Efeméride

Há 20 anos o Netscape era cotado em bolsa e mudava para sempre a Internet

247

A 9 de agosto de 1995, uma startup dirigida por miúdos entra em bolsa e muda a Internet para sempre. Passados 20 anos, sabe qual a influência da Netscape na sua vida?

D.R.

Autor
  • Maria Catarina Nunes

Os computadores eram grandes e pesados; os tablets, gadgets e redes sem fios, aparelhos minimalistas e de design, ainda eram coisa do futuro. Os fios que saíam das máquinas estendiam-se pela casa e ligavam-se à entrada do telefone, a RDIS aparecia e fazia o mIRC mais eficiente. O barulho era ensurdecedor: inncccc onnrrr innccc, e era uma questão de segundos até o mundo entrar casa dentro. Num ápice, há precisamente 20 anos, o Netscape Navigator entrava em bolsa. Poucos terão imaginado o que se traçava a 9 de agosto de 1995, mas o caminho era certo: o .com tinha vindo para ficar.

Hoje, a internet é uma ferramenta trivial, além de essencial para a economia global. “Qual é o teu wi-fi?” tornou-se na saudação do século XXI. Poucos terão imaginado o que aí vinha quando, há 20 anos, o Netscape – então uma startup com 16 meses e nenhum rendimento – passa a ser cotado em bolsa. Os investidores tinham um apetite voraz pela empresa recente, conduzida pelas mãos de miúdos. As negociações foram duras.

E se esse parece ser o curso natural hoje em dia – basta pensar no Facebook, Tesla ou Twitter – tal não acontecia há 20 anos. Entrar na bolsa a meio dos anos 90 era rasgar um novo caminho. E foi mesmo isso que aconteceu.

A 9 de agosto de 1995, as ações da Netscape arrancaram a valer 28 dólares cada (cerca de 25 euros, nos dias de hoje). A meio dessa tarde, já tinham disparado para os 74,75 dólares (68 euros). Nessa noite fixaram-se nos 58,25 dólares (53 euros). Marc Andreessen, 24 anos, o co-fundador da startup, ficou milionário enquanto dormia. Foi um tiro até a Netscape passar a valer 3 mil milhões de dólares (cerca de 2,7 mil milhões de euros). A então vice-presidente de comunicação da empresa, Rosanne Siino, nem queria acreditar, conta à revista Quartz.

Antes do Navigator aterrar em força, a internet era um conceito abstrato, um espaço perdido no vazio, utilizado por especialistas ou militares: “Não tenho a certeza se a internet significava alguma coisa para as pessoas”, diz Mitchell Baker, presidente na Mozilla Foundation, que entrou na Netscape em 1994, ainda antes da explosão em bolsa. Já Rosanne Siino, confessa “A ideia de que podíamos viver online da forma que vivemos, de que íamos andar com computadores nos bolsos e que são cruciais no meu trabalho era louca para mim”.

Tudo mudou depressa: o design utilizado pela Netscape democratizou a internet. “Foi a porta de entrada para a web“, recorda o professor universitário americano W. Joseph Campbell. Acrescenta: “Foi uma empresa porreira com um grande nome. Em meados dos anos 1990, a Netscape provocou esta quebra de fronteiras deixando todas as possibilidades em aberto”.

Era intuitivo e fácil de usar e esse terá sido o seu sucesso: “A [Netscape] fez tudo bem”, diz Josh Quittner, co-autor do livro “Speeding the Net: The Inside Story of Netscape and How It Challenged Microsoft”. O browser chegou mesmo a captar 90% do mercado.

Por causa disso, o browser chamou à atenção da Microsoft e uma semana depois da cotação em bolsa, a empresa de Bill Gates lança a primeira versão do Internet Explorer. O combate virtual começava aí: “Vai ser uma luta de cães, mas temos Deus do nosso lado”, diria o CEO da Netscape, Jim Barksdale.

Mas a transcendência não enfrentou o Windows, sistema operativo já bem sustentado no mercado. A guerra ainda levou a Microsoft a tribunal, mas a Netscape já não tinha forma de emergir e, cinco anos depois, a AOL (que tinha comprado a marca em 1998), sacrifica-a.

No entanto, a influência da startup permanece: tecnologias desenvolvidas pela empresa, como linguagem de programação (Javascript) ou um protocolo de transferência de dados entre servidores e browsers (Secure Sockets Layer) ainda são utilizados atualmente.

Mas há mais: em plena guerra de browsers, a Netscape decidiu abrir a sua fonte de código para que outras empresas pudessem participar e contribuir: “Foi o nascimento da Mozilla”, conta Baker à Quartz. É assim que a AOL, já depois de fechar a Netscape, decide apostar na Mozilla: em 2003, investe dois milhões de dólares (cerca de 1,8 milhões de euros) na empresa e a Mozilla dá um salto. Daí até ao Firefox, que entra nos combates virtuais de hoje, foi só um pequeno passo.

A concorrência feroz, como a Microsoft, pode não ter permitido o estabelecimento da Netscape no mercado. Mas uma coisa é certa: os poucos anos de vida da startup deixam marcas até os nossos dias – que certamente permanecerão no futuro.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Efeméride

Maio de 68: 50 anos depois

João Carlos Espada

Contra os anseios revolucionários de Maio de 68, a França permaneceu “burguesa”, isto é, livre e democrática. Pôde assim absorver ideias de Maio de 68, que teriam sido esmagadas pelos comunistas.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)