A sala estava repleta para receber o anúncio da formação da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR), uma agregação de mais de 30 organizações da sociedade civil portuguesa que visa fazer frente à crise dos refugiados — mas foi quando se falou de outra crise, menos recente, que a audiência gelou. Muito em parte, porque foi contada na primeira pessoa.

A primeira recordação que tenho da guerra é ser acordada por um barulho estranho.”  Era 1992, Sabina tinha seis anos e, apesar de não se recordar das circunstâncias, fugiu com a irmã e a mãe da Bósnia até Split, na Croácia. Era lá que vivia o avô materno e foi também nessa cidade costeira que decidiram ficar para escaparem ao conflito que, quando terminou em 1995, causou 100 mil mortes — entre os quais, mais de 30 mil civis bósnios.

“Saímos com ideia de voltar. O meu pai ficou a tomar conta da casa e nós voltaríamos lá quando possível.”

Não foi assim que as coisas aconteceram. A casa acabou por ficar destruída — Sabina tem fotografias que o demonstram, onde posa, ainda criança, mas já depois da guerra, ao pé de um edifício de dois andares em escombros — e o pai juntou-se à ao resto da família em Split. Só que a Croácia não revelou ser o porto de abrigo com que sonharam — eram bósnios e, em tempos de guerra e confrontos étnicos, isso era razão para temerem pela vida. “Não nos queriam lá. Não éramos croatas. Tudo nos fazia lembrar a guerra. Tudo impedia que seguíssemos com a nossa vida normal.”

Mais tarde, mas ainda em 1992, o sobressalto acabou. “A ajuda veio e implicou sair para longe e mais uma vez sem o meu pai.” O momento ficou registado: Sabina, juntamente com a mãe e a irmã, chegava sã e salva ao Aeroporto de Figo Maduro. Quatro meses depois, chegou o pai. Foram acolhidos por uma família portuguesa em Soure (distrito de Coimbra). Continuam todos em Portugal — juntos e em segurança. E já se começam a multiplicar: “A família de quatro entretanto cresceu e juntaram-se dois portugueses de gema. Já nasceu uma pequena bósnia-portuguesinha e vem outra a caminho“.

Instituições, autarquias e escolas podem ajudar

A acção da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) passará, numa fase inicial, pelo acolhimento de refugiados. “Não ficando à espera de Godot ou de Dom Sebastião para resolver o problema. Esta é uma iniciativa que nasce da sociedade, nasce das pessoas, e que não fica à espera de subsídios para que as coisas aconteçam”, referiu o presidente do Instituto P. António Vieira, Rui Marques. A PAR foi constituída nos últimos sete dias, junta associações como o Conselho Português para os Refugiados, a Cáritas e Unicef Portugal, e já tem site: www.refugiados.pt.

A prioridade da PAR será, como aconteceu no caso de Sabrina em 1992, receber crianças e famílias. “Estas constituem o elo mais fraco”, disse.

O plano de ação da PAR prevê a criação do programa PAR Famílias, que permita a instituições, autarquias, associações, escolas, entre outros, estender a mão a refugiados que venham para Portugal. A estas, é proposto um contrato de acolhimento e integração com a duração de dois anos, ao abrigo do qual os refugiados teriam alojamento, alimentação apoio no acesso ao emprego, à saúde, à educação e também à aprendizagem do português. Idealmente, no final desses dois anos, os refugiados estarão “autonomizados”.

“Não somos defensores de um modelo de dependência, que menorize as famílias refugiadas que pretendemos acolher. O nosso objetivo é conseguir que os adultos se integrem no mercado de trabalho e que as crianças façam o mesmo na escola“, sublinhou Rui Marques. O padre Lino Maia, da Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade (CNIS), corroborou: “Queremos reunir as condições para as pessoas conseguirem criar os seus postos de trabalho ou então encontrarem um emprego”.

Rui Marques refere que a PAR vai funcionar de forma “coordenada e complementar com o Estado”. “A PAR pediu uma audiência ao governo, que teve lugar ontem [quinta-feira], onde manifestou a sua disponibilidade para governar e para ligar o seu esforço ao esforço do governo.”

Os “fantasmas” que podem fraturar a “sociedade portuguesa”

Para Rui Marques, a tarefa da PAR não é só a de “montar uma operação de logística”, mas também a de “mobilizar os portugueses e de não deixar que a sociedade portuguesa se frature” perante a crise dos refugiados. “É preciso haver uma redução do medo e uma eliminação dos fantasmas.

(Na quinta-feira surgiu uma petição online com o título “Não à criação de um centro de refugiados no Algarve“, depois de ter a Cruz Vermelha de Olhão ter avançado que poderia ali construir um edíficio para esse fim num terreno vazio. No texto da petição refere-se que “a integração dos refugiados será um fracasso” e fala-se também de um outro risco: o de que “os residentes agravem ainda mais a sua taxa de desemprego e a sua qualidade de vida”.)

Ainda assim, a conferência de imprensa de apresentação da PAR não se fez sem gaffesProcurando enaltecer a hospitalidade portuguesa, que agora se pode vir a confirmar, o Padre Lino Maia referiu que este traço nacional é uma herança da “civilização judaico-cristã e ocidental”. Pouco depois, mais à frente na sua intervenção, o pároco e presidente da CNIS, acrescentou que aquela característica é também um legado da “cultura muçulmana”.

Curiosamente, o orador seguinte foi Abdool Vakil, em representação da comunidade islâmica de Lisboa — que, segundo o próprio, se prepara para “acolher pelo menos 250 refugiados”. “Estava a ouvir as palavras do senhor padre Lino Maia, que felizmente e a bom tempo corrigiu o que disse“, lançou, bem-humorado, arrancando algumas gargalhadas um tanto ou quanto desconfortáveis à plateia.

De seguida, Abdool Vakil referiu que a questão religiosa é irrelevante para o trabalho da PAR, à qual a Comunidade Islâmica de Lisboa se juntou. “Nós não exigimos que as pessoas que sejam beneficiadas sejam muçulmanas. Podem até ser ateus! Não queremos que alguém seja isto ou aquilo. Somos todos iguais perante Deus, e Deus é que vai julgar no final quem é bom e quem é mau.”