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Legislativas 2015

“Surreal”. Seguristas pressionam e exigem resultados a Costa

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Começou com dados do desemprego e acabou com cartaz sobre uma desempregada. Seguristas aproveitam a deixa para elevar a fasquia e pôr pressão em Costa: tem obrigação de ter maioria absoluta.

NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA

“Surreal”, “tanto disparate junto”, “vai sendo tempo de erradicar a incompetência e a falta de visão política”. Foi assim que um ex-dirigente socialista, ligado ao anterior secretário-geral António José Seguro, reagiu ontem nas redes sociais ao mais recente outdoor do PS que mostra uma desempregada de longa duração que perdeu o emprego há cinco anos, ou seja, no tempo em que era o PS que estava no Governo. O cartaz, no entanto, foi apenas a parte mais visível de uma semana difícil para o PS, que começou com uma guerra aberta com o Governo sobre os números do desemprego – e uma voz divergente na UGT – e acabou com a dificuldade em fazer passar uma mensagem.

Rapidamente o cartaz com o lapso temporal – que está incluído numa campanha maior intitulada “Não brinquem com os números, respeitem as pessoas” – saltou para a internet e foi alvo de paródia. Mas não foi só a direita que aproveitou a deixa para atacar o PS. Também internamente se ouviram críticas, e entre os seguristas mais fiéis houve quem aproveitasse para beliscar António Costa e pôr pressão máxima no atual líder socialista.

António Galamba, membro do secretariado nacional do PS durante a liderança de Seguro e que este ano ficou excluído das listas de candidatos a deputados, foi a voz mais acesa. Começando por partilhar na sua página de Facebook a imagem do outdoor acompanhado da legenda “Surreal”, escreveu minutos depois uma publicação mais pensada onde falava em “disparate” e onde pedia ao PS para “erradicar a incompetência, a falta de visão política e a incapacidade para gerar a confiança necessária”.

Para quem se apresentou como valor seguro para conquistar uma maioria absoluta para o PS, quase com um estalar de dedos, está tudo a ser feito para a obtenção de um resultado no sentido oposto”, atira Galamba a António Costa.

Também o ex-deputado socialista Rui Paulo Figueiredo, que apoiou Seguro e que foi colocado em lugar praticamente inelegível nas listas de deputados para a próxima legislatura (decisão que o levou a demitir-se das funções de líder parlamentar do PS na Assembleia Municipal de Lisboa) usou a palavra “Surreal” para descrever o episódio do outdoor socialista.

No fundo, a mensagem dos seguristas é uma: “Nos últimos quatro anos, Passos e Portas desprezaram o respeito pela dignidade humana” e, mesmo assim, “a dois meses das eleições”, o PS não está a conseguir capitalizar esse descontentamento e descolar das sondagens. António Galamba aproveita o deslize do cartaz para pôr toda a pressão em cima dos ombros de António Costa, que destronou Seguro com o pretexto de este não estar a conseguir deslocar das sondagens:

“É preciso concretizar a bitola proposta da maioria absoluta. O PS tem de obter uma robusta maioria que perfaça o ciclo de vitórias iniciado nas autárquicas e continuado nas europeias”, escreve, numa alusão às eleições europeias de maio, onde Costa criticou a vitória de Seguro por ter sido “poucochinha”.

Miguel Laranjeiro, homem forte de Seguro que também ficou excluído das listas, seguiu o exemplo de Galamba e foi ao Facebook relembrar que “estamos a dois meses das eleições”, os programas do PS e da coligação estão “apresentados”, à vista de todos, e o Governo tem sido “desmentido todos os dias pelos organismo nacionais e internacionais (nomeadamente pelo FMI)”. Tudo motivos que deveriam ser suficientes para o PS estar na linha da frente a liderar as sondagens. Por isso, também Laranjeiro põe a pressão em cima do PS, que tem a obrigação de ter uma “subida robusta nas próximas sondagens”, diz.

Com tudo isto e muito mais que se poderia acrescentar, as próximas sondagens certamente que darão uma subida robusta do Partido Socialista e uma derrocada da Coligação de direita. Uma direita cansada e esgotada”, escreveu ontem ao final do dia o ex-secretário nacional de Seguro na sua página pessoal do Facebook.

Menos de um dia depois da declaração de Laranjeiro, o Expresso e a SIC divulgam os resultados do barómetro mensal da Eurosondagem, que coloca o PS e a coligação afastados por apenas 1,5 pontos percentuais, com o PS a perder quatro décimas em relação ao mês passado (aparece agora com 36,3%), e a coligação Portugal À Frente a recuperar duas décimas, fixando-se agora nos 34,8%.

UGT demarca-se do PS na guerra dos números

A polémica do cartaz foi, assim, o culminar de uma semana tensa. A campanha dos rostos do desemprego, da emigração e da precariedade laboral, foi precisamente a resposta do PS para a mais recente guerra de números em que se envolveu com a coligação depois de o Instituto Nacional de Estatística ter divulgado os dados do desemprego do último trimestre, fixando-o nos 11,9%, valor mais baixo dos últimos quatro anos.

O PS (e a restante oposição) agudizou o discurso e apostou tudo na crítica de que os cálculos feitos pelo INE – e aproveitados pelo Governo – deixam de fora todos aqueles que desistiram de procurar emprego, os desempregados de longa duração que deixaram de estar inscritos nos centros de emprego, que estão inseridos em formações ocupacionais ou que estão em programas de estágios de curta duração. Trata-se, segundo o PS, de uma tentativa de “mascarar” os números para esconder os dados relativos à diminuição do emprego e dos postos de trabalho. Daí a série de cartazes “Não brinquem com os números, respeitem as pessoas”.

Acontece que nem todos os socialistas concordaram com a leitura e alguns ousaram desafinar. Carlos Silva, militante do PS e líder da UGT, partiu em defesa do INE e elogiou logo a tendência decrescente da taxa de desemprego. Esta sexta-feira, em declarações ao Diário de Notícias, o sindicalista voltou a reforçar os elogios – “Então os números baixam e eu vou revelar insatisfação? Ora essa!” – e instou os socialistas a mudarem o método de cálculo das estimativas do desemprego quando chegarem ao Governo, se não concordam com ele. “Se o PS não está contente com os números só tem de alterar a contabilidade quando for Governo”, diz.

Presidenciais também agitam águas

A braços com o tema do desemprego, há outro dossier que, embora à margem, continua a agitar as águas internas do PS. É o das presidenciais, que só será prioridade depois das legislativas mas que está longe de ser pacífico. Depois dos rumores de que o ex-reitor António Sampaio da Nóvoa poderia não vir a receber o apoio do partido, a edição desta sexta-feira do jornal Público vem colocar mais achas na fogueira dando como quase certo que ninguém dentro do Secretariado Nacional esteja com vontade de apoiar o académico na sua caminhada para Belém.

Embora poucos falem em ‘on’ para criticar abertamente a hipótese de o ex-reitor da Universidade de Lisboa vir a ser o candidato do PS para as presidenciais, a verdade é que parece reinar a ideia de que uma decisão nesse sentido seria prejudicial para o partido por afunilar as perspetivas futuras do PS. Isto porque Nóvoa é um candidato que se situa à esquerda no espetro político e que até já conta com o apoio declarado do partido Livre/Tempo de Avançar, de Rui Tavares e Ana Drago.

De acordo com o mesmo jornal, a hipótese Maria de Belém Roseira também não é vista como a solução de ouro e há mesmo entre os dirigentes quem admita a hipótese de o PS não apoiar nenhum candidato, podendo até não se opor a um presidente que não seja da ala esquerda. Os nomes de Marcelo Rebelo de Sousa ou de Rui Rio surgem a esse propósito. Também contra isto o segurista Miguel Laranjeiro disparou no Facebook: “What?! Não apoiar um candidato de esquerda? Assistir a um candidato de direita passear até à vitória?”, questiona o ex-dirigente, sublinhando que “o PS, na altura que entender decidir, deve apoiar um candidato de esquerda e socialista”.

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