Artigo publicado originalmente em novembro de 2015, por altura da constituição de quatro membros da Fraternidade como arguidos, e atualizado a 29 de maio de 2019

No dia 18 de novembro de 2015, uma operação levada a cabo pela Polícia Judiciária (PJ) do Porto deixou surpresos os habitantes de Requião. Buscas realizadas à Fraternidade Missionária de Cristo-Jovem, uma associação de fiéis ali fundada, resultaram na apreensão de vários objetos, que seriam usados para castigar noviças. Foram ainda constituídos quatro arguidos, três freiras e o padre responsável pela instituição. Em causa estavam alegados crimes de maus-tratos, rapto e escravidão. Passados quase quatro anos, a acusação foi finalmente conhecida — os arguidos foram acusados de nove crimes de escravidão pelo Ministério Público.

Apesar de a fraternidade sempre ter sido conhecida como um convento, e de até sido construída numa rua com esse nome, as freiras que a integram estão longe de serem freiras e as noviças de serem noviças. Fundada no final dos anos 70 pelo padre Joaquim Milheiro, a fraternidade tem a forma jurídica de uma associação de fiéis — ou seja, as “irmãs” que a integram são apenas leigas consagradas e não pertencem a nenhuma congregação religiosa.

A organização, com estatutos aprovados pela arquidiocese de Braga em 1978, é a representante em Portugal das chamadas “Testemunhas da Cruz”, um movimento cristão originário do norte de França. Este surgiu no início da década de 80, na sequência de uma série de 49 revelações que teriam sido feitas por Cristo a Madeleine Aumont, uma vidente da localidade de Dozulé, na Normandia.

A primeira aparição terá acontecido na madrugada de 28 de março de 1972. Às 4h40 da manhã, Madeleine terá visto surgir à sua janela uma cruz “enorme, maravilhosamente bela e mais brilhante do que o dia”. Do Céu, uma voz terá exclamado: “Ecce crucem domini“, “eis, a cruz do Senhor”. Nas revelações seguintes, que se terão prolongado durante vários anos, Cristo terá pedido à vidente que transmitisse à Igreja o desejo de ver erguida uma cruz com 738 metros de altura.

Em 1982, Albert Delbauche, um professor de ioga, criou as “Testemunhas da Cruz”, depois de também ter alegadamente recebido várias revelações e mensagens de Jesus. O movimento é atualmente liderado por uma outra vidente, que se identifica pelas iniciais J.N.S.R., ou seja “je ne suis rien“. Foi a J.N.S.R. que Cristo terá pedido que difundisse as “cruzes do amor”, com 7,38 metros, em substituição da “cruz gloriosa” de Madeleine Aumont, cuja construção não recebeu o apoio desejado.

A polémica das “cruzes do amor”

As “cruzes do amor” chegaram a Portugal em finais dos anos 90, trazidas pela Fraternidade Missionária de Cristo-Jovem. Em pouco mais de três anos, a organização distribuiu quase 1.600 cruzes, que foram erguidas em paróquias, casas particulares e até prisões, refere uma notícia do jornal Público de fevereiro de 1999. Hoje em dia, ainda é possível encontrar algumas destas cruzes que, à noite, lançam uma intensa luz azul.

As “cruzes do amor” eram, de acordo com a fraternidade, um projeto de redenção e a “única tábua de salvação que nos levará de regresso a Deus”. Para além disso, as cruzes iluminadas pretendiam ser também ser “um elemento purificador” da própria Igreja Católica, que “deixou de ser alternativa ou diretriz para os tristes males” dos tempos modernos, explicou na altura ao Público uma das três mulheres que então viviam com o padre Milheiros na sede da fraternidade em Requião.

A associação de fiéis acreditava que o fim dos tempos estava próximo, e que haveria de chegar “antes do fim do século” XX. Panfletos distribuídos na altura referiam mesmo a presença de videntes no interior na casa, que podiam ser visitadas no segundo domingo de cada mês, altura em que esta abria (e ainda abre) ao público. “A hora é grave”, frisava um dos textos divulgados, “serão os espíritos seduzidos por Satanás” que conduzirão a humanidade “a uma catástrofe como jamais houve desde o Dilúvio.”

Apesar da popularidade das “cruzes do amor” em Portugal, a Igreja não se mostrou nada satisfeita com a mensagem apocalíptica da Fraternidade Missionária de Cristo-Jovem. Em declarações ao Público, D. Manuel Falcão, bispo de Beja, admitiu que a Igreja foi apanhada de surpresa com proliferação de cruzes e mensagens “ávidas de revelações extraordinárias”. Em Braga, D. Jorge Ortiga mostrou-se também incomodado com a colocação de cruzes na sua diocese. Em 1999, chegou mesmo a pedir explicações à associação sobre a forma como trabalhava. Em relação às cruzes, porém, não pode fazer nada, uma vez que tinham sido colocadas em terrenos privados.

Bofetadas, penitências e trabalhos forçados 

As notícias divulgadas em novembro de 2015 deram conta do ambiente que se vivia dentro do convento. Para além dos castigos corporais, que incluíam bofetadas, espancamentos ou largas horas de penitência de joelhos, as jovens que ali ingressavam não podiam abandonar as instalações. Estavam proibidas de visitar a família e não tinham acesso a cuidados médicos. De acordo com o Jornal de Notícias (JN), havia até “privações de comida ou de bebida”. Qualquer desobediência era severamente castigada.

O caso já havia sido denunciado à arquidiocese de Braga por três noviças que, em 2014, conseguiram fugir do convento. Fonte da PJ confirmou ao Observador que a denúncia tinha sido apresentada nesse ano, e que as três jovens tinham sido vítimas de maus-tratos durante “vários anos”. Porém, só em 2015 é que a arquidiocese fez chegar o caso às autoridades, garantindo, contudo, na altura, que iria continuar “de forma independente” o trabalho iniciado há cerca de um ano, disse ao JN uma fonte que não foi identificada. 

Num comunicado emitido a 18 de novembro de 2015, a arquidiocese de Braga esclareceu que “foi informada por ex-membros” em “finais do ano passado, de presumíveis anomalias na vida quotidiana da comunidade”. Na altura, terá iniciado “uma investigação interna” e contactado “com as pessoas residentes”. “Foi indicado, ao mesmo tempo, um sacerdote para acompanhar mais de perto a vida da Fraternidade Cristo-Jovem”, que “iniciou a elaboração de um relatório contendo as informações necessárias em ordem a uma oportuna decisão”.

Na pequena freguesia de Vila Nova de Famalicão, porém, ninguém parecia desconfiar de nada. Os moradores diziam-se apanhados de surpresa e até o presidente da junta disse não saber de nada. “Nada dava indícios do que quer que seja. Se de facto existe, não faço ideia”, afirmou João Ferreira, em declarações à TVI. O que se passou durante quase 40 anos do outro lado dos muros da fraternidade parecia ser um segredo bem guardado.

Pode ter havido “um estalozito”

Em entrevista à TVI, Isabel Silva, uma das fundadoras da Fraternidade Missionária de Cristo-Jovem e uma das três mulheres acusadas de escravidão, admitiu que “uma vez ou outra se pode ter dado um estalozito”, mas negou as acusações de escravatura e trabalhos forçados. “Sobre a escravidão, eu queria apenas dizer uma coisa: o amor supera tudo. É porque não estavam por amor”, disse ao canal de televisão.

Sobre os castigos que eram aplicados às noviças, a irmã Isabel frisou que não era ela que fazia “isso”, até porque tem “estado muito doente” e de cama. “Eu até trabalho mais no computador e essas coisas”, frisou. Apesar disso, garantiu que “às vezes pode ter acontecido”. Aliás, “aconteceu de certeza”.

Na entrevista, a fundadora explicou ainda o uso de uma corda, com uns “nozinhos”, para açoitar as noviças nas pernas. Porém, garantiu que “não é coisa para deixar uma pessoa negra”. “Quando uma pessoa se porta mal é chamada à atenção. Quando chamamos à atenção uma vez é uma coisa, quando chamamos a segunda vez já é outra. Quando chamamos a terceira, então vamos a vias de facto.”

O Observador tentou por diversas vezes contactar Isabel Silva, mas sem sucesso.

A história de Maria Amélia

A queixa apresentada pelas três noviças em 2014 levantou novas dúvidas sobre a morte súbita da irmã Maria Amélia, que foi encontrada morta dentro de um tanque da propriedade pertencente à Fraternidade Missionária de Cristo-Jovem, em 2004. Na altura, pensou tratar-se de suicídio. Porém, “com tudo isto, há dúvidas sobre se ela terá sido pressionada coagida ou humilhada”, disse ao JN um familiar da irmã.

Maria Amélia de Matos Serra entrou para a fraternidade em 1979, um ano depois da sua fundação. Durante 25 anos, viveu no interior da instituição, na companhia de outras freiras e do padre Joaquim Milheiro, o seu fundador. Raramente era vista do lado de lá do muro da fraternidade, a não ser quando visitava “pontualmente” a terra natal, acompanhada por outras irmãs.

Nos últimos anos de vida, sofreria de uma depressão, que terá levado ao seu suicídio. A sustentar esta teoria existiriam alguns bilhetes, que terão sido encontrados pela polícia. A falta de indícios de crime acabou por levar o Ministério Público a arquivar o processo que, de acordo com o noticiado pelo JN em 2015, poderia vir a ser reaberto, uma vez que foi referido na denúncia apresentada em 2014 à arquidiocese de Braga. Tal não aconteceu, mas o caso de Maria Amélia é referido na acusação que foi dada a conhecer esta semana.

De acordo com esta, a mulher era “constantemente perseguida” por Maria Arminda, uma das alegadas freiras e uma das arguidas, que “lhe desferia empurrões, arrancava-lhe o lenço durante as orações, dava-lhe pontapés nas pernas e bofetadas na cara”. Na acusação é ainda relatado como, uma vez, estando de cama com febre, terá sido abordada pela agressora que, “com o conhecimento e anuência dos demais arguidos, levou-lhe o almoço composto de excrementos de cão, que atirou para cima da cama e os lhe [sic] esfregou na cara e mandou-a ir lavar-se pois estava com o Diabo”, citou o Público.

Na noite anterior à sua morte, terá sido de novo insultada e tratada por “besta” e “infiel” por ter olhado para a televisão.