(Artigo corrigido dia 11 de outubro, às 12h45)

A descoberta de genes que justificam a homossexualidade faria certamente a manchete de muitos jornais e alguns investigadores têm-se dedicado a estudar se haverá mesmo um código definido pelas nossas células que determine a nossa orientação sexual. A nossa e já agora a dos animais, visto que os comportamentos homossexuais não são exclusivos dos humanos. Mas, apesar do alarido que se criou nos últimos dias nos meios de comunicação social, ainda não há resposta definitiva para esta questão.

Começando pelo princípio. No dia 8 de outubro, Tuck Ngun, geneticista computacional da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), apresentou os resultados de um trabalho desenvolvido por uma equipa da mesma universidade na conferência da Sociedade Americana de Genética Humana. O estudo identifica cinco marcadores epigenéticos – alterações químicas no ADN que afeta, não a informação genética, mas a forma como ela é expressa, explica a Nature News. Estas alterações podem ser hereditárias, mas também podem ser alteradas pelo ambiente.

A Nature News – o serviço noticioso do grupo Nature e não a revista científica – foi das primeiras a noticiar o assunto que depressa foi replicado por outros órgãos de comunicação. Mas enquanto a Nature News refere que os autores ainda precisam de fazer mais estudos para poderem generalizar uma conclusão que tiraram de um estudo com menos de meia centena de pares de gémeos, outros apressaram-se a afirmar que os genes que determinam a homossexualidade tinham sido encontrados. Mas atenção, as associações que se encontram em grupos pequenos tendem a dissipar-se em estudos que incluem uma quantidade maior de dados, como reforça a Nature News.

Já sabemos que não existe nenhum ‘gene da homossexualidade’”, disse William Rice, geneticista e evolucionista da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, citado pela Nature News. Se existissem, continua o autor, já teriam sido detetados nos trabalhos de sequenciação do genoma humano, já teriam sido encontradas variações comuns em indivíduos homossexuais.

Guia, em três passos, para olhar cautelosamente para os novos estudos

1. Apresentar numa conferência não é o mesmo que publicar numa revista científica

Os investigadores que apresentam trabalhos preliminares nos encontros da especialidade, antes de terem o artigo publicado numa revista científica, procuram muitas vezes aprovação pelos pares (os outros cientistas) ou sugestões para melhorarem o trabalho que estão a desenvolver.

A publicação de uma nova investigação numa revista científica com revisão por pares (peer review) é escrutinada por outros cientistas que identificam as falhas no trabalho e propõem correções e que podem mesmo impedir a publicação de um trabalho de baixa qualidade.

O processo de revisão por pares não é infalível, mas é neste momento a melhor forma de garantir que investigação publicada é credível e uma das melhores formas para detetar fraudes antes da publicação.

2. Uma amostra pequena não permite generalizações

A investigação centrou-se em 37 pares de gémeos idênticos do sexo masculino, em que um dos indivíduos era homossexual e o outro não, e 10 pares de gémeos em que ambos eram gays. Esta amostra seria pequena em quase todos os tipos de estudos, mas ainda mais em trabalhos de epigenética cuja validação requer maior robustez do que a apresentada pelos investigadores da UCLA, critica The Atlantic.

Se a amostra era pequena ficou ainda mais pequena depois de ser separada num grupo para criar o algoritmo do modelo e noutro grupo de teste. A divisão em dois grupos é o procedimento correto, como refere The Atlantic, mas com uma amostra tão pequena as conclusões ficaram ainda menos robustas. Acrescente-se que falta aqui também a situação em que nenhum dos gémeos do par é homossexual, para que se possam realmente detetar diferenças e semelhanças.

Das 140 mil regiões do genoma analisadas, seis mil mostraram, segundo os autores, ter algum interesse para o trabalho e dessas apenas cinco foram usadas no modelo criado em computador. Com este modelo, os investigadores conseguiram, segundo apresentaram, acertar em 67% das vezes a orientação sexual dos gémeos.
Segundo The Atlantic, os investigadores utilizaram o grupo de teste para melhorar o algoritmo do modelo, o que faz com que as probabilidades de conseguirem um resultado positivo quando tentam identificar um marcador relacionado com a homossexualidade aumenta, mas de forma artificial.

3. Correlação não implica causalidade

Não é porque um grupo de homossexuais apresenta um conjunto de marcadores em comum que isso implica que esses marcadores estão relacionados com a homossexualidade.

Por um lado, é preciso provar que os heterossexuais não têm esses marcadores. Por outro, é preciso mostrar que implicações têm esses marcadores epigenéticos, que função têm na regulação da expressão dos genes. Ou seja, o facto de marcadores existirem apenas em homossexuais pode ser um acaso e não ter qualquer relação com a orientação sexual.

Dos cinco marcadores identificados, três estavam em regiões do ADN que não estão relacionados com nenhum gene, explica a Nature News. Outro estava relacionado com um gene do sistema imunitário e outro com o desenvolvimento cerebral. Mas apesar de terem encontrado a localização dos marcadores, os investigadores podem apenas especular, neste momento, sobre a função que têm, porque não fizeram nenhuma investigação nesse sentido.