“A morte dele não foi diferente da vida: uma obra de arte”, reagiu no Facebook o histórico produtor Tony Visconti, velho amigo de David Bowie. A obra de arte foi o mistério, razão por que desde ontem ecoa uma pergunta: como é que uma figura planetária conseguiu ocultar a doença?

Provavelmente, da mesma forma que escondeu o álbum The Next Day, lançado no início de 2013 sem qualquer aviso prévio, depois de uma década sem gravar. Bowie era o mestre do disfarce.

A morte aconteceu ao fim de 18 meses de luta conta o cancro, confirmou à CNN o assessor Steve Martin, que declarou entretanto não se tratar de uma mentira. O filho do cantor, Duncan Jones, também apareceu no Twitter a dizer que a notícia era verdadeira – tal a dimensão cénica da vida de Bowie e a morte e renascimento das suas personagens, como Ziggy Stardust, Aladdin Sane ou Thin White Duke.

Visconti escreveu no Twitter que sabia há um ano da doença do amigo. “Mas não estava preparado” para a notícia. Wendy Leigh, autora de uma biografia sobre Bowie, adicionou pormenores: fonte próxima do cantor disse-lhe que ele sofreu seis ataques cardíacos desde 2004. E também isso ficou sob segredo até agora.

A causa da morte terá sido um cancro no fígado, de acordo com o encenador belga Ivo van Hove, que trabalhou com Bowie no musical Lazarus, em cena no Theatre Workshop, em Nova Iorque.

Na noite de estreia, a 12 de dezembro, o cantor britânico terá feito a sua última aparição pública. E ninguém poderia suspeitar. “Os jornais escreveram que ele tinha um ar saudável, mas à saída desmaiou subitamente e pensei que seria a última vez que nos víamos”, disse Van Hove esta segunda-feira ao jornal holandês Dutch News.

O encenador era uma das poucas pessoas que sabiam da doença. O cantor ter-lhe-á feito a confidência como justificação para a ausência em alguns ensaios do espetáculo. “Vi um homem a lutar como um leão”, disse Van Hove.

Quem obviamente também estava a par da doença era Iman Abdulmajid, mulher de Bowie há 24 anos. Nos últimos dias, a antiga supermodelo publicou duas imagens no Twitter com mensagens de esperança. Na altura, poucos sabiam o seu verdadeiro significado. Num dos tweets lia-se: “A luta é de verdade e Deus também”. E noutro: “Por vezes, só ficamos a conhecer o verdadeiro valor de um um momento quando ele se torna memória.”

O músico Brian Eno estava longe de saber qual o estado de saúde de Bowie, apesar de os dois serem próximos. Eram amigos desde os anos 70, quando gravaram juntos os álbuns de Berlim: Low, Heroes e Lodger.

Num depoimento à BBC, Brian Eno revelou que um email recente enviado por Bowie incluía uma mensagem agora interpretada como de despedida.

“A morte de David é uma absoluta surpresa, como quase tudo que se relaciona com ele”, escreveu. “Recebi um email dele há sete dias, terminava com esta frase: ‘Obrigado pelos momentos agradáveis, Brian, nunca vão desaparecer’. E assinava como ‘Dawn” [amanhecer].”

“Nos últimos anos, com ele a viver em Nova Iorque e eu em Londres, comunicávamos por correio eletrónico”, precisou Brian Eno. “Assinávamos com nomes inventados: Mr. Showbiz, Milton Keynes, Rhoda Borrocks e Duke of Ear, eram alguns dos nomes dele.”

Nos últimos dias de vida, Bowie posou para o seu fotógrafo oficial e amigo Jimmy King. As imagens foram reveladas no site oficial na passada sexta-feira, 8, quando o músico fez anos. O autor de “Let’s Dance” aparece sorridente, com roupas do designer de moda Thom Browne. São, possivelmente, as sua últimas imagens.