que ela abriu. Parece-lhes possível: ‘a Misty conseguiu. Nós conseguimos'”. A família lamenta e espera que a sua morte sirva de alerta: “Isto poderia ter sido evitado. Podiam tê-la encontrado na primeira meia hora. Ela poderia ter sido salva.”