Getúlio Vargas, ditador brasileiro, ofereceu a Francisco Franco e a Espanha 600 toneladas de grãos de café em 1939. O café era um dos bens que mais escasseavam em Espanha, no pós-guerra civil, e a procura era muita. Recebido o café, o ditador espanhol encaminhou-o para um organismo público que vendeu o produto ao preço de mercado e um valor “exatamente igual” ao montante obtido com essa venda – 7,5 milhões de pesetas – apareceu, uns tempos depois, na conta bancária de Francisco Franco.

Esta é uma das revelações de um livro escrito por Ángel Viñas, historiador espanhol, que será publicado a 22 de setembro em Espanha e que mostra como Francisco Franco acumulou fortuna durante os anos da Guerra Civil. Ao mesmo tempo que passava uma imagem de frugalidade e desapego em relação ao dinheiro, Franco acumulou riqueza de formas que, como descreve o El País, levariam nos dias de hoje a que o ditador fosse presente a um juiz.

La otra cara del Caudillo. Este é o título da obra que está prestes a ser publicada em Espanha* e que conta, também, como o ditador espanhol recebia uma “gratificação mensal” de 10 mil pesetas por parte da empresa de telecomunicações Telefónica, na altura controlada pela norte-americana ITT. O valor representaria hoje algo como 11 mil euros mensais. Já o rendimento de 7,5 milhões de pesetas com a venda do café oferecido pelo seu homólogo brasileiro, na viragem para a década de 40, terá aumentado a fortuna de Franco em cerca de 85 milhões de euros, aos valores de hoje.

As primeiras notícias sobre os extratos bancários de Franco surgiram na revista Tiempo, em 2010, mas não se percebia a origem desses 7,5 milhões de pesetas. A 31 de agosto de 1940, Franco tinha 34,30 milhões de pesetas em várias contas bancárias, recheadas em parte por donativos de simpatizantes do seu lado do conflito que levara à Guerra Civil, diz o El País. O autor da obra assinala que Franco usou parte da sua riqueza para fazer donativos a instituições religiosas e sociais, mas “a minha suspeita é que ficou com ele grande parte dos fundos acumulados”, escreve Ángel Viñas.

Francisco Franco tinha um ordenado de 2.493 pesetas em 1935 e, em 1940, como chefe de Estado, recebia 50 mil pesetas de salário anual. De onde lhe vinha? “Em qualquer caso, nem que Franco tivesse poupado todos os seus rendimentos como chefe de Estado e como coronel, mais a gratificação da Telefónica, nem assim seria possível ter acumulado os saldos bancários de que dispunha em agosto de 1940”. A única hipótese, diz o autor da obra, é que tenha havido “realocação de donativos”.

*Esta notícia será atualizada com informação sobre a tradução e publicação em Portugal, se esta existir