Tsunami

O efeito devastador de um megatsunami… há 73 mil anos

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Um vulcão colapsou na ilha do Fogo. Formou-se um tsunami com ondas de mais de 200 metros. A força das águas na ilha de Santiago levou grandes blocos para as zonas mais altas.

O flanco oriental da ilha do Fogo, em Cabo Verde, colapsou há 73 mil anos. Pela mesma altura terá acontecido uma “inundação marinha catastrófica” na ilha de Santiago, a leste, que aparentemente só pode ter sido causada por um tsunami. Uma equipa de investigadores, que inclui cientistas portugueses, reuniu evidências que parecem demonstrar que um evento foi resultado do outro, conforme publicaram na Science Advances. O vulcão colapsou, formou-se um tsunami e a ilha vizinha foi inundada.

As observações reunidas pela equipa de Ricardo Ramalho, primeiro autor do estudo e investigador na Universidade de Bristol (Reino Unido) e na Universidade da Columbia (Estados Unidos), parecem responder a duas questões que têm ocupado a cabeça dos cientistas – com uns a dizer que é possível e outros a contestar. Primeiro, os flancos dos edifícios vulcânicos podem cair subitamente e de um modo catastrófico. Segundo, e motivado pela primeira afirmação, esses colapsos são capazes de gerar tsunamis de grandes dimensões.

A questão principal prende-se com o modo como se desenvolvem esses colapsos”, esclarece ao Observador José Madeira, co-autor do estudo e professor no Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). “Se ocorrem de um modo rápido e envolvendo toda a massa rochosa essa capacidade [de formar um tsunami] existe. Caso se desenvolvam através de sucessivos movimentos de massa menores, a dimensão dos eventuais tsunamis gerados será muito menor e, consequentemente, a perigosidade associada também será mais reduzida.”

Mas como é que os investigadores chegaram à conclusão que podiam associar estes dois eventos?

Já não é a primeira vez que José Madeira faz trabalhos de geologia nas ilhas de Cabo Verde. Estava na ilha de Maio (a leste das ilhas do Fogo e de Santiago), a trabalhar noutro tema, quando se deparou com os primeiros blocos rochosos, conforme contou ao Observador. “Na altura pensei que o depósito podia estar relacionado com o colapso de flanco da ilha do Fogo, mas era necessário provar isso.”

O primeiro teste foi procurar este tipo de blocos na ilha de Santiago que se encontra mais próxima da ilha do Fogo. “Efectivamente existiam depósitos idênticos em Santiago e a altitudes ainda maiores do que na ilha de Maio, o que estava de acordo com a assumpção de que a origem podia estar relacionada com a ilha do Fogo”, explica José Madeira, também investigador no Instituto Dom Luiz (IDL) da FCUL.

Figura ilustrativa da dimensão do tsunami e das consequências na ilha de Santiago - @ Ricardo Ramalho

Figura ilustrativa da dimensão do tsunami e das consequências na ilha de Santiago – @ Ricardo Ramalho

No extremo norte da ilha de Santiago, José Madeira encontrou os depósitos a maior altitude – cerca de 270 metros acima do nível do mar daquela altura. E ao mostrar as fotografias a Ricardo Ramalho “isso chamou-lhe a atenção para algo que ele tinha observado na mesma área, durante os trabalhos de campo para a sua tese de doutoramento, e que o tinha deixado intrigado”, explica. “Tratavam-se de dois campos de grandes blocos de basalto sobre a superfície do planalto adjacente.”

Nas ilhas de Santiago os investigadores encontraram campos de blocos rochosos, alguns destes blocos da dimensão de caravanas, como refere o comunicado de imprensa, assim como sedimentos marinhos que cobrem vastas áreas da superfície da ilha muitas dezenas de metros acima do nível do mar.

Ricardo Ramalho explica o fenómeno num vídeo divulgado pela Universidade da Columbia.

“Rapidamente fizemos a ligação entre os dois conjuntos de observações e com a altíssima probabilidade de estarem efectivamente ligados ao colapso do flanco leste da ilha do Fogo”, afirma José Madeira. Para os dois investigadores parecia não haver dúvidas, mas era preciso prová-lo cientificamente datando os depósitos. Ou seja, descobrindo que idade é que tinham.

“Por coincidência o Ricardo havia ganho uma bolsa Marie Curie através da Universidade de Bristol, onde se tinha doutorado, para trabalhar em datações nos laboratórios de [Observatório da Terra] Lamont-Doherty [da Universidade de Columbia] em Nova Iorque e isso permitiu-lhe aplicar uma técnica muito especial – o método de exposição cosmogénica – na determinação da idade de deposição dos grandes blocos”, conta o investigador do IDL. Os resultados desta datação permitiram confirmar que o colapso do vulcão e o tsunami que ali colocou os blocos aconteceram há aproximadamente 73 mil anos.

E agora, o que podemos esperar?

Mostrando que é possível que os flancos dos vulcões colapsem de um momento para o outro e que esse colapso pode originar um forte tsunami, José Madeira lembra que poderão ter acontecido muitos casos no passado e outros poderão acontecer no futuro. “Isto obriga a que a partir de agora se tenha este facto em atenção quando se considera a perigosidade associada a ilhas vulcânicas, particularmente às ilhas activas, de maiores dimensões e mais íngremes.”

Mas não há razões para alarmes. Estes acontecimentos de grande dimensão são pouco frequentes – mesmo em termos de tempo geológico, quanto mais de tempo humano. E o investigador estima que “eventos desta dimensão ocorram com intervalos da ordem de algumas dezenas a uma centena de milhares de anos”.

Contudo, tal como aconteceu no passado, voltará a acontecer no futuro. Sabe-se que alguns destes grandes vulcões oceânicos apresentam maiores probabilidades de vir a sofrer um evento deste tipo, mas no estado actual dos conhecimentos não podemos afirmar onde, e ainda menos quando, um futuro colapso desta dimensão ocorrerá”, conclui José Madeira.

Daqui para a frente é preciso continuar a investigar este tipo de eventos, que ainda estão mal estudados, para perceber, por exemplo, que fenómenos os desencadeiam. Para isso é preciso vigiar os edifícios vulcânicos que sejam mais propensos a este tipo de eventos. “O objectivo é conseguir-se um dia lançar um alerta em tempo útil”, afirma o investigador. E claro, “planear antecipadamente a resposta a uma crise deste tipo”.

Atualizado às 12h30 de dia 3 de outubro. Erro corrigido.

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