Jerónimo de Sousa continuará como secretário-geral do PCP em 2017, depois do Congresso do partido, agendado para dezembro deste ano? Em entrevista à Rádio Renascença, o líder comunista diz que a decisão pertence ao Comité Central. Mas sublinha que o sentimento que tem é de que muitos “consideram que eu devia continuar” – desde “camaradas do partido”, a “amigos do partido”, passando até por “muita gente” fora do PCP.

“Eu não quero fazer elogios em boca própria, mas olhe que o sentimento que eu tenho – desde o sítio onde moro, desde as deslocações que faço, desde a exposição pública natural de um cidadão comum como sou, nas incitativas do partido, nas campanhas eleitorais – se eu fizesse uma leitura pessoal disso, tiraria uma conclusão, que os meus camaradas de partido, os amigos do partido e muita gente mesmo que não é do meu partido, que consideram que eu devia continuar“, disse o atual líder do PCP.

Esta não é a primeira vez que o secretário-geral do PCP deixa indicações quanto à vontade de continuar no cargo. Já em setembro, em plena campanha eleitoral, Jerónimo de Sousa rejeitava sentir-se “cansado” com a campanha eleitoral e com a liderança do PCP. À data, o secretário-geral comunista afirmava que “quem está à espera que me canse bem pode cansar-se à espera”, tendo dito ainda: “Aqui estou para as curvas”.

Em entrevista ao jornal I, também em setembro, Jerónimo de Sousa afirmava:

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Por mim estou em condições de continuar. (…) Neste momento a opinião dos meus camaradas é a opinião de muita gente. Não é falsa modéstia, mas às vezes fico surpreendido por tanta gente fora do meu partido, que não é militante e muitas vezes nem simpatizante, me dar este incentivo surpreendente: Continue, não se vá abaixo! Continue a sua luta! É um incentivo de grande valor e até um prémio.

Em dezembro, um ex-dirigente do Partido Comunista afirmava ao jornal I que Jerónimo de Sousa “não quer deixar a liderança, mas há um movimento nesse sentido, com [a] má prestação nas legislativas” de 4 de outubro, em que a coligação PCP-PEV elegeu 17 deputados: menos dois do que os deputados eleitos pelo Bloco de Esquerda, por exemplo. Ao mesmo jornal, um “observador atento da vida do PCP” afirmava que, dentro do partido, “há quem tenha pressa” em substituir o secretário-geral, para “não correr o risco de disputar eventuais [eleições] legislativas antecipadas novamente com Jerónimo” como líder.

As declarações surgiam dias depois de Jerónimo de Sousa ter admitido que no futuro “pode haver alteração de responsabilidades” dentro do PCP. Independentemente disso, garantiu Jerónimo à data, “continuarei sempre a ser comunista”.

O facto de Jerónimo de Sousa, secretário-geral do partido desde 2004, não ter sido o nome indicado pelo Comité Central do PCP para o Conselho de Estado (o escolhido foi Domingos Abrantes, histórico dirigente comunista) também causou alguma estranheza. Isto porque, até aqui, o nome proposto pelo Comité Central para o Conselho de Estado foi sempre o do então secretário-geral: primeiro Álvaro Cunhal, depois Carlos Carvalhas.

Esta terça-feira o candidato presidencial Edgar Silva não descartou a possibilidade de vir a ser secretário-geral do PCP no futuro. Interpelado por Marcelo Rebelo de Sousa, que lhe perguntou se pensava em vir a candidatar-se ao cargo, Edgar Silva disse apenas que “quem decide isso são os militantes”.

Texto editado por João Cândido da Silva