“Eu digo aos gregos, por quem tenho uma profunda afeição: não cometam suicídio porque têm medo de morrer. Têm de votar sim, qualquer que seja a questão que vos seja colocada”, foi o apelo desesperado de Jean Claude Juncker na segunda-feira como resposta à convocação do referendo sobre o plano de resgate à Grécia. Palavras como “traição” e “amor”, que não costumam constar nos discursos de Bruxelas, foram também utilizadas no culminar de cinco meses intensos de negociações que incluíram abraços, apertos de mão e brincadeiras com Tsipras. Mas esta atitude de Juncker ajudou ou prejudicou as negociações com a Grécia?

“De forma geral, Jean-Claude Juncker e a Comissão Europeia têm sido mais os mais conciliadores entre os vários lados das negociações, tentando ajudar no que foi possível”, diz ao Observador o investigador do ISCTE Emmanouil Tsatsanis. Mas nem tanto por Juncker, o investigador lembra que esse papel já pertence tradicionalmente à Comissão, pois esta representa o interesse comunitário, o que justifica que tanto Juncker como Pierre Moscovici, comissário dos Assuntos Económicos, tentassem melhorar as ofertas feitas ao Governo grego.

Com menos de um ano à frente da Comissão – o antigo primeiro-ministro do Luxemburgo foi, primeiro, eleito pelos europeus com a vitória do Partido Popular Europeu em termos de assentos no Parlamento Europeu e, depois, votado pelos eurodeputados no dia 15 de julho de 2014, vindo só a constituir a sua equipa no final de outubro e tomando posse a 1 de novembro -, grande parte do mandato de Juncker tem sido marcado pelas negociações entre Bruxelas e Atenas.

O antigo líder do Eurogrupo – e apelidado como o último dinossauro da União pelo seu envolvimento de décadas com a política europeia -, reconheceu em fevereiro ter atuado contra a dignidade dos países sob resgate. “Pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia, em Portugal e também na Irlanda. Eu era presidente do Eurogrupo e pareço estúpido por dizer isto, mas há que retirar lições da História e não repetir os erros”, disse Jean-Claude Juncker, uma declaração que coincidiu com o início do vai e vem entre o recém-eleito Governo de Tsipras e a União que resultou numa extensão de quatro meses do segundo plano de resgate.

“Pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia, em Portugal e também na Irlanda. Eu era presidente do Eurogrupo e pareço estúpido em dizer isto, mas há que retirar lições da história e não repetir os erros”, disse Jean-Claude Juncker.

Tempo que não se revelou suficiente para negociar novos termos com Atenas de modo a aliviar o peso da dívida grega que não tiveram o resultado esperado por Bruxelas. No início de março, Juncker dizia ao El Pais que Tsipras tinha dado um passo fundamental ao “assumir as suas responsabilidades”. “Entretanto, tem um problema, já que terá ainda de explicar que certas promessas, com as quais ganhou as eleições, não serão realizadas”, disse o presidente da Comissão. António Rodrigues, deputado do PSD e coordenador do partido para os Assuntos Europeus, disse ao Observador que Juncker “tem tentado ser um moderador entre a troika e o Governo grego”, deixando sempre espaço para que “a porta das negociações se mantivesse aberta”.

Juncker, um facilitador no topo de Bruxelas

Entre encontros mais ou menos informais, Juncker beijou, deu a mão e até sugeriu emprestar uma gravata a Alexis Tsipras, num estilo muito próprio. “É uma intervenção muito personalizada e corre o risco de ser errática”, considera o antigo eurodeputado Rui Tavares, que diz ao Observador que “há falta de coragem” em Juncker para ser “o guardião dos tratados”. O líder do Livre critica ainda o Juncker por ter aceitado “a conversa negligente sobre a saída da Grécia”. Um discurso que se agravou nas últimas semanas, com diretas e indiretas ao Governo grego que se têm espalhado um pouco por todas as estruturas europeias.

Para o investigador grego Emmanouil Tsatsanis, que vive em Portugal, houve durante as negociações entre as instituições e o Governo grego uma postura de polícia bom/polícia mau em que o bom era muitas vezes interpretado pela Comissão, com auxílio dos Governos italiano e francês, e onde o FMI e o Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, com os restantes ministros das Finanças da zona euro, “coordenados por Wolfgang Schäuble”, eram o polícia mau. “No entanto, no fim de contas, a Comissão sempre alinhou publicamente com a frente das instituições contra a Grécia”, comenta Tsatsanis.

Este alinhamento tornou-se mais visível em junho, quando as negociações começaram as conversas tidas nas salas de reuniões entre credores e Governo grego passaram a ser do conhecimento geral e o próprio presidente da Comissão se viu obrigado a esclarecer alguns pontos negociais. “O debate dentro e fora da Grécia seria mais fácil se o governo grego informasse a população das propostas reais da Comissão. Estou a acusar o [governo] de dizer ao público coisas que não são o que dissemos ao primeiro-ministro grego. (…) Não sou a favor do aumento do IVA na eletricidade e medicamentos. Penso que seria um grande erro se a Grécia fosse obrigada a isso”, disse Juncker numa conferência de imprensa.

Rui Tavares compreende que a Comissão assuma um papel mais político, dado que as últimas eleições europeias ditaram de alguma forma a liderança deste órgão e por isso, “há alguma incorporação do poder democrático” nesta equipa, mas considera que a política aí feita se deve restringir ao âmbito dos tratados. Para o antigo eurodeputado, a Comissão está atualmente a ultrapassar os seus poderes. “Creio que a tomada de posição acerca de um ato que tem lugar num Estado-membro [referendo na Grécia], vai para além do que lhe permite os Tratados”, defende o líder do Livre, defendendo que deveria ter sido Juncker a tomar a iniciativa de propor uma reestruturação da dívida.

“Depois de todos os esforços que fiz, todos os esforços da Comissão e de outras instituições envolvidas no processo, sinto-me ligeiramente traído porque os meus esforços e os de outros, que duraram um largo período de tempo, não foram tidos em conta”, disse Juncker.

No discurso de segunda-feira, o presidente da Comissão falou num tom confessional perante milhões de europeus e disse mesmo ter-se sentido traído pelo rumo das negociações. António Rodrigues, que nesse dia estava em Bruxelas, diz ao Observador que Juncker sentiu que tinha chegado aos “limites da lealdade política”. “Ao contrário de Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu que esta semana foi violentíssimo nas suas declarações, Juncker disse que tinha chegado o tempo das decisões”, afirmou o social-democrata.

Durão e Juncker. o mesmo cargo, posições diferentes

Já antes de chegar à Comissão Europeia, Juncker era conhecido como um político muito particular, com discursos efusivos e situações caricatas, e a sua postura não mudou. Foi a boa relação pessoal que parecia manter com Alexis Tsipras, que, segundo Emmanouil Tsatsanis, tornou esta semana “espetacular e emocional”, tendo contribuído para “escalar as diferenças entre os credores e o Governo grego” e provavelmente “fechar a porta a um entendimento de última hora”.

Esta ação mais “independente” de Juncker contrasta, segundo Tsatsanis, com a posição do seu antecessor naquele cargo. “Apesar de Barroso ir contra Merkel nos eurobonds, era mais alinhado com ela do que Juncker. As tensões entre Merkel e Juncker são muito relatadas na imprensa alemã, mas neste reta final, acabou por alinhar mais com os credores”, diz o investigador.

Rui Tavares diz também que os dois estilos de governação da Comissão são diferentes. “Juncker é muito diferente de Barroso. Durão Barroso tinha medo de errar que acabava por não fazer nada”, admite o antigo eurodeputado, dizendo ainda que a a atuação “sui generis” de Juncker não seria negativa, caso orientasse a “originalidade” para a defesa dos tratados.

Para António Rodrigues, a diferença entre os dois explica-se através das suas origens políticas. “Juncker vem de um país habituado a negociar governos de coligação e Durão Barroso está mais habituado a trabalhar com maiorias absolutas”, afirma o deputado social-democrata, dizendo que Barroso se assemelhou mais ao estilo do antigo presidente Jacques Delors, em termos de dimensão política e não hesitando em “dar um murro na mesa”, enquanto Juncker tem um “estilo mais conciliador”.