O coração não esquece, e Pedro Santana Lopes sabe-o bem. Mas em nome do memorando de entendimento entre a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a Plataforma Global para os Estudantes Sírios, presidida por Jorge Sampaio, as emoções e as velhas “divergências” entre o ex-primeiro-ministro e o ex-Presidente da República ficam ao largo. “Os seres humanos têm memória, têm coração, têm alma, mas também têm a obrigação de olhar para o presente e para o futuro, especialmente quem tem responsabilidades políticas”, disse Santana Lopes esta terça-feira aos jornalistas. Daí o aperto de mão e o acordo firmado entre as duas instituições para a atribuição de dez bolsas de estudo a jovens refugiados sírios. O passado está lá atrás.

O provedor da Santa Casa, Pedro Santana Lopes, e o ex-Presidente da República Jorge Sampaio, que em 2005 dissolveu a Assembleia e fez o Governo cair, estiveram esta terça-feira lado a lado no Convento de São Pedro de Alcântara, em Lisboa, para formalizar a assinatura do acordo que permite a atribuição de bolsas de estudo, no valor de cerca de 50 mil euros por ano, a jovens estudantes sírios refugiados em Portugal.

Os dois homens que têm divergências antigas entraram juntos, conversaram, sorriram, trocaram elogios, assinaram uma a uma as várias folhas do memorando e, no fim, apertaram a mão em sinal de acordo selado. Agora, é tempo de “colocar os interesses da comunidade acima dos nossos”, acabaria por dizer depois Santana aos jornalistas.

“As divergências não impedem que as pessoas reconheçam quais são as qualidades das outras. E eu tenho respeito e consideração pelo dr. Jorge Sampaio há muitos anos, não são as divergências que nos afastam”, sublinhou.

As “memórias” dos tempos difíceis de há 10 anos, aquando da tomada de posse de Santana como primeiro-ministro e da posterior queda do Governo apenas cinco meses depois, não foram para ali chamadas, e Santana disse desde logo aos jornalistas que não queria falar de “questões pessoais”. Mas nem por isso deixou de recuperar outras memórias, mais distantes ainda, de há 20 anos:

“Estava aqui a olhar para si [Jorge Sampaio] e a lembrar-me que já assinamos tantos outros protocolos há mais de 20 anos, quando o dr. Jorge Sampaio era presidente da Câmara Municipal de Lisboa e eu era secretário de Estado da Cultura”, disse, quando discursava antes da assinatura do aperto de mão oficial.

Uma equação com variáveis múltiplas

Os elogios foram mútuos. Entre o “enorme respeito e consideração” que Santana disse ter por Sampaio e as “felicitações” públicas pelo facto de o ex-Presidente da República ter sido agraciado com o prémio Nelson Mandela – que é “um motivo de orgulho para todos os portugueses” -, também Jorge Sampaio quis sublinhar, durante um breve discurso prévio à assinatura do memorando, o “grande empenho” de Pedro Santana Lopes e da Santa Casa da Misericórdia no caso dos refugiados sírios.

Para Sampaio, o acordo que ajudará uma dezena de jovens sírios só foi possível devido à “coordenação de saberes e de esforços” entre ambos. Porque “as equações fazem-se com variáveis múltiplas” e é isso que faz provar que “1+1 são 2”. Ou seja, pazes feitas, feridas saradas.

Ainda assim, questionado pelos jornalistas no final da cerimónia, o provedor da Santa Casa não negou aquilo a que chamou de “divergências” entre os dois, mas recusou a ideia de que o memorando sobre os refugiados sírios tivesse sido o pretexto para reatarem relações. “Não tínhamos nada para reatar, o dr. Jorge Sampaio é uma pessoa extremamente educada, sempre que nos vemos falamos, cumprimentamo-nos, conversamos um bocadinho. Não há nada por resolver, ficou tudo muito claro”, começou por esclarecer. As “divergências” essas, podem até manter-se, com o próprio Santana Lopes a admitir que houve ocasiões onde estiveram “em posições extremadas”, mas “a causa é que conta” e a “obrigação” é “olhar para o presente e para o futuro”. Não para o passado.

Foi a primeira vez que os dois estiveram juntos numa cerimónia deste tipo, enquanto protagonistas, mas Santana Lopes relativiza o timing. “Que eu me lembre é a primeira vez desde 2005, sim, mas é porque não calhou ter sido antes. Se tivesse calhado, e a causa o merecesse, com certeza que teríamos estado juntos noutra ocasião”, disse o ex-primeiro-ministro aos jornalistas no final da cerimónia.

Já Sampaio preferiu sair da sala depois do acordo fechado, sem mais comentários.